As eleições para a mesa da Câmara são uma tristeza. Por baixo da agitação, dos conflitos de egos, das carreiras pessoais, ela pode ser lida também sob uma ótica essencial: ajuda ou enfraquece a democracia?
Creio que a segunda hipótese é verdadeira. Quase toda a campanha foi conduzida em torno de temas corporativos, como aumento de salário, verbas de gabinete e até construção de novos banheiros.
Questões fundamentais como autonomia do parlamento, reformas vitais para o Brasil ou mesmo a redução do recesso parlamentar, equivalendo nossas férias às dos trabalhadores legais no país, nem foram levantadas ou ficaram em segundo plano.
Se considerarmos a cobertura da imprensa, veremos que as eleições contribuiram para separar mais ainda o Congresso do povo, criando a sensação de que os deputados são uma casta interessada no seu próprio conforto e alheia aos grandes problemas do país.
O pior é que muitos consideram esta imagem como resultado da má vontade da imprensa. Conclusão errônea, que será complementada por outra mais errônea ainda: a necessidade de construção de um sistema próprio da imprensa, jornais, rádio, todos pagos com dinheiro de impostos, para que os deputados tenham contato direto com a população.
O ideal seria o Congresso brasileiro perceber que seu distanciamento do povo pode enfraquecer a democracia. E iniciar uma arrancada para reconquistar a confiança. Quantos pensam assim? Com quem contar para uma virada?
É preciso constituir um grupo preocupado estategicamente com a democracia. E tentar, de alguma maneira, reduzir o impacto negativo desse comportamento que pode levar até ao desejo de fechamento do Congresso.
Devo votar com o candidato indicado pelo partido majoritário. Lula e o PT são maioria, tiveram muitos votos, e, segundo as pesquisas, continuam merecendo a confiança de grande parte dos seus eleitores. Ao votar no candidato do governo, não significa que concordo com todas as suas teses ou que vou votar com eles em outro momento. Apenas reconheço a legitimidade do acordo que confere o privilégio ao partido majoritário.
Não há dúvida que o PT contribuiu para que o Congresso chegasse a este ponto. De um lado, seu deslumbramento com a chegada ao governo e as melhorias materiais que isto significou para muitos. De outro, seu esforço contante de criar maiorias, desprezando o debate, e fortalecendo o fisiologismo.
Se os dirigentes do PT acham que a destruição moral do Parlamento pode ajudá-los estão enganados. Com a derrocada da confiança na democracia, todos estaremos perdidos.
Por enquanto temos de conviver com este ridículo de uma Câmara cheia de cartazes, suja como os políticos sujam as ruas na época das eleições. Se num universo de 500 eleitores, ainda precisam sujar tudo para que seu retrato seja visto, imaginem o que não farão nas praça públicas.
Votarei no candidato do governo, mas não deixarei de protestar pelo horror que foi este processo.
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