20.07.2004
Pancas – Lugar mais bonito do mundo. A região dos Pontões dos Pancas, no Espírito Santo, arrancou esta exclamacão de Roberto Burle Marx, o maior paisagista brasileiro. Ainda era quase virgem.
Mesmo agora, vários anos depois da visita de Burle Marx, os ecologistas ainda consideram vital sua preservação. Sobrevoaram a área, que é um oasis no devastado norte do estado, viram a beleza cênica das inúmeras pedras e intuiram pela presença da Mata Atlântica que havia uma grande biodiversidade.
Foi criado o Parque Nacional das Pontões Capixabas, com uma extensão de 17,4 mil hectares, e todos voltaram contentes dos seus sobrevoôos. Só que não aterrisaram jamais para constatar que além de tudo havia alí uma grande riqueza cultural: dois mil pomeranos que vieram para o Espirito Santo no fim do século XIX, vivem de acordo com seus costumes e são responsáveis por evitar que a região tenha sido destruída, como outras matas do Espírito Santo.
Criou-se, por incapacidade burocrática, um falso dilema: o parque ou os pomeranos. Na verdade, o Parque dos Pontões Capixabas é dos pomeranos não só porque são donos legais das terras mas também porque sua ausência representaria o início da destruição da área que, bem administrada, pode ser um dínamo do desenvolvimento da região.
Quando chegou a notícia de que os pomeranos podiam ser expulsos dos Pontões houve um desespero na área. Pessoas como Juliberto Stur, de 52 anos, quarta geração dos imigrantes, que vive em contato direto com a mata e seus bichos imaginou a morte que, para ele, tem a forma de um apartamento na periferia das grandes cidades.
Se os pomeranos, que falam um idioma parecido com o alemão, fossem mesmo expulsos, seria a terceira grande maldade que sofreriam no território brasileiro. A primeira foi quando chegaram da Europa, com promessas não só de terras férteis, mas estradas, postos medicos, armazéns. Não havia nada disso. Foram jogados no mato e ainda por cima tendo como vizinhos os antropófagos botocudos, destruídos pelos grileiros.
A segunda vez que sofreram foi na II Guerra Mundial. A polícia secreta de Getúlio Vargas estimulava a população a perseguí-los e destruir suas propriedades. Viviam encerrados em casa, com medo de estranhos. Por causa disso, foram eles considerados estranhos e arredios.
Nesta terceira vez, já estavam instalados. Seus filhos estudaram em universidades brasileiras. Uma delas, Partricia Stur, diplomou-se como farmacêutica, e voltou para a região para articular a resistência dos mais velhos contra a possibilidade de serem expulsos.
A noticia correu no Espírito Santo. O jornalista Rogério Medeiros, que trata de temas étnicos e ambientais, escreveu uma reportagem sobre o drama dos pomeranos. Em seguida, Patricia, para fortalecer os laços culturais dos pomeranos, casou-se como se casavam as mulheres pomeranos violentadas pelos senhores feudais alemães: vestida de preto. As bodas duraram três dias e apartir daí cada vez mais os pomeranos, que começam a fornecer dados para um dicionário de pomerano em português, ganharam confiança para lutar por suas terras.
A presença deles no Parque Nacional é, além de uma questão de justiça, a grande saída para a conservação. Duas mil pessoas que amam a terra, comunicam-se entre si e têm mantido os caçadores e desmatadores à distância, são muito mais capazes de defender a mata do que funcionários do Ibama, mal pagos e sem recursos .
Esse é o principio da história. Ela fica mais nítida quando se avalia o grande potencial de desenvolvimento sustentável da área.








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