Construindo pontes

O relator da ONU que visita o Brasil, Phillip Alston, esteve hoje na Câmara e todos os deputados presentes ao encontro tiveram a oportunidade de expor a ele suas posições.

A minha posição deve ser divulgada na midia, mas por via das dúvidas, eis os principais pontos:

a) O relatório da ONU sobre violiência no Brasil deve ser exato. Os erros cometidos num recente relatório sobre São Paulo acabara enfraquecendo o instrumento intenacional;

b) Os direitos humanos no Brasil sempre foram (e isso é uma confissão de militante) voltados para proteger o indivíduo contra a violência do Estado. No entanto, nos últimos anos, grupos de criminosos organizados realizam inúmeras barbaridades e suas vítimas não são protegidas. Por que?

c) Os policiais brasileiros são atingidos em combate e não despertam solidariedade dos movimentos de direitos humanos e da sociedade em geral. O que significa isto? O trabalho dos policiais tem ou não tem importância? Quando um soldado é sequestrado em Israel todo o país se mobiliza. A idéia é passar a certeza de que o país valoriza quem trabalha pela sua segurança e não o deixa abandonado.

d) O Brasil trava debates radicais mas, às vezes, não vai a lugar nenhum. Há gente pelo aborto e contra o aborto. Mas não se unem para ampliar a informação. Outro dia uma jovem paraense teve um filho no avião. Não sabia que estava grávida e gritou: tem uma coisa saindo de mim. Discute-se contra e a favor da legalização das drogas mas não se chega a um acordo sobre a reforma da polícia. Mais eficacia e honestidade interessam às duas partes. Os direitos humanos também se tornaram um beco sem saída. Ao invés de oposições radicais, que têm seu lugar e devem ser debatidas, precisamos contruir pontes. Pelo menos, é esta a sensação que tenho depois de tantas batalhas.

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Morte do general brasileiro no Haiti

19:00h – Eleiçoes e sequestros 

A morte do general Urano Bacellar acontece num momento em que as forças militares da ONU preparavam uma grande ofensiva para garantir a segurança em Porto Príncipe. A última entrevista do comandante da MINUSTAH, Juan Gabriel Valdes, responsável pelo conjunto da missão que era dirigida militarmente pelo general Urano, foi inquietante.

Valdés anunciou que alguns candidatos às eleições no Haiti estavam se preparando para fazer uma onda de sequestros e, com o dinheiro obtido nela, financiar suas campanhas.

A reunião do Conselho de Segurança da ONU e também a manifestação da OEA serviram para bater o martelo: as eleições serão mesmo no sete de fevereiro. Vai ser um período conturbado.

18:36h

O general Urano Bacellar morreu num momento de frustração com mais um adiamento das eleições no Haiti. A própria Onu está recomendando que se façam eleições no dia 7 de fevereiro, para acabar de uma vez com essa novela.

Um dos grandes problemas das eleições é o favoritismo do ex-presidente René Préval, considerado um aliado de Aristides, o presidente deposto.

Um clima de intransigência está sendo criado entre as forças políticas do Haiti e os especialistas acham que as eleições vão trazer um comportamento mais radical. Isso significa para elas a velha história do Haiti. 

Aristides deposto, sua força política continua viva entre a população pobre de Porto Principe, apesar dos grupos armadas que também se reclamam partidários de Aristides. Mas esses grupos, em alguns lugares como Bel’Air, parecem ter sido neutralizados.

Um dos pontos centrais que essa presença estrangeira no Haiti deveria considerar: por que, apesar de ocupado em 1915 e em 1994, os problemas do Haiti retornam sempre a uma crise política profunda? Quem não analisa cuidadosamente a história, corre o risco de repetí-la.

18:00h

A morte do general Urano Bacellar, comandante da ONU no Haiti, ainda não está de todo esclarecida. As primeiras notícias indicavam que houve suicídio. Havia referência a sua posição no quarto de hotel e fotos. A nota do Exército Brasileiro diz que houve um acidente com arma de fogo. O representante da ONU, no Haiti, anunciou que concederá uma entrevista às 19 horas para informar sobre o caso.

Estamos publicando a primeira notícia e vamos acompanhar o caso.

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Sombria península da Coréia

No momento em que a ONU determina sanções contra a Coréia do Norte, começo a compreender como é delicada a situação num país com uma ditadura estalinista, fome e desolação nas antigas florestas.

Os líderes norte coreanos sabem que um conflito pode atrair uma teia de ajuda internacional às áreas mais pobres. Mas sabem também o quanto ele será sangrento.

China, Japão, Rússia e Coréia do Sul são os que estão mais envolvidos na saída. Mas a saída não pode ser militar pois um conflito na Coréia seria devastador para ambos os lados, pois 49 milhões de coreanos em Seul seriam bombardeados incessantemente.

Um conflito na Coréia faria, segundo alguns analistas, os do Iraque e Afganistão uma guerra relativamente limpa.

Vou seguir estudando.

15/10/2006

Uma das minhas fontes para acompanhar a crise na Coréia foi o artigo de Robert D. Kaplan publicado na revista Atlantic. Constato que o Estadão o publicou, em português, na edição de hoje. Vale a pena acompanhar os cenários desenhados por Kaplan para quem o desfecho da crise coreana vai beneficiar a China.

Enquanto isto, vou buscando novo material para entender esse possível novo desenho da Ásia.

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Quimeras e zumbis no horizonte das Américas

Porto Príncipe – Gostei muito de um pintor haitiano chamado Stivenson Magloire. Uma dona de galeria resolveu abrir sua loja para mostrar os quadros dele. Fiquei impressionado com o tempo que levou, retirando cinco enormes cadeados da porta. Depois de alguns dias, ouvi o canto de um pássaro e, quando me precipitei para a varanda a fim de vê-lo, percebi que havia grades e cadeados.

Compreendi então que, em menos de alguns minutos, não veria o pássaro solitário que cantou numa árvore do bairro mais rico de Porto Príncipe.

Na estrada principal do país, a caminho da cidade de Cabaret, vi imensas voçorocas, a terra fendida ao meio como se fosse golpeada incessantemente por facões gigantescos. A paisagem do campo é triste, pela devastação ecológica; a de Porto Príncipe, repleta de ruínas não apenas de prédios antigos mas de casas que não chegaram a ser concluídas.

Apesar destes fatos, continuo me interessando pelo Haiti e, na terça, vi um espetáculo que poucos povos do mundo seriam capazes de produzir. Milhares de pessoas resistiram nas filas de seis, sete horas, para votarem em seu novo presidente e formarem um novo parlamento.

Houve tumulto aqui e ali. Morreram cinco pessoas. Outro dia, no Pará, morreu gente tentando comprar ingressos para um jogo da seleção brasileira. A imprensa se concentrou no caos, e isto é compreensível. Mas o caos, daqui a uns dias, será um pé de página: o acontecimento histórico das eleições prevalecerá, embora isto tenha sido apenas um primeiro passo.

Quando o Brasil decidiu mandar tropas, fui contrário e disse claramente a um grupo de generais no chamado Forte Apache em Brasília: uma vez decidido o envio de tropas, estamos no mesmo barco e farei tudo para que nos saíamos bem.

Sair-se bem e sair bem. O Brasil fez um excelente trabalho no bairro de Bel-Air: tapou buracos, recolheu lixo, instalou um pequeno posto médico nas proximidades e ganhou o apoio da população. Os documentos internos da ONU reconhecem esta política e costumam divulgá-la como a doutrina do general Heleno, o primeiro comandante da Ministah.

Chegou o momento de sair bem, de organizar gradativamente a retirada das tropas e transformar a cooperação econômica e cultural com o Haiti no centro de nossa ajuda. Chegou o momento de levar para o Brasil a tática que utilizamos aqui.

Dois anos se passaram depois da queda de Aristide. Os intelectuais que cercam Bush deveriam estar se perguntando se valeu a pena. As eleições, e basta andar por aqui para sentir, revelaram o peso de sua ausência. O golpe de Estado, ao invés de liquidar seu prestígio, serviu para mitificar sua aura.

Mesmo num país desencantado pelo avanço do capitalismo, o caminho antidemocrático acabaria fortalecendo o governo corrupto que se tenta afastar. No Haiti há quem diga que Aristide tem o corpo fechado. A linguagem cotidiana revela que muitos ainda vivem num mundo mágico. Os chiméres (os grupos armados), por exemplo, são chamados assim por analogia aos fantasmas que aparecem e desaparecem com facilidade. “Chimére” em português significa “quimera” e, como diz nossa canção popular, toda quimera se esfuma. A própria figura do zumbi, envenenado por um peixe e que acha que morreu, pertence à magia. Os zumbis servem aos seus mestres incansavelmente e estão muito presentes na própria arte popular haitiana.

Dois anos depois, ganhou a eleição no Haiti quem, entre os candidatos, foi associado pelo povo com o Aristide. O caminho poderia ter sido diferente, como, guardadas as abissais diferenças, poderia ter sido diferente o caminho no Iraque,diante da tirania de Sadam Hussein.

Os intelectuais que orientam Bush estavam muito confiantes de seu poder e resolveram exercitar os músculos ao invés dos neurônios. Eleições são importantes, mas não fazem milagre. A Fatah se corrompeu e abriu caminho para o Hamas na Palestina. Aristide foi mandado para a África do Sul e o caminho foi aberto para Préval -o mesmo que ele conseguiu paralisar nos seus dois últimos anos de governo e que, certamente, vai influenciar agora.

Préval vai visitar todos os países que ajudaram o Haiti. Mas, no fundo, seu coração reconhece duas grandes amizades: Cuba e Taiwan. Cuba porque ajuda discretamente, com médicos que partilham o destino do povo; Taiwan porque financiou sua campanha e tem colocado dinheiro em tudo por aqui, inclusive no estádio onde se fez aquele jogo da seleção brasileira.

Jamais pedi a retirada imediata das tropas porque sempre temi o efeito Ruanda. Procurei fazer uma leal oposição ao imenso passo que o Brasil deu, se jogando nesse processo. Como dizia Cazuza, o tempo não pára, o jogo não acabou. Tanto os intelectuais de Bush como os de Lula precisam confiar mais na cabeça. Freud, por exemplo, poderia ajudá-los na compreensão do processo histórico: o reprimido sempre reaparece no repressor. Aristide emergiu das urnas como uma chimére.

Se não tivermos uma análise própria não só do Haiti, mas do mundo, vamos remendar os equívocos norte-americanos, como o golpe que derrubou Aristide, e vamos vagar pelas Américas como um zumbi, incansavelmente operoso.

Na condenação à invasão do Iraque coincidi com o governo. Nessa aventura haitiana, mesmo reconhecendo a correção de nosso Exército, continuo achando o envio de tropas uma decisão precipitada. Depois do show cívico no intervalo eleitoral, vamos ao segundo tempo. Contra ou a favor, de certa forma, estarei sempre no mesmo barco. E la nave va.

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Eleições no Haiti

Designado pela Câmara para acompanhar as eleições do Haiti, estou de malas prontas para uma nova viagem a Porto Principe. Um outro deputado, Zico Bronzeado (PT-AC) foi designado também e o Senado mandará Eduardo Suplicy (PT-SP) e Saturnino Braga (PT-RJ).

A viagem será importante para ampliar os conhecimentos da região e dentro dos limites de comunicação, pretendo informá-la em detalhes. Algumas fotos devem chegar também e vou disponibizá-las para a Agência Câmara.

Uma segunda viagem dará oportunidades para aprofundar os estudos sobre o Haiti e entender o que se passará no país após as eleições. Há gente da ONU falando numa permanência de tropas de 2 a 20 anos. Será importante para nós uma nova divisão de tarefas, pois, no meu entender, a tendência de transformar o Haiti num protetorado internacional é muito forte. É possível cooperar. O Brasil tem responsabilidades.

Mas vamos temperar esse processo de ajuda, pois Estados Unidos, França e Canadá precisam estar na linha de frente. Os EUA porque significam a grande influência ali, desde a primeira invasão em 1915. A França porque foi o poder colonial e há um debate ainda sobre quem ficou devendo a quem no processo de separação. E o Canadá porque recebeu grande parte da elite intelectual do Haiti.

Espero enviar o próximo texto já de Porto Principe.

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