Pesadelo logístico

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O porto foi danificado. O aeroporto, agora controlado pelos norte-americanos, não dá vazão aos pedidos de pouso e os primeiros alimentos chegados não têm quem os descarregue. A polícia nacional do Haiti praticamente desapareceu de cena. Muito possívelmente, o controle do país tem de ser passado às forças de paz – isto é à responsabilidade do Brasil.

Nosso país, entretanto, não tem condições de realizar a tarefa com seus 1300 homens. No momento, este efetivo está dedicado ao socorro e patrulhamento para evitar ondas de saques. Em pouco tempo, a presença norte-americana será dominante. Obama pretende mandar seis mil homens para garantir a segurança e dois porta-aviões, dotados de helicópteros, estão sendo deslocados para a costa haitiana.

Mas o fato de os norte-americanos entrarem em cena, inclusive com ajuda de US$ 100 milhões, não significa que o pesadelo logístico foi superado. As primeiras equipes de salvamento já chegaram, mas não têm equipamentos pesados para retirar o entulho. Isto faz uma enorme diferença. Em Angra dos Reis, quando uma escavadeira entrou em cena, foi possível trabalhar com rapidez e retirar os corpos. Antes de sua chegada, o trabalho patinava com esforço de mãos nuas e equipamentos leves como a pá.

Uma das primeiras lições que tirei do nosso trabalho é a de que não estávamos contando com um colapso nas comunicações. Indivíduos, que usavam uma das empresas telefônicas, conseguiram através do twitter manter contato com o mundo, assim alguns depoimentos pelo skype foram possíveis. Em termos de comunicação era preciso ter a leveza dos indivíduos usando as técnicas mais modernas.

Com isto seria possível alimentar a sala de situação no Brasil, com noticias sobre nossos soldados e funcionários. Na primeira hora depois do terremoto, propus que o Brasil coordenasse os socorros, em sintonia com os Estados Unidos. Mas Obama afirmou agora que isto é uma tarefa para a liderança norte-americana. Ainda assim, o papel da ONU é fundamental e as tropas de paz, que já estão no país, conhecem Porto Príncipe e até falam um pouco o idioma, vão ser decisivas nos primeiros passos para a reconstrução.

Sempre defendi que os EUA tivessem um papel maior que o Brasil. De uma certa forma, estávamos evitando, ao manter o Haiti em paz, grandes ondas de imigrantes clandestinos se lançando no mar.

Sarkozy afirmou que é preciso uma conferência internacional, convocada pelos EUA, França, Brasil e Canadá. Todos têm um vínculo como Haiti. A França colonizou, os EUA invadiram e não resolvem o problema, e o Canadá atraiu a inteligência haitiana que abandonou o país. Acontece que uma conferência agora não diz nada. O problema é logístico, de organização no terreno, tem uma urgência que demanda respostas rápidas. Depois de Copenhague, deveríamos economizar conferências.

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Honduras em transe

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A chapa está fervendo em Honduras. O presidente Manuel Zelaya teria sido preso. Zelaya foi eleito pela direita e agora quer se aproximar da esquerda, com um projeto parecido com o de Chávez. Nesse momento, parece que apenas grupos rivais aparecem nas ruas de Tegucigalpa, sem incidentes sérios. Chávez pediu a intervenção de Obama para salvar seu aliado. O Brasil terá de entrar nessa dança.

Estamos acompanhando o que se passa, através dos informes dos jornais hondurenhos. El Heraldo, conservador, considera que a partida está chegando ao final e que Zelaya não respeitou a Constituição, partindo para o modelo de consultas populares, como Chávez e Morales.

Foto: breve/Flickr/Creative Commons

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Obama sai da toca

Obama, finalmente, condenou a repressão iraniana contra os manifestantes inconformados com o resultado das eleições. Havia uma grande discussão entre democratas. Parte deles achava melhor que o presidente dos EUA não se pronunciasse. O temor era o de prejudicar a oposição, dando aos conservadores o argumento de que a oposição era dirigida pelos Estados Unidos.

O argumento caiu. Obama ainda não fala de fraude, mas reconhece o direito das pessoas se manifestarem sem serem brutalmente espancadas pelos guardas revolucionários e suas facões mais radicais, os basiji.

O Brasil ainda não chegou a este ponto. Mas hoje deu indicações, através de assessores de Lula, que vai refluir para uma posição cautelosa, depois daquelas declarações desastrosas em Genebra. Ótimo. Há sempre tempo para retomar o melhor caminho para nossa política externa.

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Uma nova época

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Obama. Um jornalista já observou como as três sílabas se pareciam com um balbuciar infantil, universalmente simpático. Ele chega à presidência trazendo a esperança da maioria esmagadora do povo dos EUA. E também do mundo inteiro.

Seu desafio é imenso: duas guerras, a primeira grande crise econômica do século. Ele tem apontado para uma presença racional do estado na salvação da economia e consegue associar este movimento com a luta contra o aquecimento global.

É uma espécie de combinação de Keynes com a propostas de Al Gore. Numa entrevista hoje à Gaúcha, uma jornalista me perguntou: mas essas grandes esperanças não podem resultar em frustrações? Minha resposta é que, antes disso, elas significam uma chance de vitória, pois quanto maior a disposição popular, melhor se avança.

Obama tem lido sobre a experiência dos primeiros dias de Roosevelt. Sabe que precisa conversar constantemente. Não será julgado pelas esperanças de agora, mas sobre a maneira como enfrentou a crise, suas vitórias e fracassos.

No primeiro discurso já antecipou isto: haverá dificuldades, falsos arranques, mas o resultado final será vitorioso. Esse permanente contato com o eleitorado e um discurso sincero podem fazer com que a passagem do mito para a realidade seja não traumática, até mesmo tranquila para todos nós.

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Para um mapa do caminho

Ontem fui a São Paulo participar de um encontro sobre a crise na Faixa de Gaza. O encontro se deu no contexto do 25º aniversário da Comissão Teotônio Vilela, fundada pelo saudoso Severo Gomes e outros políticos e intelectuais.

Minha posição é a de que o mais prático para um intelectual brasileiro nessa crise dramática é tentar contribuir com a posição de seu próprio país.

Minha contribuição, parcialmente aceita, é a seguinte:

Apoiar os passos elementares de nossa diplomacia, como os de retirar os brasileiros da área e oferecer ajuda humanitária;

No caso de participação em negociações internacionais para definir a paz, o Itamaraty deveria abrir algumas consultas na sociedade – e, também, no parlamento. É importante que nossa posição seja a posição nacional, que não se confunda com a posição de um só partido. Além disso, é mais democrático este caminho.

Devemos ficar atentos à entrada em cena de um importante novo ator: Barack Obama e a política externa norte-americana, que deve sofrer algumas transformações. Todo esse movimento da França – e também do Brasil – foi uma tentativa de preencher o vácuo norte-americano. Agora, eles voltam com a corda toda.

Devemos nos abster de idéias aparentemente salvadoras, como a de uma grande reunião internacional. Os passos mais bem sucedidos na diplomacia foram os que deram origem ao acordo de Oslo; de tão discretos, foram praticamente secretos. Em suma, numa situação tão complexa, a modéstia é melhor tática do que o intenso protagonismo.

Outra facilidade a ser evitada: supor que todos devem participar das negociações de paz, que todos devem se sentar à mesa. Paz durável, mostram as experiências anteriores no mundo, sempre desagrada aos extremos.

O Hamas prevê a destruição de Israel em seu programa e tenta fazer isto com foguetes. Um dos critérios deveria ser o da aceitação de dois estados. Os EUA, através de Hilary Clinton, já definiram os termos de um entendimento com o Hamas: deve abrir mão da violência e, paz aceitar a tese dos dois estados.

Em resumo, foi isto o que disse lá, procurando ser o mais sintético possível, mas evitando choque com a extraordinária sensibilidade que emerge nesses momentos de guerra e tragédia.

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Brasil em Gaza

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O Brasil precisa atuar no Oriente Médio, evitando duas armadilhas.

Uma delas é a omissão. A outra, um super dimensionamento de nossas capacidades.

Há um caminho do meio para contribuir com a paz. O chanceler Celso Amorim deixou bem claro que nosso país foi convidado a participar das negociações, inclusive na última iniciativa norte-americana.

Cessar fogo é hoje o desejo da maioria dos países que estão fora do conflito. Israel pretende entrar mais fundo em Gaza e dizimar as forças do Hamas. Pode ser que consiga isto, mas a um preço que manterá o Hamas no coração dos palestinos.

A vitória do Hamas nas eleições já prenunciava esta crise. As sucessivas dificuldades de abastecimento da área, provocadas pelo controle de Israel, acabaram estimulando a organização radical a romper a trégua.

Quando esteve em Israel, Barack Obama visitou a região atingida por foguetes e disse que se vivesse ali com sua família também tomaria a iniciativa de protegê-la contra os grupos terroristas.

Talvez isso explique o silêncio de Obama. Ele se comprometeu com a idéia de que Israel tem o dever de reagir aos ataques. Uma coisa é afirmar o direito de defesa. Outra é apoiar incursões que matam civis em grande quantidade.

Considerando que Israel e os palestinos jamais chegarão a uma solução por si próprios, o papel da comunidade internacional é decisivo . Desde que o Brasil não erre a mão, super ou subestimando sua capacidade, vamos contribuir.

Uma das coisas que fizemos no Líbano precisa ser feita agora e em qualquer outro lugar de conflito: saber quantos brasileiros estão na área, quantos querem sair e se precisam de ajuda para o deslocamento. Na guerra do Líbano, eram muitos – e foi preciso um grande esforço de negociação com Israel, que obrigou os brasileiros em fuga e adotar longos percursos.

Talvez o caminho seja da retirada e se dê via Egito ou mesmo diretamente por Israel.

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Brasil, Israel, Palestina

Lula disse no Recife que os EUA protegem Israel e que iria pedir a seu chanceler, Celso Amorim, para que acionasse a França e articulasse uma negociação que não dependesse apenas dos EUA.

Imagino que Amorim vai informar a Lula que esta negociação já existe e é conduzida por quatro partes: EUA, União Européia, ONU e Rússia.

Podemos produzir um novo mapa do caminho, mas dificilmente a França vai querer abandonar o espaço de negociação já existente para criar um outro, a partir do estímulo brasileiro.

Lula disse uma coisa certa: no Brasil, judeus e árabes convivem em harmonia. Ele deveria fazer uma visita ao Saara no Rio e esta visita talvez tivesse um peso simbólico maior que o desabafo de Recife.

Outro aspecto que Lula ignorou em seu discurso é o fato de que os EUA, a partir desta semana, serão representados por outro governo. Existe uma diferença entre Bush e Obama. Não se pode afirmar que este será mais competente que aquele, mas, certamente, terá mais boa vontade.

Apesar do peso das eleições em Israel, é muito possível que a posse de Obama tenha sido um fato decisivo nos planos de Israel. Sempre que prenunciam novas negociações, os contendores querem estar na melhor posição possível.

É uma pena que tantas pessoas tenham de morrer, que não possamos resolver diplomaticamente. O escritor israelense A. B. Yehoshua declarou hoje que já estava incomodado com tanta burrice. Imaginem quando esse incômodo se traduz em bombas, ruínas, mortes e mutilações. É o caso, nesse momento, dos que moram na Palestina e no sul de Israel.

Concordo com Lula no sentido de que o Brasil deve se esforçar ao máximo. Mas conhecendo o mínimo do mapa do caminho. Do jeito que ele se pronunciou, deu a sensação de que não acompanha o processo nos detalhes.

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América de volta ao mundo

Na América do Norte tudo é possível. Assim o colunista do New York Times, Thomas Friedman, se manifestou sobre a vitoria de Barack Obama.

De fato, é muito bom dizer para as crianças – negras, brancas, latinas – que todos têm a mesma oportunidade. Para além das demonstrações de alegria com a vitória do primeiro presidente negro na história norte-americana, é preciso reconhecer as grandes qualidade de Barack Obama.

Em primeiro lugar, soube utilizar com precisão o instrumento mais importante hoje na comunicação política: a internet. Em segundo lugar, teve a capacidade de entusiasmar o povo norte-americano, agregando voluntários e obtendo uma arrecadação recorde, através da rede.

A julgar pelos livros de Obama e por sua filosofia política, o grande passo foi compreender que estava esgotada uma fase no país, uma fase de debates estéreis, de divisões que não levavam a lugar nenhum. Daí sua disposição para construir pontes, para atrair pessoas que talvez pensassem diferente mas que poderiam se reconhecer num programa moderado, que levasse em conta não as grandes brigas partidárias, mas a necessidade de superar a crise.

Obama, construtor de pontes: esta é uma das importantes características de sua vitória. Os EUA não se dividem apenas entre democratas e republicanos, assim como o Brasil não se divide apenas entre petistas e tucanos. Há os independentes – e Obama soube falar para eles.

Ele assume no auge de uma crise monetária e econômica muito grave. Mas os grandes timoneiros se revelam na crise e não na bonança.

Ao contrário de Lula, não espero uma solução para o principio do mandato de Obama. Economistas, exemplos históricos, avaliações da crise, tudo indica que 2009 ainda será um ano de muito aperto. Mas, quando há esperança, as próprias crises são mais administráveis.

Hoje é mais que um dia perdido no tempo. É o dia de uma importante virada no país mais poderoso do mundo, com repercussões positivas também em nossas vidas.

Viva o povo norte-americano, que se mobilizou em massa para votar. Viva Barack Obama, que soube, como ninguém, tocar nas mentes e nos corações de seu povo.

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A crise como guerra

No discurso de fim de ano, Gordon Brown pediu aos ingleses um esforço de guerra para enfrentar a crise.

Lula, por seu lado, pediu que os brasileiros continuassem comprando, com responsabilidade. Ressalva para evitar a euforia.

Mesmo assim são reações distintas diante de uma mesma crise. Explicam-se pelo distinto impacto nos dois países. Para ficarmos na metáfora bélica de Brown, basta lembrar que Londres sofreu mais que o Rio durante a 2ª Guerra. Na crise, bancos e instituições financeira entraram em colapso na Inglaterra, o que não aconteceu no Brasil.

Há, no entanto, um ponto em comum. Brown e Lula defendem investimentos públicos para dinamizar a economia e manter e, se possível, ampliar a oferta de empregos. Isso, na Inglaterra, valeu um aumento da popularidade dos trabalhistas, reconciliando o partido com grande parte de seu eleitorado.

O esforço britânico é mais complexo. Deve ser articulado com a adaptação às mudanças climáticas. A Inglaterra é um dos raros países que cresceram reduzindo as emissões de gases de efeito estufa.

Obama encarna, de certa forma, esse encontro de Keynes com a ecologia. Nova política energética, abertura de milhares de empregos verdes. Além disso, promete um nível mais alto de ética na política e abertura para a participação, via internet.

Será que todas essas tendências acabam dando nas praias brasileiras em 2010? Impulsionar a economia, via estado, já é disposição de Lula. Mas os candidatos à Presidência estão calados. Temem pedradas prematuras.

As campanhas aqui são mais curtas que nos EUA. O silêncio prolongado dificulta a mobilização. Queremos mesmo tirar o processo eleitoral do conforto das poltronas diante da TV? Basta seguir comprando ou podemos fazer mais?

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