Lula e os presos cubanos

Esta entrevista de Lula comparando os presos políticos de Cuba a criminosos de São Paulo é um marco. Todos sabíamos que ele é contra a greve de fome como forma de luta. Mas não sabiamos que confunde prisioneiro de consciência com bandido, muito menos luta pacífica pela democracia com assalto à mão armada.

Isto abre uma perspectiva de insegurança para a oposição no Brasil. Nossas condições não permitem prisões desse gênero. Mas se essas prisões são justificadas, com assimilação ao banditismo, nada garante que, no futuro, os opositores sejam mandados para a cadeia.

Dilma garante? Mas Dilma é  apenas marionete. O Congresso garante? Mas no Congresso qualquer coisa que se queira, desde que se liberem  verbas, pode ser aprovada. A justiça? Ela mal consegue se mover diante do óbvio, a campanha presidencial antecipada.

No Brasil ainda temos a imprensa para reclamar. Não de tudo, é verdade. Mas no que diz respeito à democracia, ainda é vigilante. Os cubanos têm uma única arma: a solidariedade internacional. É hora de tecer também laços externos. Eles podem ser vitais no futuro.

Tenho muitos amigos que consideram Lula um gênio político. Respeito suas posições. Mas para mim, veja o post sobre Hillary, é apenas um homem muito limitado, com grandes simpatias por governos totalitários, de Castro a Ahmadinejad.

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Grosseria presidencial

Num dos momentos mais infelizes – e olha que foram muitos… -, o presidente Lula fez ontem, num discurso, uma grosseria com a Secretaria de Estado americana, Hillary Clinton. Lula disse que a recebeu apenas por deferência a Celso Amorim, uma vez que por uma questão hierárquica não tem nada a discutir com ela. “Quando o presidente Obama vier ao Brasil, então discutirei com ele”, concluiu.

E olhem que o discurso de Lula começou exatamente tratando do chamado complexo de vira latas brasileiro. Lula se apresenta como a própria superação desse complexo, mas acaba com seu gesto demonstrando exatamente o contrário do que queria afirmar: um ressentimento que só pode brotar de uma sensação de inferioridade.

Um presidente do Brasil, sempre que possível, deve receber chanceleres e aprender alguma coisa com eles. Jamais deve fazer referência pública depreciativa a um desses encontros. Mandela recebe até hoje jogadores de futebol do Brasil, reservas ou titulares.

É muito raro, quase impossível, um Presidente da República ser descortês em público com um dignatário estrangeiro, seja ele norte-americano, suíço ou guatemalteco. Só um processo psicológico muito especial pode explicar esta vontade de se vangloriar em público, depreciando o outro, no caso a mulher que é recebida com seriedade por qualquer dirigente mundial.

Clique e leia:  “Lula diz que imprensa foi subserviente com Hillary” (Estado de São Paulo)

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A fumaça da esquadrilha

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A decisão de Lula de comprar os caças franceses Rafale foi muito discutida, depois de anunciada por ele, na visita de Sarkozy ao Brasil. De todas as críticas que li, a mais interessante foi a de um oficial da Aeronautica, cujo texto me foi enviado por amigos.

Ele faz uma longa análise técnica dos três aviões disponíveis, partindo do princípio de que todos serviriam ao Brasil. Em seguida, mostra que numa pontuação rigorosa o sueco ficava em primeiro lugar, o norte-americano em segundo e, finalmente, em terceiro, longe, o caça francês.

Sua conclusão é interessante. O oficial compreende que a decisão seja política mas afirma, sensatamente, que isto justificaria , por exemplo, a escolha do segundo melhor pontuado. Mas escolher quem pontuou em terceiro, longe, não é pura e simplesmente uma escolha política prevalecendo sobre a técnica. É uma escolha que despreza a técnica e o longo e minucioso trabalho de teste e seleção feito pela Aeronáutica. É a política como antítese da técnica e não como sua visão aperfeiçoada pelo exame de conjunto.

Um tipo de escolha como esta abre caminho para muita desconfiança sobre as verdadeiras intenções do governo.

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“Não adianta votar só porque é do PV”

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Fernando Gabeira estava em casa com a família, no Rio, quando soube pela TV da tragédia em Angra dos Reis. Não teve dúvidas: alugou um helicóptero e horas depois desembarcava na cidade. Foi o primeiro político importante a chegar.

Oportunismo? Há quem diga que sim, há quem discorde. Mas o episódio é emblemático. O ex-guerrilheiro que chocou o Rio, nos anos 80, ao aparecer na praia com uma sunga roxa, deixou de ser um político de nicho para ocupar espaço no grande jogo. A prova definitiva dessa virada veio em 2008, quando por muito pouco ele deixou de se eleger prefeito: perdeu de Eduardo Paes por uma margem mínima de votos.

Nesta entrevista ele olha para a frente, no caso de Angra, e avisa: “A BR-101 é uma estrada muito inadequada para ter uma usina nuclear”. E faz uma revisão crítica do Partido Verde, onde “muita gente entra” e depois de se eleger “tem comportamento semelhante ao dos partidos convencionais.” E arremata: “Eu não diria para os eleitores votarem numa pessoa só porque ela é do PV.”

O governador Sergio Cabral foi criticado por só aparecer em Angra no terceiro dia da tragédia. O que acha?

Acompanhei a retirada de alguns corpos. Minha posição é de estar presente em todos os desastres. Não se trata de demagogia, esse é o meu trabalho. Ir no dia seguinte me parece mais demagógico ainda.

É perigoso haver uma usina nuclear naquela região?

A BR-101 é uma estrada muito inadequada para ter uma usina nuclear, já que lá estão detectados mais de cem pontos de potencial deslizamento durante as grandes chuvas. Chegamos a interditar Angra I por três meses porque uma encosta podia cair sobre um depósito. Se analisarmos friamente, talvez hoje ela não fosse construída como foi. Além de ser uma área muito chuvosa, o solo não foi estudado devidamente e o estudo geológico foi precário.

Existem culpados pela tragédia?

A construção de estaleiros e a chegada dos ricaços atraiu muita gente em busca de trabalho, gente que se instalou em áreas precárias. Angra precisa de um plano muito rígido para deter esse processo de crescimento nas encostas. Precisa que impeçam a construção de casas de pessoas mais ricas. Briguei no Senado com o Ney Suassuna porque ele comprou uma ilha lá, dentro de uma estação ecológica. Os ricaços compram áreas onde há um pequeno posseiro e tomam conta.

Em Copenhague, Lula passou o comando da comitiva a Dilma. Foi uma boa escolha?

Não havia necessidade de colocar uma pessoa como a Dilma nesse processo. Não é sua área e ela não está familiarizada com o problema. Isso a levou a pequenos tropeços, como declarar que “o meio ambiente é uma ameaça ao desenvolvimento”, e a recusa em admitir que o Brasil poderia contribuir com países mais pobres – posição que foi adotada por Marina Silva e José Serra. A Dilma não mudou a qualidade da delegação brasileira.

O PV vai ter candidato próprio ao governo do Rio e não será você. Por que desistiu?

Ocorre que a campanha ao governo se dará em condições muito desfavoráveis. Eu teria que lutar contra a máquina do Estado e a federal – e contra muito dinheiro acumulado, além da ausência de qualquer escrúpulo. Isso torna os adversários muito fortes. Não queria levar a população a uma campanha onde quase se vence, mas se perde de novo.

Ficou algum trauma da eleição de 2008, vencida aos 45 do segundo tempo pelo Eduardo Paes?

Não é trauma, é que as condições são mais difíceis agora, porque entra o interior e lá a máquina tem peso maior. Não seria interessante fazer campanha para afirmar uma posição. Considerei ser candidato ao governo até o momento em que saiu a candidatura da Marina. Eu não poderia fazer campanha majoritária para ela com todos em torno de mim fazendo para o Serra. Isso levaria certa ambiguidade ao eleitor.

Como ex-petista, seu coração bate mais forte por Dilma ou Serra? Eduardo Jorge, ligado a Serra, está na campanha da Marina…

Meu coração não é partidário. Tenho a sensação de que existe um campo que envolve pessoas do PSDB, do PT e de outros partidos. Nas eleições presidenciais, estou com Marina. Mas acompanho o trabalho de Serra. Em relação a Dilma, ele tem experiência política maior. É já se submeteu ao voto popular.

O PV cresceu, dizem alguns, até demais. O que fazer para que não vire mais um partido fisiológico?

Essa deveria ser uma preocupação central do PV. Muita gente entra nele e, depois de eleger, age como se fosse de um partido convencional. Fazem acordos com qualquer governo e entram no “toma lá da cá”. Isso me constrange muito. Em alguns lugares do Brasil minha imagem foi usada para pedir votos para o PV e nem sempre o resultado foi satisfatório. Isso vai parar. Não aceito mais esse processo. Eu não diria para os eleitores votarem numa pessoa só porque ela é do PV. Dentro dele há candidatos iguais aos outros.

Na bancada você parece um estranho no ninho…

Sempre fui muito isolado na bancada. Nunca me aceitaram como líder.

Defende uma depuração no partido?

Esse processo levaria a um desgaste desnecessário. O ideal é olhar para frente e ter critérios mais rigorosos.

Que lição ficou do caso das passagens aéreas?

Foi um momento importante do meu mandato. Não posso dizer para a população que não cometo erros. A diferença é que, quando cometo, reconheço, reparo e corrijo. Paguei a passagem, devolvi R$ 86 mil de créditos.

O ex-presidente FHC está na cruzada pela descriminalização da maconha, que foi uma bandeira sua por muito tempo. Ainda é?

As bandeiras também evoluem. Hoje não posso mais dizer pura e simplesmente que é preciso descriminalizar. Tenho que dizer como fazer. Isso passa por uma reforma da polícia, que não tem condições nem de reprimir nem de liberar.

Você chegou a comprar sementes de maconha. Foi inclusive no governo FHC (risos). Nunca mais tentou?

Eram sementes enviadas da Hungria e destinadas a uso industrial. A ideia era fazer uma experiência em torno da exploração econômica, mas elas foram apreendidas. Houve um processo, mas fui absolvido. As sementes foram mandadas para os EUA para serem examinadas – se tinham alto teor de THC. Nem mandaram resposta nem devolveram.

A maconha até hoje o estigmatiza?

Em geral me chamam de “veado” e maconheiro juntos. Soltaram mais de um milhão de panfletos a meu respeito. Mas a população já não leva isso a sério.

Qual foi o efeito do tempo na sua postura política? Está mais pragmático?

Assumi um pouco mais a política, embora em todas as campanhas eu diga que é a última. Algumas pessoas da minha família até riem… Eu fazia campanhas para um público determinado. Com o tempo, a gente começa a ocupar um papel mais importante, a disputar eleições majoritárias. Quando passa a tentar representar muita gente, passa a ter visão mais à altura dessa representação.

(Entrevista dada à coluna “Direto da Fonte”, do Estado de São Paulo)

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Direitos humanos e democracia

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Dos muitos problemas contidos no decreto do governo sobre direitos humanos, gostaria de destacar pelo menos um. É a decisão de realizar consultas e plebiscitos com mais freqüência. Esta tem sido a tática dos governos bolivarianos para enfraquecer a democracia institucional.

Quando examinamos o conjunto das propostas, vemos que há nelas também uma espécie de mistificação do eleitor. Quando Lula se elegeu não apresentou como bandeiras a legalização do aborto, a união civil, ou mesmo a limitação de símbolos religiosos.

Na verdade, estes temas têm sido levados por políticos que sobrevivem numa espécie de nicho do eleitorado, sem pretensões de conquistar a maioria. Não entro no mérito de cada uma dessas bandeiras. O que questiono é o seguinte: é correto eleger-se com um discurso majoritário e depois apresentar um programa bastante radical de governo, sob a rubrica de direitos humanos? Ou devemos manter fidelidade as aspirações majoritárias? Falo com muita tranqüilidade, muitas dessas lutas têm meu apoio. O que não tem meu apoio, e disse isto claramente na campanha, é fazer passar como da maioria posições que são pessoais do candidato.

Na verdade, a aproximação do decreto com as propostas de Evo Morales, Hugo Chávez, Rafael Correa, são muito grandes. O governo tem todo o direito de simpatizar com as idéias bolivarianas mas a verdade é que não as submeteu ao eleitorado, quando disputou a reeleição.

O controle dos órgãos de comunicação, das concessões, continua reaparecendo, aqui e ali, sob o argumento de que se trata de um controle social, mas sabemos que este social significa apenas uma parte da sociedade, a que participa do governo.

A favor de Lula e seu decreto é possível dizer que ele prevê a passagem de todos esses temas pelo Congresso. Acontece que o Congresso no Brasil está cada vez mais dominado pela base do governo. Isto significa que um programa dessa amplitude pode ser aprovado com facilidade.

Sem entrar no mérito de algumas propostas, o que fica claro é  a existência de um programa muito mais radical do que o aprovado pelos eleitores de Lula, em 2006. Essa relação entre proposta de campanha e comportamento no poder é algo que não se resolveu ainda no Brasil. São feitas propostas para não serem cumpridas e omitidos temas que aparecem como proposta para surpresa da maioria.

Meu palpite é que, assim como a história dos caças analisados pela Aeronáutica, os temas são inoportunos para o governo num ano eleitoral. A tendência é congelá-los, assim como a tendência é congelar a mudança na lei da anistia. Vamos ver se a opinião se confirma.

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Irã e o silêncio brasileiro

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Oito pessoas foram assassinadas. Há mais de 300 presos. E tudo aconteceu num feriado religioso, quando os xiitas comemoram o ashura. Era também o sétimo dia da morte do aiotolá Montazeri, um opositor do regime. Os homens do governo pensaram que o feriado poderia ser tranqüilo mas perceberam que havia mais opositores nas ruas de Teerã, e não só Teerã, como Tabriz e Isfahan, do que propriamente fiéis.

Os Estados Unidos já se manifestaram contra a repressão e morte dos manifestantes. Mas os EUA são o adversário de sempre e até hesitam em protestar para não serem usados como um instrumento de reforço da repressão. O caso brasileiro é típico. Considerado um interlocutor do governo iraniano, o presidente Lula não se manifestou. É razoável que haja alguma expectativa em torno da posição do país. Na época das eleições, Lula minimizou a revolta nas ruas de Teerã, afirmando que parecia um conflito de torcedores insatisfeitos com o resultado do jogo, vascaínos contra flamenguistas.

A recusa em aceitar o resultado do jogo eleitoral prossegue, revelando na sua esteira de sangue e repressão como era equivocada aquela fala do presidente Lula. É hora de esclarecer a posição brasileira não só sobre as eleições mas também sobre o esforço nuclear. Naturalmente, o sistema islâmico espera o silêncio do Brasil. Mas seremos apenas interlocutores, ou cúmplices silenciosos do processo brutal de repressão no Irã? Isso não influi em eleição, não tira popularidade, é uma escolha que o presidente pode fazer livremente. Há brasileiros que não aceitam o rumo das relações entre os dois países.

Interessante é que a imprensa nacional não cobra, neste momento, uma posição do Itamarati. Se o Brasil se aventurou  ter um papel naquela área, buscando legitimar um governo eleito pela fraude, é razoável que seja cobrado por suas escolhas. Sobretudo agora que ficou bem claro um processo histórico bastante mais complexo do que brigas de torcidas de futebol.

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A embriaguês de Copenhague

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No mesmo dia, o governo brasileiro se pronunciou de forma diferente sobre a Conferência de Copenhague. Lula afirmou que a culpa dos fracassos cabe aos europeus; Carlos Minc a atribuiu ao presidente Obama, pedindo que devolva o Prêmio Nobel.

São tiros em direções opostas, mas mesma prática de atirar. Na mesma entrevista, Carlos Minc diz que o Brasil saiu do armário, que assumirá um protaganismo plenetário na questão ambiental. A expressão saiu do armário, sabemos, costuma designar o homossexual que assume sua orientação. É uma escolha pessoal, sem dúvida influenciada por fatores sociais. Mas as opções de uma política externa passam por um choque de idéias, por lutas que acabam levando a transformações, às vezes não desejadas pelos governantes.

Na imagem de Minc, ao sair do armário, o homossexual se define como sempre foi, só  que sua orientação foi escondida. O Brasil não foi sempre uma vanguarda ambiental e só agora assumiu uma condição disssimulada. Pelo contrário, o Brasil foi acossado antes de 2002 por causa da destruição das florestas tropicais. Durante muito tempo, recusou-se a aceitar metas de redução de emissões. Foi a partir da pressão social, da tomada de posição de empresários, que as coisas mudaram a ponto de sairmos com metas com a precisão de centésimos, algo que ainda revela nossa insegurança sobre a credulidade do gesto.

O Brasil foi levado a mudar e não assumiu uma condição escondida sob o temor da censura. Mas isso é apenas uma forma de se representar, sempre  com os olhos no processo eleitoral. Tanto Lula como Minc trabalham com a contradição como motor da história. E nesse caso específico de ameaça planetária, não é a contradição e sim a cooperação que nos fazem avançar.

Se o Brasil quer mesmo reparar a fragilidade do encontro na Dinamarca, deve apostar num bom diálogo tanto com a União Européia como com os Estados Unidos. Não creio que criticando os dois num mesmo dia, em avaliações desencontradas de responsabilidade pelo fracasso, estejamos escolhendo o melhor caminho para acordos futuros.

Não precisamos nos comportar como um país imaturo, se queremos mesmo viver um novo papel nessa história. Minc, no Globo, aparece deslumbrado por participar com uma reunião com Barack Obama; no Estadão pede que o presidente americano devolva o Prêmio Nobel. Essas sensações conflitantes expressam mais uma competição adolescente do que a confiabilidade de um parceiro em negociações vitais para o planeta.

A embriaguês de Copenhague

No mesmo dia, o governo brasileiro se pronunciou de forma diferente sobre a Conferência de Copenhague. Lula afirmou que a culpa dos fracassos cabe aos europeus; Carlos Minc a atribuiu ao presidente Obama, pedindo que devolva o Prêmio Nobel.

São tiros em direções opostos, mas mesma prática de atirar. Na mesma entrevista, Carlos Minc diz que o Brasil saiu do armário, que assumirá um protaganismo plenetário na questão ambiental. A expressão saiu do armário, sabemos, costuma designar o homossexual que assume sua orientação. É uma escolha pessoal, sem dúvida influenciada por fatores sociais. Mas as opções de uma política externa passam por um choque de idéias, por lutas que acabam levando a transformações, às vezes não desejadas pelos governantes.

Na imagem de Minc, ao sair do armário, o homossexual se define como sempre foi, só  que sua orientação foi escondida. O Brasil não foi sempre uma vanguarda ambiental e só agora assumiu uma condição disssimulada. Pelo contrário, o Brasil foi acossado antes de 2002 por causa da destruição das florestas tropicais. Durante muito tempo, recusou-se a aceitar metas de redução de emissões. Foi a partir da pressão social, da tomada de posição de empresários, que as coisas mudaram a ponto de sairmos com metas com a precisão de centésimos, algo que ainda revela nossa insegurança sobre a credulidade do gesto.

O Brasil foi levado a mudar e não assumiu uma condição escondida sob o temor da censura. Mas isso é apenas uma forma de se representar, sempre  com os olhos no processo eleitoral. Tanto Lula como Minc trabalham com a contradição como motor da história. E nesse caso específico de ameaça planetária, não é a contradição e sim a cooperação que nos fazem avançar.

Se o Brasil quer mesmo reparar a fragilidade do encontro na Dinamarca, deve apostar num bom diálogo tanto com a União Européia como com os Estados Unidos. Não creio que criticando os dois num mesmo dia, em avaliações desencontradas de responsabilidade pelo fracasso, estamos escolhendo o melhor caminho para acordos futuros.

Não precisamos nos comportar como um país imaturo, se queremos mesmo viver um novo papel nessa história. Minc, no Globo, aparece deslumbrado por participar com uma reunião com Barack Obama; no Estadão pede que o presidente americano devolva o Prêmio Nobel. Essas sensações conflitantes expressam mais uma competição adolescente do que a confiabilidade de um parceiro em negociações vitais para o planeta.

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Cartas de Paris V: Pra lá de Teerã

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Escrevo de madrugada em Paris. Ao longo do dia, vou atualizando pelo telefone. Os japoneses estão escrevendo romances para celular. Quem sabe, no futuro, posso me candidatar? Estou preocupado com as declarações de Lula sobre o Irã. Mais uma vez, ele demonstrou uma paciência com o regime iraniano negado pela própria comunidade internacional, China e Rússia inclusive. Ao criticar os EUA e a Rússia dizendo que não tinham moral para pedir que o Irã não se arme, cometeu um erro diplomático. Mesmo considerando o desarmamento nuclear um objetivo nobre para a humanidade, não creio que um presidente deva se exprimir assim.

Outro dia, no Brasil, antes de partir, fiz uma longa exposição sobre a política externa brasileira. Falei da importância crescente do país no mundo e acentuei que estes erros acabam neutralizando os avanços que obtivemos em outras áreas, inclusive a economia.

Pequenos países como a Costa Rica, são muito mais prudentes. O próprio Oscar Arias, que foi presidente de lá, lamentou a posição de quem reconhece as eleições no Irã e se recusa a reconhecer as eleições em Honduras, onde o processo eleitoral em si não foi questionado.

Lula quer dar um balão de oxigênio a Ahmadinejad e diz que isto se deve aos interesses nacionais em jogo. Pois bem, os verdadeiros interesses nacionais do Brasil estão sendo prejudicados e, nesse caso, caminhamos mais para nos isolarmos com o presidente do Irã. Aliás, muitos socialistas franceses me questionaram perplexos sobre esta posição brasileira. Como explicá-la?

Apesar da passagem de Lula pela Alemanha, dois temas continuam ocupando o noticiário: os preparativos para Copenhague e o aumento de tropas no Afeganistão. Sobre Copenhague, recomendo, para quem lê em francês, o número especial da revista Nouvel Observateur, que convidou Daniel Cohen Bendit para editá-la. Quando tiver um tempo, faço uma síntese.

Fiquei feliz com a aprovação do projeto das Cagarras. Elas são apenas um pedaço da baía de Guanabara. Mas podemos começar por ali, refazendo a mata queimada, organizando viagens escolares etc. Pensei num navio a propulsão solar para fazer o roteiro turístico e a área é excelente para mergulho assistido por instrutores, como em Fernando de Noronha. Como disse, a baía de Guanabara poderia um dos grandes trunfos para 2014  e também para as Olimpíadas. Ela está ligada à história do Brasil e também tem ainda alguns vestígios da passagem francesa. Poderíamos começar pelas Cagarras e depois organizar roteiros turísticos pela baía, tentando equacionar o destino da Ilha de Paquetá. Ela foi o paraíso dos namorados. O namoro prosseguiu mas a ilha entrou em decadência. Há formas de recuperá-la e não deveríamos perder a oportunidade de tentar.

É  muito estimulante o livro de Umberto Eco e Jean Claude Carriére . Eles falam muito da internet e fazem um balanço de todos os suportes que surgiram no passado recente, do cassete ao DVD. Citam um grande colecionador brasileiro, José Mindlin, que tem uma edição de “Os Miseráveis”  lançada no Brasil no mesmo ano em que foi impressa a edição francesa. Os dois, Eco e Carriére, são muito lidos e, além disso, colecionam livros.

Na Village Voice comprei também o livro de memórias de Edward Kennedy, “A True Compass”. Li apenas as primeiras páginas, quando ele toma conhecimento do câncer no cérebro. O livro tem 506 páginas. É coisa para todo o verão.

O frio e a chuva fina aumentam as saudades do Brasil. Volto para a casa amanhã. Cada viagem curta é um grande estimulo para retomar o trabalho. O noticiário por aí não está muito animador por causa dessa história de Brasília, entre outras. Mas a aprovação do projeto das Cagarras, depois de tantos anos, é um alento, embora não entenda por que demoramos tanto com algo tão obviamente interessante para uma cidade com o calendário que o Rio tem pela frente.

Escrevo de madrugada em Paris. Ao longo do dia, vou atualizando pelo telefone. Os japoneses estão escrevendo romances para celular. Quem sabe, no futuro, posso me candidatar? Estou preocupado com as declarações de Lula sobre o Irã. Mais uma vez, ele demonstrou uma paciência com o regime iraniano negado pela própria comunidade internacional, China e Rússia inclusive. Ao criticar os EUA e a Rússia dizendo que não tinham moral para pedir que o Irã não se arme, cometeu um erro diplomático. Mesmo considerando o desarmamento nuclear um objetivo nobre para a humanidade, não creio que um presidente deva se exprimir assim.

Outro dia, no Brasil, antes de partir, fiz uma longa exposição sobre a política externa brasileira. Falei da importância crescente do país no mundo e acentuei que estes erros acabam neutralizando os avanços que obtivemos em outras áreas, inclusive a economia.

Pequenos países como a Costa Rica, são muito mais prudentes. O próprio Oscar Arias, que foi presidente de lá, lamentou a posição de quem reconhece as eleições no Irã e se recusa a reconhecer as eleições em Honduras, onde o processo eleitoral em si não foi questionado.

Lula quer dar um balão de oxigênio a Ahmadinejad e diz que isto se deve aos interesses nacionais em jogo. Pois bem, os verdadeiros interesses nacionais do Brasil estão sendo prejudicados e, nesse caso, caminhamos mais para nos isolarmos com o presidente do Irã. Aliás, muitos socialistas franceses me questionaram perplexos sobre esta posição brasileira. Como explicá-la?

Apesar da passagem de Lula pela Alemanha, dois temas continuam ocupando o noticiário: os preparativos para Copenhague e o aumento de tropas no Afeganistão. Sobre Copenhague, recomendo, para quem lê em francês, o número especial da revista Nouvel Observateur, que convidou Daniel Cohen Bendit para editá-la. Quando tiver um tempo, faço uma síntese.

Fiquei feliz com a aprovação do projeto das Cagarras. Elas são apenas um pedaço da baia de Guanabara. Mas podemos começar por ali, refazendo a mata queimada, organizando viagens escolares etc. Pensei num navio a propulsão solar para fazer o roteiro turístico e a área é excelente para mergulho assistido por instrutores, como em Fernando de Noronha. Como disse, a baia de Guanabara poderia um dos grandes trunfos para 2014  e também para as Olimpíadas. Ela está ligada à história do Brasil e também tem ainda alguns vestígios da passagem francesa. Poderíamos começar pelas Cagarras e depois organizar roteiros turísticos pela Baia, tentando equacionar o destino da Ilha de Paquetá. Ela foi o paraíso dos namorados. O namoro prosseguiu mas a ilha entrou em decadência. Há formas de recuperá-la e não deveríamos perder a oportunidade de tentar.

É  muito estimulante o livro de Umberto Eco e Jean Claude Carriére . Eles falam muito da internet e fazem um balanço de todos os suportes que surgiram no passado recente, do cassete ao DVD. Citam um grande colecionador brasileiro, José Mindlin, que tem uma edição dos Miseráveis lançada no Brasil no mesmo ano em que foi impressa a edição francesa. Os dois, Eco e Carriére, são muito lidos e, além disso, colecionam livros.

Na Village Voice comprei também o livro de memórias de Edward Kennedy, A True Compass. Li apenas as primeiras páginas, quando ele toma conhecimento do câncer no cérebro. O livro tem 506 páginas. É coisa para todo o verão.

O frio e a chuva fina aumentam as saudades do Brasil. Volto para a casa amanhã. Cada viagem curta é um grande estimulo para retomar o trabalho. O noticiário por aí não está muito animador por causa dessa história de Brasília, entre outras. Mas a aprovação do projeto das Cagarras,depois de tantos anos, é um alento, embora não entenda por que demoramos tanto com algo tão obviamente interessante para uma cidade com o calendário que o Rio tem pela frente.

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A sorte numa sexta-feira

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Hoje é um dia especial. Não vou percorrer labirintos em Tegucigalpa em mergulhar nos abismos oceânicos, onde se extrai o petróleo. Hoje é  sexta e o que acontecer em Copenhague terá um efeito direto em nossas vidas.

Hoje é sexta e vou ouvir como sempre as batidas do baile funk, um ou outro tiro perdido, motoristas tresloucados tomando as ruas, enfim,  hoje em dia acontece na noite de sexta quase tudo que era reservado ao sábado, no poema de Vinicius de Moraes.

Oitenta e cinco por cento dos cariocas, dizem as pesquisas, querem as Olímpiadas no Rio. Os habitantes de Tóquio querem menos a escolha de sua cidade. Apenas 56 por cento. Em Chicago há movimento contra, pois temem-se os gastos excessivos e a roubalheira de políticos.

As autoridades declararam feriado, há festas programadas na orla . Espero encontrar a feira livre na Nossa Senhora da Paz. É tempo de jaboticabas e surgiu uma romã imensa, cinematográfica.

Dizem que Lula falará  sobra importância da Olimpíada para a auto-estima dos  brasileiros. Nem sei se isso procede. Mas auto-estima prá cá, auto-estima prá lá, estamos sempre vivendo o mesmo enredo.

Deveria haver uma hora para cessar a auto-estima. Meia noite é pouco, reconheço. Mas às duas da manhã, quando todos os bares já se fecharam, todas as auto-estimas deveriam também ser negadas. Hora em que deveríamos aceitar nosso destino e dormir em paz, como quem mora em Tóquio, Chicago ou Madri.

Se o Rio vencer, esperam-se investimentos maciços. Tivemos um Pan que nos deixou alguns elefantes brancos e muitas dúvidas sobre a aplicação do dinheiro.

Em caso de derrota, com as ruas cheias e alguma bebida, talvez seja preciso acalmar as pessoas. Convocou-se uma festa antecipada. De qualquer forma, à noite dançamos o funk.

A sorte numa sexta-feira Fernando Gabeira

Hoje é um dia especial. Não vou percorrer labirintos em Tegucigalpa em mergulhar nos abismos oceânicos, onde extrai petróleo. Hoje é  sexta e o que acontecer em Copenhague terá um efeito direto em nossas vidas.

Hoje é sexta vou ouvir como sempre as batidas do baile funk, um ou outro tiro perdido, motoristas tresloucadas tomando as ruas, enfim hoje em dia acontece na noite de sexta quase tudo que era reservado ao sábado, no poema de Vinicius de Moraes.

Oitenta e cinco por cento dos cariocas, dizem as pesquisas querem as Olímpiadas no Rio. Os habitantes de Tóquio querem menos a escolha de sua cidade. Apenas 56 por cento. Em Chicago há movimento contra pois temem-se os gastos excessivos e a roubalheira de políticos.

As autoridades declararam feriado, há festas programadas na orla . Espero encontrar a feira livre na Nossa Senhora da Paz. É tempo de joboticabas e surgiu uma romã imensa, cinematográfica.

Dizem que Lula falará  sobra importância da Olimpíada para a auto estima dos  brasileiros. Nem sei se isso procede. Mas autoestima prá cá, autoestima prá lá, estamos sempre vivendo o mesmo enredo.

Deveria haver uma hora para cessar a autoestima. Meia noite é pouco reconheço. Mas as duas da manhã, quando todos os bares já se fecharam tôdas as autoestima deveriam também ser negadas. Hora em que deveríamos aceitar nosso destino e dormir em paz, como quem mora em Tóquio, Chicago ou Madri.

Se o Rio vencer, esperam-se investimentos maciços. Tivemos um Pan que nos deixou alguns elefantes brancos e muitas dúvidas sobre a aplicação do dinheiro.

Em caso derrota, com as ruas cheias e alguma bebida, talvez seja preciso acalmar as pessoas. Convocou-se uma festa antecipada. De qualquer forma, a noite dançamos o funk.

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Sarney, Marina e Tião

Marina Silva e Tião Viana deram entrevistas, deixando claro que são pela saída de Sarney. Não aceitaram a orientação de Lula, nesse particular. Eles sabem o que fazem. Perceberam que não há horizonte na permanência de Sarney. O Senado precisa de uma profunda reforma. Tião foi um pouco mais longe, lamentando que Lula nada tenha feito para melhorar as relações políticas no País. Os partidos ficaram mais fracos, depois de sua chegada ao governo.

Marina e Tião são dois senadores do Acre. Próximos aos verdes, foram companheiros de Chico Mendes. É preciso apoiá-los nesse caminho independente. Suplicy, Flávio Arns e Paulo Paim parece que também querem a saída de Sarney. Será uma semana decisiva.

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