Irã e o silêncio brasileiro

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Oito pessoas foram assassinadas. Há mais de 300 presos. E tudo aconteceu num feriado religioso, quando os xiitas comemoram o ashura. Era também o sétimo dia da morte do aiotolá Montazeri, um opositor do regime. Os homens do governo pensaram que o feriado poderia ser tranqüilo mas perceberam que havia mais opositores nas ruas de Teerã, e não só Teerã, como Tabriz e Isfahan, do que propriamente fiéis.

Os Estados Unidos já se manifestaram contra a repressão e morte dos manifestantes. Mas os EUA são o adversário de sempre e até hesitam em protestar para não serem usados como um instrumento de reforço da repressão. O caso brasileiro é típico. Considerado um interlocutor do governo iraniano, o presidente Lula não se manifestou. É razoável que haja alguma expectativa em torno da posição do país. Na época das eleições, Lula minimizou a revolta nas ruas de Teerã, afirmando que parecia um conflito de torcedores insatisfeitos com o resultado do jogo, vascaínos contra flamenguistas.

A recusa em aceitar o resultado do jogo eleitoral prossegue, revelando na sua esteira de sangue e repressão como era equivocada aquela fala do presidente Lula. É hora de esclarecer a posição brasileira não só sobre as eleições mas também sobre o esforço nuclear. Naturalmente, o sistema islâmico espera o silêncio do Brasil. Mas seremos apenas interlocutores, ou cúmplices silenciosos do processo brutal de repressão no Irã? Isso não influi em eleição, não tira popularidade, é uma escolha que o presidente pode fazer livremente. Há brasileiros que não aceitam o rumo das relações entre os dois países.

Interessante é que a imprensa nacional não cobra, neste momento, uma posição do Itamarati. Se o Brasil se aventurou  ter um papel naquela área, buscando legitimar um governo eleito pela fraude, é razoável que seja cobrado por suas escolhas. Sobretudo agora que ficou bem claro um processo histórico bastante mais complexo do que brigas de torcidas de futebol.

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Cartas de Paris V: Pra lá de Teerã

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Escrevo de madrugada em Paris. Ao longo do dia, vou atualizando pelo telefone. Os japoneses estão escrevendo romances para celular. Quem sabe, no futuro, posso me candidatar? Estou preocupado com as declarações de Lula sobre o Irã. Mais uma vez, ele demonstrou uma paciência com o regime iraniano negado pela própria comunidade internacional, China e Rússia inclusive. Ao criticar os EUA e a Rússia dizendo que não tinham moral para pedir que o Irã não se arme, cometeu um erro diplomático. Mesmo considerando o desarmamento nuclear um objetivo nobre para a humanidade, não creio que um presidente deva se exprimir assim.

Outro dia, no Brasil, antes de partir, fiz uma longa exposição sobre a política externa brasileira. Falei da importância crescente do país no mundo e acentuei que estes erros acabam neutralizando os avanços que obtivemos em outras áreas, inclusive a economia.

Pequenos países como a Costa Rica, são muito mais prudentes. O próprio Oscar Arias, que foi presidente de lá, lamentou a posição de quem reconhece as eleições no Irã e se recusa a reconhecer as eleições em Honduras, onde o processo eleitoral em si não foi questionado.

Lula quer dar um balão de oxigênio a Ahmadinejad e diz que isto se deve aos interesses nacionais em jogo. Pois bem, os verdadeiros interesses nacionais do Brasil estão sendo prejudicados e, nesse caso, caminhamos mais para nos isolarmos com o presidente do Irã. Aliás, muitos socialistas franceses me questionaram perplexos sobre esta posição brasileira. Como explicá-la?

Apesar da passagem de Lula pela Alemanha, dois temas continuam ocupando o noticiário: os preparativos para Copenhague e o aumento de tropas no Afeganistão. Sobre Copenhague, recomendo, para quem lê em francês, o número especial da revista Nouvel Observateur, que convidou Daniel Cohen Bendit para editá-la. Quando tiver um tempo, faço uma síntese.

Fiquei feliz com a aprovação do projeto das Cagarras. Elas são apenas um pedaço da baía de Guanabara. Mas podemos começar por ali, refazendo a mata queimada, organizando viagens escolares etc. Pensei num navio a propulsão solar para fazer o roteiro turístico e a área é excelente para mergulho assistido por instrutores, como em Fernando de Noronha. Como disse, a baía de Guanabara poderia um dos grandes trunfos para 2014  e também para as Olimpíadas. Ela está ligada à história do Brasil e também tem ainda alguns vestígios da passagem francesa. Poderíamos começar pelas Cagarras e depois organizar roteiros turísticos pela baía, tentando equacionar o destino da Ilha de Paquetá. Ela foi o paraíso dos namorados. O namoro prosseguiu mas a ilha entrou em decadência. Há formas de recuperá-la e não deveríamos perder a oportunidade de tentar.

É  muito estimulante o livro de Umberto Eco e Jean Claude Carriére . Eles falam muito da internet e fazem um balanço de todos os suportes que surgiram no passado recente, do cassete ao DVD. Citam um grande colecionador brasileiro, José Mindlin, que tem uma edição de “Os Miseráveis”  lançada no Brasil no mesmo ano em que foi impressa a edição francesa. Os dois, Eco e Carriére, são muito lidos e, além disso, colecionam livros.

Na Village Voice comprei também o livro de memórias de Edward Kennedy, “A True Compass”. Li apenas as primeiras páginas, quando ele toma conhecimento do câncer no cérebro. O livro tem 506 páginas. É coisa para todo o verão.

O frio e a chuva fina aumentam as saudades do Brasil. Volto para a casa amanhã. Cada viagem curta é um grande estimulo para retomar o trabalho. O noticiário por aí não está muito animador por causa dessa história de Brasília, entre outras. Mas a aprovação do projeto das Cagarras, depois de tantos anos, é um alento, embora não entenda por que demoramos tanto com algo tão obviamente interessante para uma cidade com o calendário que o Rio tem pela frente.

Escrevo de madrugada em Paris. Ao longo do dia, vou atualizando pelo telefone. Os japoneses estão escrevendo romances para celular. Quem sabe, no futuro, posso me candidatar? Estou preocupado com as declarações de Lula sobre o Irã. Mais uma vez, ele demonstrou uma paciência com o regime iraniano negado pela própria comunidade internacional, China e Rússia inclusive. Ao criticar os EUA e a Rússia dizendo que não tinham moral para pedir que o Irã não se arme, cometeu um erro diplomático. Mesmo considerando o desarmamento nuclear um objetivo nobre para a humanidade, não creio que um presidente deva se exprimir assim.

Outro dia, no Brasil, antes de partir, fiz uma longa exposição sobre a política externa brasileira. Falei da importância crescente do país no mundo e acentuei que estes erros acabam neutralizando os avanços que obtivemos em outras áreas, inclusive a economia.

Pequenos países como a Costa Rica, são muito mais prudentes. O próprio Oscar Arias, que foi presidente de lá, lamentou a posição de quem reconhece as eleições no Irã e se recusa a reconhecer as eleições em Honduras, onde o processo eleitoral em si não foi questionado.

Lula quer dar um balão de oxigênio a Ahmadinejad e diz que isto se deve aos interesses nacionais em jogo. Pois bem, os verdadeiros interesses nacionais do Brasil estão sendo prejudicados e, nesse caso, caminhamos mais para nos isolarmos com o presidente do Irã. Aliás, muitos socialistas franceses me questionaram perplexos sobre esta posição brasileira. Como explicá-la?

Apesar da passagem de Lula pela Alemanha, dois temas continuam ocupando o noticiário: os preparativos para Copenhague e o aumento de tropas no Afeganistão. Sobre Copenhague, recomendo, para quem lê em francês, o número especial da revista Nouvel Observateur, que convidou Daniel Cohen Bendit para editá-la. Quando tiver um tempo, faço uma síntese.

Fiquei feliz com a aprovação do projeto das Cagarras. Elas são apenas um pedaço da baia de Guanabara. Mas podemos começar por ali, refazendo a mata queimada, organizando viagens escolares etc. Pensei num navio a propulsão solar para fazer o roteiro turístico e a área é excelente para mergulho assistido por instrutores, como em Fernando de Noronha. Como disse, a baia de Guanabara poderia um dos grandes trunfos para 2014  e também para as Olimpíadas. Ela está ligada à história do Brasil e também tem ainda alguns vestígios da passagem francesa. Poderíamos começar pelas Cagarras e depois organizar roteiros turísticos pela Baia, tentando equacionar o destino da Ilha de Paquetá. Ela foi o paraíso dos namorados. O namoro prosseguiu mas a ilha entrou em decadência. Há formas de recuperá-la e não deveríamos perder a oportunidade de tentar.

É  muito estimulante o livro de Umberto Eco e Jean Claude Carriére . Eles falam muito da internet e fazem um balanço de todos os suportes que surgiram no passado recente, do cassete ao DVD. Citam um grande colecionador brasileiro, José Mindlin, que tem uma edição dos Miseráveis lançada no Brasil no mesmo ano em que foi impressa a edição francesa. Os dois, Eco e Carriére, são muito lidos e, além disso, colecionam livros.

Na Village Voice comprei também o livro de memórias de Edward Kennedy, A True Compass. Li apenas as primeiras páginas, quando ele toma conhecimento do câncer no cérebro. O livro tem 506 páginas. É coisa para todo o verão.

O frio e a chuva fina aumentam as saudades do Brasil. Volto para a casa amanhã. Cada viagem curta é um grande estimulo para retomar o trabalho. O noticiário por aí não está muito animador por causa dessa história de Brasília, entre outras. Mas a aprovação do projeto das Cagarras,depois de tantos anos, é um alento, embora não entenda por que demoramos tanto com algo tão obviamente interessante para uma cidade com o calendário que o Rio tem pela frente.

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Neda, martírio e Islã

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A morte da jovem Neda Agha-Soltan,metralhada pela milícia Basiji, um ramo da Guarda Revolucionária, traz a cena o martírio, algo importante na religião muçulmana, sobretudo entre os xiitas, majoritários no Irã. Os aitolás impediram que ela tivesse um funeral muçulmano. Mas isto não adianta. Ela se tornou um símbolo universal.

Discutimos muito ontem se colocaríamos ou não a imagem de sua morte no ar. Optamos por avisar que eram imagens fortes, mas divulgamos aqui como foi divulgada em toda parte do mundo. A proximidade de um telefone celular revela como a violência do governo iraniano é combatida com meios eletrônicos, uma característica dessa crise.

Segundo a religião, Neda deverá ser lembrada no terceiro, sétimo e quadragésimo dia de sua morte. Estas datas passaram a ser mais uma agenda de lutas para a oposição.

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Irã após o discurso de Khamenei

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A crise no Irã deve tomar novas formas a partir de agora. O regime liderado pelo Aiatolá Ali Khamenei fala em banho de sangue se as demonstrações continuarem.

Pela manhã no Brasil, as informações sobre nova marcha ainda eram contraditórias. Uma entrevista da ganhadora do Nobel da Paz, a iraniana Shirin Ebadi fala da situação dos direitos humanos, neste momento no Irã. Um artigo de David Brooks, do Nytimes, reproduzido pelo Estadão, afirma que o Irã nunca mais será o mesmo.

Brooks não diz no que o país vai se transformar mas constata que a velocidade dos fatos supera a capacidade dos analistas,que não têm ferramentas para analisar mudanças tão rápidas.
Aqui no Brasil, o discurso de Lula sobre a Amazônia contém muita coisa sensata.

Ele recordou o momento em que era permitido desmatar na Amazônia e lembra que entramos no momento em que é proibido desmatar.

Mas não falou claramente da estrutura de fiscalização que seria necessária para controlar os fatos lá onde acontecem.

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Teerã:+3:30 GMT

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Até agora, não consigo explicar a posição de Lula sobre o Irã. Por que se precipitar e dizer que as manifestações eram brigas de vascaínos contra flamenguistas?

Naquele momento, os principais líderes mundiais sinalizaram preocupação e cautela. As apurações iranianas que levam uma semana para serem tabuladas, foram resolvidas em horas. Em Tabriz, terra de Moussavi, Ahmamenijad ganhou longe, o que não costuma acontecer.

Esses dados já estavam disponíveis. Depois da declaração, vieram outros mais embaraçosos: em mais de 30 cidades, o número de eleitores superou o de inscritos. Em Taft, o número de eleitores, segundo a oposição, elevou-se a 141 por cento: fantasmas.

Não era necessário manifestar simpatia pela oposição. Simplesmente cautela. Tanto o presidente, como o Itamaraty, não receberam bem as críticas sobre a visita de Ahmadinejad. Aproveitaram para dizer que a visita estava de pé. E para mostrar independência em relação a imprensa ocidental. Se ela diz uma coisa, pode ser que esteja acontecendo outra.

O Brasil quer se mostrar pragmático, disposto a tudo por um bom negócio. Mesmo bons negociantes a quem se pede, a todo instante, o sacrifício de princípios, precisam saber se calar.

Não havia grandes mudanças em gestação. No Irã, às vezes, o resultado das urnas pode ser sufocado pela revolução. Mas alinhar-se aos setores mais conservadores, considerar uma luta, que depois resultaria em mortes, como um simples choque de torcidas, é qualquer coisa pra lá de Teerã.

Os iranianos que fazem seu movimento também pela internet sabem que nem todos no Brasil se alinham, nesse caso, com a posição de Lula. Muitos relógios estão sintonizados com a hora de Teerã: +3:30 GMT.

Veja a página especial sobre a crise política no Irã.

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Pra lá de Teerã

As manifestações no Irã continuam ao longo do dia. Tudo indica que a situação não foi resolvida e é preciso cautela, pois a repressão matou sete manifestantes. A investigação prometida não passará da recontagem de alguns votos.

Ancorada na internet (a imprensa estrangeira está sob cerco), a resistência no Irã deve continuar. Obama tem se mostrado cauteloso. Lula, não. Ele afirma que não houve fraudes e compara as manifestações a brigas entre torcedores do Flamengo e do Vasco.

Esta banalização da política acaba se tornando cansativa. O presidente não foi informado de tudo que se passa no Irã, apesar da riqueza de dados na rede. Fomos buscar uma foto no Flickr e surgiram centenas de contribuições dos iranianos.

Uma parte do Brasil não está seguindo o que se passa no mundo. O governo brasileiro, ideologicamente favorável a Ahmadinejad, não percebe o potencial das manifestações em Teerã. Pior para nós.

Acabo de sair de um seminário de relações Brasil-Europa. Pelo Congresso brasileiro falou Mão Santa, representando Sarney. Procurou holandeses na platéia para constatar se conheciam Ruy Barbosa, o Águia de Haia.

Não se pode desanimar. Os ajustes virão com o tempo.

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A duvidosa eleição no Irã

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Vestidos de verde, os opositores no Irã votaram e apanharam depois das eleições. Mas não se conformaram com os resultados, que para muitos é fruto de uma gigantesca fraude. A imprensa ocidental, demonizada por Ahmadinejad, oscila nas suas interpretações.

Muitos acham que foram apenas uma ilusão as grandes manifestações vividas em Teerã. Outros acham que é preciso investigar, pois há fatos suspeitos. O primeiro deles foi antecipar o rito de reconhecimento da vitória, sempre consumado depois de três dias.

Nesta eleição, o reconhecimento foi feito em apenas algumas horas. Outra grande dúvida é a vitória de Ahmadinejad em Tabriz, região onde nasceu seu adversário na disputa, Hossein Mousavi. De um modo geral, ali sempre se vota nos candidatos da terra.

O mais importante, depois das manifestações em Teerã, é o fato de que o líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, autorizou uma investigação. As primeiras declarações das autoridades brasileiras, em Genebra, onde se encontram numa visita onde não se economizaram passagens, foram no sentido de legitimar a escolha de Ahmadinejad.

Foram mais realistas do que o próprio Khamenei, preocupado com a repercussão internacional do movimento reformista iraniano. Quando convidarem Ahmadinejad para uma visita ao Brasil, devem se lembrar agora do que não estava ainda muito claro quando ele quase veio ao nosso país: há forte oposição no Irã.

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