16.10.2009

“Teus dois cinemas, um ao pé do outro, por que não se afastam/ para não criar, todas as noites, o problema da opção.”
O poema de Carlos Drummond falava da tortura que era para os moradores do Méier terem dois cinemas, um ao lado do outro. Imagino como o poeta não ficaria surpreso com as notícias de nosso tempo.
Quando menino, também não tinha opção. Havia um novo filme por semana, de um modo geral um capítulo de Tom Mix. Hoje é possível baixar centenas de filmes pela internet. E ganha impulso o livro eletrônico que num espaço reduzido contém 1500 títulos.
Há muitas formas de pensar isto. Uma delas, compreender a importância dessa produção imaterial, indicando que matérias primas podem ser até racionalizadas. Mas o consumo cultural é, potencialmente, ilimitado.
A outra é voltar aos moradores do Méier e viver, em proporções gigantescas, a angústia da opção. Possivelmente, Drummond estava influenciado pela filosofia existencialista pós guerra e queria fazer uma referência mais profunda à inescapabilidade da escolha.
Diante de centenas de filmes e milhares de livros ao nosso alcance, vivemos como se estivéssemos diante de milhões de cinemas do Méier. São tantas as escolhas que não sabemos nunca se estamos no livro, no filme ou na página certa da internet. É difícil acreditar que estamos usando bem o tempo, tantas são as variáveis e descaminhos.
Considerando que, além do cinema, temos de trabalhar e, em certas cidades, flanar pelas ruas, nossa indecisão perdeu a dimensão poética do livro Sentimento do Mundo. E ganhará as mesas dos psicólogos, consultores e planejadores do cotidiano. Como obter mais da gigantesca oferta cultural, sem medo de que coisas mais interessantes estejam acontecendo em outra parte? Indecisão do Méier, elevada ao cubo.











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