21.02.2005
Altamira – Uma das lições que o caso Dorothy trouxe é a de que era fundamental envolver o Exército na questão amazônica. A Transamazônica, por exemplo, é chamada de Transamargura. Dificilmente algo pode ser controlado apenas por terra.
O Exército tem mais capacidade de se mover e deslocar outras forças pela floresta. Além disso é grande seu impacto psicológico. A própria Marina afirma: uma coisa é chegar com o Ibama ou Incra num helicóptero comum; outra coisa é chegar com o Exército.
O clima aqui é muito tenso e nem tudo se resolve só com o argumento. A morte de Dorothy é um exemplo claro .
A presença do Exército nesta operação foi a maior desde a campanha contra a guerrilha do Araguaia. Além do transporte aéreo, ele trouxe, através do general Nass, que comanda o Batalhão de Infantaria em Altamira, uma visão correta: conjugação de forças por cima de pequenas rivalidades entre as corporações em presença: policias civil, militar, federal e o próprio exército.
No aspecto da inteligência, talvez fosse necessário algo mais do que conjugação, mas uma espécie de comando único que não só trabalhasse as informações disponíveis como também definisse o que era preciso saber em seguida.
Na sexta-feira trabalhava-se com a notícia de que o matador de Dorothy tinha sido visto numa estrada vicinal, chamada Pau Furado. Houve uma tentativa de localizá-lo com helicóptero. Rendeu boas imagens, mas apenas isso.
Um filme australiano que está nas localadoras, chamado Geração Perdida, dá um pouco a idéia do problema. Duas meninas nativas fugiam de uma instituição racista na Austrália, buscando de novo sua família de quem foram arrancadas por um programa de purificação. Os computadores ainda não existiam mas as autoridades checavam as informações com as possíveis rotas de fuga e calculavam onde poderiam estar e quando estariam ali.
As meninas fugiam da instituição para sua casa, seguindo uma rede para evitar a saída de coelhos.
Com os mapas era possível calcular sua trajatória. No caso do matador de Dorothy o processo poderia ser parecido com duas vantagens essenciais: os computadores e os mapas por satélite.
Com os mapas de satélite, cedidos pelo Incra, foi possível determinar todas as estradas vicinais à Transamazônica. Pois o dilema dos matadores era simples: ou morrer numa floresta que não conhecem bem, ou ganhar a Transamazônica.
Escrevo no momento em que o criminoso está sendo transportado de Anapu para Altamira. Tudo indica que foi preso pelas patrulhas do Exército que cobriam as vicinais e também a Transamazônica.
O trabalho de inteligência foi muito fortalecido pelas informações. Antes dos helicópteros voarem para a região do Pau Furado, o que para mim era uma canoa furada, havia informações sobre a presença dos criminosos na estrada vicinal. Detalhes como um embornal preto, que poderia conter a arma, assim como a informação de que estavam com R$ 40,00 me foram passados na tarde de sexta.
A boa escolha era concentrar na Transamazônica. As operações mais espetaculares foram boas para produzir imagens e alimentar os leões da midia. A combinação do raciocínio correto e a vontade do Exército e dos federais acabou sendo decisiva para resolver o caso nesse nível – isto é a prisão do criminoso.
Com a prisão apenas o problema imediato foi solucionado.
Será preciso um sofisticado esquema de inteligência para orientar o desmonte de um sistema de grilagem e devastação que está bastante articulado com figurões e políticos paraenses.
Há uma teia de cumplicidade que só pode ser dissolvida com a presença de uma forca federal. Não é necessário o Exército fazer o papel de polícia. A PF tem condições técnicas de realizá-la desde que haja um apoio militar.
Esse apoio não virá apenas com artiulação de uma inteligência em terra, mas dependerá também da ajuda do Sivam. Os mapas de satélite ajudaram muito pois era possível marcar o ponto da estrada do Pau Furado onde os criminosos foram vistos e a saída da Transamazônica.
O que tornou esse processo mais poderoso foi também a ajuda da parte dos moradores da área, que compreenderam bem o objetivo dos militares.
As cenas mais espetaculares acabaram também contribuindo para um certo temor entre os madeireiros. Falei com um, que veio do Espírito Santo e trabalhava com um trator arrancando a jupira, a mata que cresce nas áreas já cortadas. Ele que contribuiu na devastação da Mata Atlântica e como outros capixabas estava aqui com seu know how disse que, de agora em diante, só aluga seu trator para derrubar a jupira se houver licença do Ibama.
É quase verdadeiro. Quando o aparato for embora e, houver a sensação de que as coisas voltaram a ser facéis, é muito provavel que os velhos reflexos voltem ao madeireiro capixaba.
Daí a necessidade de realizar algo com constância e bem planejado. De qualquer maneira, o governo que hesitou tanto na Terra do Meio e no caso Dorothy, reencontrou um caminho correto. Agora é fazer pressão para que não recue.








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