As ondas do desespero

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Milhares de pessoas aglomeradas no cais revelam o que sempre foi o grande temor dos EUA no Haiti: a fuga em massa. Desde o princípio, menciono aqui esta possibilidade e afirmo que a resposta rápida dos americanos ao terremoto, além de um ato solidário, expressava o medo de ter reprimir pessoas se lançando ao mar, em embarcações precárias.

Aliás, uma das medidas discutidas por Hillary Clinton com o presidente do Haiti, René Preval, foi a decretação de toque de recolher e maior poder para decisões típicas de período de emergência e guerra. No mesmo sábado em que Hillary passou por Porto Príncipe, os EUA disseram que compreendiam o esforço da República Dominicana e iam compensá-la por isto.

Os refugiados haitianos, dentro da Ilha Espanhola, podem fugir para a República Dominicana; no mar seu destino é os Estados Unidos. As fronteiras estão fechadas, mas é difícil conter tanta gente. Já há na República Dominicana um sentimento de hostilidade aos haitianos, uma vez que a busca de refúgio por razões econômicas tem sido constante.

Nas ruas de Porto Príncipe há quem reclame da presença americana. Para que tantas armas se precisamos de água e comida? Mas há um grande perigo de violência e as entidades que distribuem comida estão sendo, constantemente, ameaçadas.

Antes mesmo do terremoto, antes da eleições, já havia um acordo Haiti-EUA que dava aos americanos o controle da costa haitiana. Para eles é uma questão estratégica evitar o êxodo em massa. Os EUA já ocuparam o Haiti, já derrubaram e recolocaram presidentes, são parcialmente responsáveis pela falência do estado.

Por essas razões estratégicas e históricas, o Brasil deve se concentrar em fazer o bem e melhorar a qualidade de nossa ajuda, ao invés de, pura e simplesmente, mandar mais soldados a cada nova crise.

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Quando as câmeras sairem

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O Haiti era um país invisível. Subiu com a tragédia à categoria de noticia mais importante. Infelizmente, mostra a experiência, que com o tempo outros temas vão ocupando o lugar da tragédia e o Haiti tende a ser invisível de novo.

Todos estão preocupados com o que acontecerá, quando as câmeras saírem de lá. Mas a chance de uma reconstrução real talvez seja única. O governo Preval é melhor que os outros. Os Estados Unidos, agora sob Obama, prometeram uma ajuda permanente. Até os cálculos de quanto é necessário para a reconstrução parecem prontos:US$2 bilhões por ano.

O comandante do Exército anunciou que o Brasil poderia dobrar seu contingente, diante das novas necessidades. Agora que pode haver uma saída, antes não parecia tão claro este horizonte, talvez valesse a pena esperar um pouco. Vamos ver até onde os norte-americanos vão, se estão mesmo dispostos a avançar na ajuda ao Haiti. Se isto acontecer, soldados eles podem deslocar com mais facilidade e, dado à distância entre EUA e Haiti, podem oferecer uma logística mais poderosa. Nosso problema não é apenas aumentar a ajuda mas pensar na qualidade dela. Ainda bem que o comandante do exército disse que tudo depende do governo e do Congresso. É a Constituição. Teremos o direito de discutir o tema, como discuti longamente a primeira remessa de tropas. Só naquele momento, a discussão caiu no vazio.

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Um ministro camuflado

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Jobim afirmou que o Brasil ficaria cinco anos no Haiti. Imediatamente neste blog protestei – não quanto ao mérito da decisão, mas à  sua forma. Existe ainda um Congresso no país e essas coisas passam por ele.  Além disso,  ano que vem  teremos um novo presidente. Como definir nosso papel no Haiti, sem conhecer em detalhes os projetos norte-americanos, que dispõem de mais recursos e estão cada vez mais próximos, com o fim das limitações no espaço aéreo cubano?

Se tivesse algum tipo de pretensão, diria que o Itamarati leu o blog. A primeira entrevista do secretário-geral Antonio Patriota diz exatamente isto: é prematuro afirmar que o Brasil ficará mais cinco anos no Haiti. Mas o governo não lê blogs, nem toma conhecimento da oposição. Ao contrário do governo americano, que convoca ex-presidentes e os incorpora ao esforço de ajuda ao Haiti. Em outros países, a política externa é fruto de um acordo nacional; aqui é objeto de decisões partidárias.

Entendo certas coisas, embora tenha dificuldade em aceitá-las. Nosso Ministro da Defesa foi falar apenas com militares. Os americanos enviaram Hilary Clinton que se reuniu com o presidente Preval. É outro nível de contato. Nosso ministro foi vestido com farda de camuflagem. Para que, se não há guerra no Haiti e nem vegetação mais existe no país, exceto num pequeno parque nacional preservado?

O governo parece todo voltado para um espetáculo. Do ministro Minc ao ministro Jobim tudo passa por uma aparição na mídia. Jobim disse na sexta que era eufemismo falar de sobreviventes. No domingo, cinco pessoas foram resgatadas com vida. Se não acreditava na resiliência humana, por que não ficar calado?

Existe algo comum entre Minc e Jobim. Este fala em ficar cinco anos no Haiti, abstraindo a existência do Congresso. Minc anuncia plano para as ilhas Cagarras, ignorando que projeto por mim apresentado foi aprovado na Câmara e no Senado. E decide mudar , unilateralmente , o nome das Cagarras para Tim Maia. Por que? Pelo espetáculo.

Mas o problema central é o Haiti. É absolutamente necessário que o Itamarati assuma o processo e que o Ministro da Guerra fale apenas sobre suas atividades específicas. E que o governo descubra a oposição e a sociedade, que, junto com ele, poderiam potencializar nossa ajuda ao Haiti.

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O papel dos EUA e do Brasil no Haiti

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Numa declaração em Curitiba, Gilberto Carvalho, secretário de Lula, afirmou que o Brasil vai adotar o Haiti. O Ministro Nelson Jobim, por seu lado, anunciou que nosso país ficará mais cinco anos por lá. Jobim não mencionou que isto ainda vai ser submetido ao Congresso e que o novo papel do Brasil precisa ser discutido mais amplamente do que aquela decisão de mandar tropas, após a queda de Aristide. Naquele momento, não havia nenhum interesse pelo debate e gastei meus argumentos que, independente de sua qualidade, não foram ouvidos.

Acontece que os Estados Unidos decidiram também adotar o Haiti. Quando fomos chamados para dirigir a força de paz, os americanos, sob Bush, queriam se afastar ao máximo de um país em ruínas, e, além de tudo, invisível.

Obama num primeiro momento falou sobre o papel de liderança dos Estados Unidos. Em Porto Príncipe, na manhã de sábado, Hilary Clinton voltou ao tema, dizendo que certas coisas só podem ser feitas pelos Estados Unidos. Naturalmente, referia-se ao poderio econômico e militar e também a proximidade entre os dois países. Agora, que Cuba liberou seu espaço aéreo, no fim do último vestígio da Guerra Fria, um tempo de 90 minutos foi economizado no percurso entre os dois países.

Os Estados Unidos devem tomar a iniciativa não só por essas razões. São os únicos, ao lado da Repoública Dominicana, a se inquietarem como uma inevitável tentativa de fuga em massa do Haiti. Colocaram mais dinheiro, despacharam porta aviões e um navio hospital, Confort. Só em matéria de soldados, os seus 10 mil homens superam o contingente de 7 mil homens da Minustah.

Isto não significa que os bravos soldados brasileiros serão esquecidos. Pelo contrário. São amados pelo povo que, inclusive nomeia as crianças com nome dos soldados, conhecem bem Porto Príncipe, falam um pouco do idioma e pacificiaram as duas maiores favelas: Bel Air, que é no fundo um bairro que se deteriorou, e Cite Soleil.

Os americanos controlam o aeroporto. Há reclamações sobre sua atuação. O Brasil merece prioridade pois está no solo, gerindo uma crise dramática. Mas agora, no fim da tarde, o presidente Rene Preval assinou um acordo com os EUA, atribuindo os poderes de coordenação. O quadro vai fechando e muito possivelmente, de forma articulada, os EUA vão fazer a segurança geral do país , deixando para a ONU a tarefa de a função coordenar a ajuda na cidade.

Isto é  o quadro que me parece desenhado, neste momento. Os EUA prometem uma ajuda de longo alcance. O Brasil anuncia que ficará mais 5 anos.

Não seria interessante esperar um pouco a definição geral do papel americano, para definirmos o nosso, ali por fevereiro?  O governo no Brasil não fala com ninguém. Obama convocou Bush e Clinton para mostrar um esforço nacional e não partidário. Estamos precisando de uma visão mais generosa do governo, para podermos colaborar.

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Pesadelo logístico

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O porto foi danificado. O aeroporto, agora controlado pelos norte-americanos, não dá vazão aos pedidos de pouso e os primeiros alimentos chegados não têm quem os descarregue. A polícia nacional do Haiti praticamente desapareceu de cena. Muito possívelmente, o controle do país tem de ser passado às forças de paz – isto é à responsabilidade do Brasil.

Nosso país, entretanto, não tem condições de realizar a tarefa com seus 1300 homens. No momento, este efetivo está dedicado ao socorro e patrulhamento para evitar ondas de saques. Em pouco tempo, a presença norte-americana será dominante. Obama pretende mandar seis mil homens para garantir a segurança e dois porta-aviões, dotados de helicópteros, estão sendo deslocados para a costa haitiana.

Mas o fato de os norte-americanos entrarem em cena, inclusive com ajuda de US$ 100 milhões, não significa que o pesadelo logístico foi superado. As primeiras equipes de salvamento já chegaram, mas não têm equipamentos pesados para retirar o entulho. Isto faz uma enorme diferença. Em Angra dos Reis, quando uma escavadeira entrou em cena, foi possível trabalhar com rapidez e retirar os corpos. Antes de sua chegada, o trabalho patinava com esforço de mãos nuas e equipamentos leves como a pá.

Uma das primeiras lições que tirei do nosso trabalho é a de que não estávamos contando com um colapso nas comunicações. Indivíduos, que usavam uma das empresas telefônicas, conseguiram através do twitter manter contato com o mundo, assim alguns depoimentos pelo skype foram possíveis. Em termos de comunicação era preciso ter a leveza dos indivíduos usando as técnicas mais modernas.

Com isto seria possível alimentar a sala de situação no Brasil, com noticias sobre nossos soldados e funcionários. Na primeira hora depois do terremoto, propus que o Brasil coordenasse os socorros, em sintonia com os Estados Unidos. Mas Obama afirmou agora que isto é uma tarefa para a liderança norte-americana. Ainda assim, o papel da ONU é fundamental e as tropas de paz, que já estão no país, conhecem Porto Príncipe e até falam um pouco o idioma, vão ser decisivas nos primeiros passos para a reconstrução.

Sempre defendi que os EUA tivessem um papel maior que o Brasil. De uma certa forma, estávamos evitando, ao manter o Haiti em paz, grandes ondas de imigrantes clandestinos se lançando no mar.

Sarkozy afirmou que é preciso uma conferência internacional, convocada pelos EUA, França, Brasil e Canadá. Todos têm um vínculo como Haiti. A França colonizou, os EUA invadiram e não resolvem o problema, e o Canadá atraiu a inteligência haitiana que abandonou o país. Acontece que uma conferência agora não diz nada. O problema é logístico, de organização no terreno, tem uma urgência que demanda respostas rápidas. Depois de Copenhague, deveríamos economizar conferências.

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Nosso homem no Haiti

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Ricardo Seitenfus é um gaúcho corpulento que se parece fisicamente com o Ministro Jobim. É um grande especialista brasileiro em Haiti. Tive oportunidade de encontrá-lo duas vezes, em audiências públicas, e li seu livro. No principio, discordávamos sobre a presença do Brasil. Ele era um entusiasta. Eu, cético. Com o tempo e o conhecimento do que faziam os brasileiros, achei que valia a pena, apesar de tudo.

Um dos pontos que me preocupava quando discutimos na Câmara a ida do Brasil era a falta de saída. Num livro de Graham Greene sobre o Haiti, traduzido aqui como Comediantes, já se falava em estrada construída pelos americanos. Os franceses também tentaram ajudar. Nada parecia prosperar nesta ajuda internacional, no sentido de tornar o Haiti autônomo e autosustentável.

Seitenfus tornou-se funcionário da ONU e agora, com a desaparição do chefe da missão e do brasileiro que o secundava, o trabalho ficou sob sua responsabilidade. Ele teme, numa entrevista hoje ao Estado de São Paulo, que o Haiti recue 15 anos no tempo. Mas embarcou para lá, para enfrentar sua nova missão. Desejo que tenha êxito. Ricardo Seitenfus e os brasileiros que estão em Porto Príncipe merecem todo nosso apoio. O lado nobre e humanitário de nosso país encontrou no Haiti sua mais alta expressão.

Ontem, no primeiro blog, trabalhando com noticias iniciais, não falava ainda em mortos brasileiros. No principio da manhã, soube pelo assesor parlamentar do Ministério da Defesa, que eram quatro militares. Ao longo do dia, o número subiu para 14 militares, Zélia Arns e ainda há alguns desaparecidos.

Nosso homem no Haiti
Ricardo Seitenfus é um gaúcho corpulento que se parece fisicamente com o Ministro Jobim. É um grande especialista brasileiro em Haiti. Tive oportunidade de encontrá-lo duas vezes, em audiências públicas, e li seu livro. No principio, discordávamos sobre a presença do Brasil. Ele era um entusiasta. Eu cético. Com o tempo e o conhecimento do que faziam os brasileiros, achei que valia a pena, apesar de tudo.

Um dos pontos que me preocupava quando discutimos na Câmara a ida do Brasil era a falta de saída. Num livro de Graham Greene sobre o Haiti, traduzido aqui como Comediantes, já se falava em estrada construída pelos americanos. Os franceses também tentaram ajudar. Nada parecia prosperar nesta ajuda internacional, no sentido de tornar o Haiti autônomo e auto sustentável.

Seitenfus tornou-se funcionário da ONU e agora, com a desaparição do chefe da missão e do brasileiro que o secundava, o trabalho ficou sob sua responsabilidade. Ele teme, numa entrevista hoje ao Estado de São Paulo, que o Haiti recue 15 anos no tempo. Mas embarcou para lá, para enfrentar sua nova missão. Desejo que tenha êxito. Ricardo Seitenfus e os brasileiros que estão em Porto Príncipe merecem todo nosso apoio. O lado nobre e humanitário de nosso país encontrou no Haiti sua mais alta expressão.

Ontem, no primeiro blog, trabalhando com noticias iniciais, não falava ainda em mortos brasileiros. No principio da manhã, soube pelo assesor parlamentar do Ministério da Defesa, que eram quatro militares. Ao longo do dia, o número subiu para 11 militares, Zilda Arns e ainda há alguns desaparecidos.

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Trágico Haiti

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Desde sua independência, o Haiti já viveu 30 golpes de estado, incontáveis furacões e um grande terremoto, em 1984. Os brasileiros já estavam comandando as forças de paz quando um grande furacão devastou o país. Aliás, a devastação no Haiti ocorre com mais facilidade do que na República Dominicana, embora estejam numa mesma ilha. O Haiti destruiu quase todas as suas árvores e tem apenas um pequeno parque nacional preservado.

A resposta mais rápida tem sido na Flórida, onde há também uma colônia de haitianos. Eles costumam sair ou para os EUA ou para o Canadá. Grupos de resgate preparam seu trabalho e creio que o planejamento está sendo difícil. O terremoto ocorreu no fim da tarde. Houve uma grande nuvem de poeira e logo em seguida escureceu. Pessoas que andaram pela cidade de Porto Príncipe ouviram gritos, viram haitianos ensangüentados mas não tinham ainda um quadro da destruição.

O embaixador do Brasil no Haiti é Igor Kipman, um diplomata do Paraná, que conhece bem o país e trabalhava com a região antes mesmo de ser designado. Eu o conheci em Porto Príncipe e depois tive a oportunidade de falar com ele, antes de partir para sua nova missão. Ele declarou aos jornais brasileiros que nenhum soldado brasileiro foi ferido, embora a missão tenha sido atingida materialmente.

Existe, só agora fico sabendo, uma grande sísmica numa faixa do Caribe que vai de Montego Bay até a ilha Espanhola, onde estão Haiti e República Dominicana. Para que se tenha idéia da tragédia , houve 17 tremores secundários após o abalo de 7,3 graus na escala Ritcher.

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Notas sobre a Previdência

Foi um soco no estômago. A julgar pelos relatos, os garotos do Morro da Providência sofreram muito. Em primeiro lugar, os soldados do Exército tentaram arrancar seus cordões de pescoço. Em segundo lugar, foram espancados. Finalmente, depois de entregues aos traficantes do Morro da Mineira, tiveram órgãos amputados e foram muitas vezes alvejados.

Esta barbaridade representa, além do sofrimento das famílias, um grande baque na imagem do Brasil. O Exército brasileiro, que se comporta tão bem no Haiti, aparece, aos olhos do mundo, como um esquadrão de bárbaros.

Como foi possível este equívoco? Ao ir para o Haiti, sob a égide da ONU, o Brasil estava coberto por leis especiais. No Morro da Providência, não.

Só uma política vulgar poderia ter jogado o Exército na lama. E esta política passou pelos mesmos atrativos do Haiti: receber algum dinheiro pelo trabalho.

Só que no Brasil o dinheiro repassado era de uma emenda parlamentar de um senador que é candidato a prefeito do Rio.

No fundo, o Exército brasileiro foi transformado em tropa de choque da Igreja Universal. Em outro lugar, o próprio Comandante já teria pedido demissão.

Não o comandante do Leste, mas o próprio Comandante do Exército. O primeiro chegou a questionar a operação, mas não teve força para contê-la.

Se formos mais longe na compreensão desse aviltamento do Exército, veremos que a própria democracia foi aviltada. As determinações saíram do presidente da República para proteger seu amigo candidato. Naturalmente, os seus defensores vão pedir provas. Mas a verdade é que o Exército, que tem uma política, jamais faria tudo isso sorrateiramente. Só o delirio da popularidade como fator de onipotência poderia ter-nos lançado nessa tragédia.

Infelizmente, a resistência brasileira é muito débil. Vejam como a televisão se refere ao crime, em muitos momentos omitindo o caráter eleitoreiro das obras, em outros afirmando que os rapazes foram entregues a um grupo de traficantes rival. Como afirmar isto? Os rapazes não eram traficantes. Não se pode insinuar que fossem rivais dos traficantes da Mineira.

Foi tudo uma barbaridade, que é amaciada aqui e ali para que não se perceba a gravidade do erro. Os próprios soldados, reconhecendo a autoridade do grupo ADA (Amigos dos Amigos) como se fosse uma instância legal, confirmaram a máxima de que está tudo dominado.

Tráfico, soldados do Exército, comandantes sem estatura para o cargo, presidentes delirando com a popularidade e a imprensa, que às vezes reluta em chamar as coisas pelo nome, a Igreja Universal, com sua ambição de abarcar pedaços do estado brasileiro – tudo isso é horroroso. Tudo isso é a face abominável do Brasil que precisamos superar.

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A visita de Bush

O que esperar da visita de Bush? A parceria no campo dos biocombustíveis pode ser boa. Mas o Brasil e Estados Unidos precisam se entender sobre as cláusulas social e ambiental.

Se quisermos fazer algo além do petróleo, é preciso ter um cuidado com o meio ambiente e com as pessoas, muito diferente do que aconteceu até aqui. Será que Bush tem disposição para ir além do petróleo, ele que quis explorar o Alaska e se recusou a assinar o Protocolo de Kyoto?

Outro problema em nossas conversas: o nuclear. Fazemos tudo direito. Defendemos o Tratado de Não Proliferação e, na frente de muitos países, adotamos medidas restritivas sobre o Irã, após recomendação da ONU. O que faz Bush? Anuncia uma nova geração de ogivas nucleares, faz acordo com a Índia, indicando, claramente, que na sua política good boys podem ter o nuclear, bad boys não. Ora, isto tira a força do impulso planetário pelo desarmamento. A China já anunciou um aumento de quase 20 por cento no seu orçamento militar. A Rússia fala também em modernizar suas ogivas.

No caso do Haiti, também fazemos tudo direitinho. Ocupamos favelas, garantimos a ordem mas não vemos no horizonte nenhum grande plano de socorro social. Ora, nosso esforço não pode trazer a paz indefinidamente num Haiti devastado ecologicamente, com milhares de pessoas na miséria.

Um relatório surgido nos EUA indica que o aquecimento global vai lançar multidões de haitianos ao mar, e esse boat-people estará buscando as praias americanas.

Enfim, há muito que conversar. Temos, de certa forma, tarefas cumpridas ou em cumprimento. E o governo Bush está nos desapontando.

Vamos ver como a conversa real vai se desenvolver.

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