Uma loira

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Dizem que o século XX acabou com a queda do Muro de Berlim. De um ponto de vista intelectual, o século XX está morrendo também com Claude Lévi Strauss. Dificilmente os jornais do século que virá darão tanto destaque a morte de um pensador. Talvez jornais e pensadores não serão abundantes no futuro.

Ele morreu num momento em que alunos da Uniban se revoltaram por causa de uma jovem loira de minissaia e quase botaram o prédio abaixo.

No passado, talvez os antropólogos se interessassem por esse curso de turismo e pelo resto da faculdade. Psicanalistas como Erich Fromm e Wilhelm Reich e a Escola de Frankfurt talvez pudessem achar algum estímulo nessa manifestação raivosa.

Um dos alunos em fúria afirmou que não queria ter essa mancha no seu diploma. Foi uma das frases mais interessantes. Que tipo de mancha estava se referindo? Ao ver seu diploma do curso de turismo da Uniban todos diriam: esta faculdade é aquela em que havia uma loira de pernas de fora.

No passado, adolescentes manchavam as calças. Supor que, ao longo dos anos, todos continuarão pensando nas pernas da moça, que a simples menção do nome Uniban trará a figura, talvez o próprio perfume da moça, é algo muito forte.

O medo que a imagem de uma loira com as pernas de fora os persigam ao longo de toda a carreira me faz lembrar aquela imagem de uma loira perseguindo os sonhos de um puritano no filme de Fellini. Ela tinha enormes seios e cantava: tome mais leite, o leite faz bem.

De uma certa forma, a psicanálise também perdeu terreno. Quem sabe a neurociência não tenha alguma fórmula para evitar o motim? Ou Ruy Barbosa com sua Oração aos Moços? Na Uniban, os tempos pedem colagens e não saias audaciosas. Eles entraram na história da sexualidade, num século que já não a estuda como antes.

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Lula, lingua e Severino

Estamos vivendo momentos estranhos no Brasil. Cada vez que Lula e Severino fazem um discurso gastam-se rios de tinta para criticá-los. De uma certa maneira, sempre dizem bobagens.

Às vezes, pergunto a mim mesmo se esse debate em torno das falas de Lula e Severino merecem mesmo tanta atenção. Cheguei até pedir um habeas lingus para eles. Falariam o que quisessem e nos importaríamos apenas com o que de fato fazem e tem influência na realidade.

Acontece que o discurso dos dois acaba influenciando a realidade. Severino outro dia queria proibir que homem beijasse homem na tevê. Homem matar homem, roubar homem, isso pode. Não pode beijar. Ele não percebe a dimensão da liberdade estética e fica querendo transformar o conteúdo novelesco numa mensagem católica.

No caso de Lula, parece que não tem a mínima idéia de como é chato trocar de conta em banco. Passei dias tentando fechar uma conta. Aliás nem cheguei a usá-la. O banco insistiu em abri-la e, depois de algum tempo, percebi que mesmo sem usá-la já estava devendo dinheiro.

Sua decisão de investir injustamente contra a classe média parece-me, eleitoralmente, suicida. Logo, devemos admitir que ele não calculou bem o alcance de suas palavras. Cercado de puxa-sacos temerosos de perderem seu carguinho, Lula jamais será criticado adequadamente. Mesmo os textos da imprensa devem chegar a ele depois de uma cuidadosa seleção.

Se Lula tomou conhecimento real da repercussão de suas palavras, deve estar deprimido. Nesses momentos, ele costuma dizer que o brasileiro tem de levantar a cabeça, que ninguém pode com o brasileiro e todo esse papo. No fundo, está querendo é recuperar a auto-estima porque ninguém fica tranqüilo depois de dizer besteiras universalmente criticadas.

Caso alguns defensores da fala de Lula pelo menos argumentassem. No fundo, o presidente pede uma reação a uma política de juros que decorre de sua própria política econômica. No fundo, ele pede que se combata o governo que ele mesmo dirige.

Daí minha intuição de que a esquerda no governo vai fazer tudo para voltar à oposição. Ela mesmo, inconscientemente, sabota suas possibilidades porque se vê constantemente na contingência de trair o próprio discurso. Por isso há tantas lágrimas no Brasil moderno. A Globo estimula um pouco esse chororô. Mas as lágrimas que vertem dos olhos petistas são as lagrimas produzidas pela condição de dizer uma coisa e fazer outra, de trair seu próprio discurso.

Muito curiosa essa conjuntura onde o governo dirige e faz oposição, às vezes inconsciente, a si mesmo. Realmente, uma análise de fundo marxista poderia explicar muita coisa. Mas, no momento não devemos dispensar Freud para entender o que se passa.

O adolescente rebelde que ocupou o lugar do pai chora a juventude e a honra perdidas. Lula disse aos dissidentes expulsos que os esperava de volta ao partido, de braços abertos. Quando tivessem juízo, é claro.

O que o processo vai revelando não é só a capacidade do PT de trair seus supostos ideais. Ele também revela sua incapacidade de governar e a incapacidade de Lula de articular um discurso para sua metamorfose.

Fizemos uma blindagem para obscurecer a evidência de que Lula é despreparado. Nosso argumento era o de que esta evidência era fruto do preconceito do interlocutor. A realidade está mostrando o despreparo de Lula. Não apenas para governar. Mas até para verbalizar sua delicada condição de transfuga, de porta-bandeira de um projeto que se revelou, historicamente, uma grande farsa, ele tem dificuldade.

Na ausência de grandes nomes na oposição, com o impacto inegável do apoio da Rede Globo, Lula e o PT parecem esses criminosos que escapam da polícia (no caso a derrota eleitoral), mas são vencidos pela dor na consciência que atos falhos, as lágrimas e as bobagens que dizem, vão revelando a dimensão de sua incompetência.

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