Estamos vivendo momentos estranhos no Brasil. Cada vez que Lula e Severino fazem um discurso gastam-se rios de tinta para criticá-los. De uma certa maneira, sempre dizem bobagens.
Às vezes, pergunto a mim mesmo se esse debate em torno das falas de Lula e Severino merecem mesmo tanta atenção. Cheguei até pedir um habeas lingus para eles. Falariam o que quisessem e nos importaríamos apenas com o que de fato fazem e tem influência na realidade.
Acontece que o discurso dos dois acaba influenciando a realidade. Severino outro dia queria proibir que homem beijasse homem na tevê. Homem matar homem, roubar homem, isso pode. Não pode beijar. Ele não percebe a dimensão da liberdade estética e fica querendo transformar o conteúdo novelesco numa mensagem católica.
No caso de Lula, parece que não tem a mínima idéia de como é chato trocar de conta em banco. Passei dias tentando fechar uma conta. Aliás nem cheguei a usá-la. O banco insistiu em abri-la e, depois de algum tempo, percebi que mesmo sem usá-la já estava devendo dinheiro.
Sua decisão de investir injustamente contra a classe média parece-me, eleitoralmente, suicida. Logo, devemos admitir que ele não calculou bem o alcance de suas palavras. Cercado de puxa-sacos temerosos de perderem seu carguinho, Lula jamais será criticado adequadamente. Mesmo os textos da imprensa devem chegar a ele depois de uma cuidadosa seleção.
Se Lula tomou conhecimento real da repercussão de suas palavras, deve estar deprimido. Nesses momentos, ele costuma dizer que o brasileiro tem de levantar a cabeça, que ninguém pode com o brasileiro e todo esse papo. No fundo, está querendo é recuperar a auto-estima porque ninguém fica tranqüilo depois de dizer besteiras universalmente criticadas.
Caso alguns defensores da fala de Lula pelo menos argumentassem. No fundo, o presidente pede uma reação a uma política de juros que decorre de sua própria política econômica. No fundo, ele pede que se combata o governo que ele mesmo dirige.
Daí minha intuição de que a esquerda no governo vai fazer tudo para voltar à oposição. Ela mesmo, inconscientemente, sabota suas possibilidades porque se vê constantemente na contingência de trair o próprio discurso. Por isso há tantas lágrimas no Brasil moderno. A Globo estimula um pouco esse chororô. Mas as lágrimas que vertem dos olhos petistas são as lagrimas produzidas pela condição de dizer uma coisa e fazer outra, de trair seu próprio discurso.
Muito curiosa essa conjuntura onde o governo dirige e faz oposição, às vezes inconsciente, a si mesmo. Realmente, uma análise de fundo marxista poderia explicar muita coisa. Mas, no momento não devemos dispensar Freud para entender o que se passa.
O adolescente rebelde que ocupou o lugar do pai chora a juventude e a honra perdidas. Lula disse aos dissidentes expulsos que os esperava de volta ao partido, de braços abertos. Quando tivessem juízo, é claro.
O que o processo vai revelando não é só a capacidade do PT de trair seus supostos ideais. Ele também revela sua incapacidade de governar e a incapacidade de Lula de articular um discurso para sua metamorfose.
Fizemos uma blindagem para obscurecer a evidência de que Lula é despreparado. Nosso argumento era o de que esta evidência era fruto do preconceito do interlocutor. A realidade está mostrando o despreparo de Lula. Não apenas para governar. Mas até para verbalizar sua delicada condição de transfuga, de porta-bandeira de um projeto que se revelou, historicamente, uma grande farsa, ele tem dificuldade.
Na ausência de grandes nomes na oposição, com o impacto inegável do apoio da Rede Globo, Lula e o PT parecem esses criminosos que escapam da polícia (no caso a derrota eleitoral), mas são vencidos pela dor na consciência que atos falhos, as lágrimas e as bobagens que dizem, vão revelando a dimensão de sua incompetência.
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