Boa Vista – Os dois Black Hawks do Exército levantam vôo às sete da manhã. Saimos, rapidamente, da área urbana. Voamos próximos um do outro e ao meu lado lado está o deputado Salomão Cruz, velho amigo, geólogo que conhece bem Roraima porque nasceu aqui. Salomão e eu discutimos muito na Câmara mas nossas divergências acabaram nos aproximando. Agora, no helicóptero do exército, não podemos discutir.
Tapamos os ouvidos por causa do barulho e, de vez em quando, ele escreve algo para me informar: aqui há cavalos selvagens, aqui há criação de gado.
A paisagem não me é estranha. Para mim parece savana, mas uma vez me referi às savanas de Rondônia e alguém me disse que não há savanas no Brasil. Pois essa vegetação, que percorri por terra numa viagem à Venezuela, é a cara de uma savana. E sobem aqui e ali os primeiros rolos de fumaça, lembrando-nos daquele grande incêndio de 98. Dessa vez, estamos mais preparados, mas não custa nada desejar boa sorte na seca que começa.
Uiramutã, uma cidade de 8 mil km2 e 5 mil habitantes, na fronteira com a Venezuela e Guiana, é nosso destino. A região se chama Raposa- Serra do Sol. Nome sedutor mas que envolve uma grande complicação. Tão grande que, às vezes, temo não poder explicá-la de modo satisfatório.
Duas etnias do lado brasileiro, duas do lado da Guiana. As que estão no Brasil querem a demarcação de suas terras, principalmente os Macuxis. O diabo é que, em 1910, lutando contra os ingleses, alguns brasileiros se instalaram ali. A cidade de Uiramutã , com 8 mil quilômetros de extensão, cinco mil habitantes acabou , bem ou mal, surgindo no lugar.
A discussão agora é esta: a demarcação das terras dos índios deve ser contínua ou descontinua? A pequena cidade vai desaparecer ou sobreviver quando os índios tomarem posse de toda a área?
Claro que isso é apenas uma variável dessa tremenda complicação. A outra é a seguinte: a maioria dos habitantes de Uiramitã também é de origem indígena, só que mais enstuasiamada com a integração, ansiosa por consumir todos os produtos que a sociedade branca oferece. Somos os macuxis do século 21 disse um dos tuxauas – queremos carros, queremos progresso.
Como a área está na fronteira com a Venezuela e Guiana e os dois países têm questões de fronteiras, o Exército decidiu construir um posto de fronteira em Uiramutã. Os índios, através de sua entidade Centro Indígena de Roraima, entraram na justiça e embargaram a obra.
O posto é importante para a segurança nacional. Se a Venezuela resolver atacar a Guiana ou vice-versa, terão de atravessar nosso território. Mas os indios não se importam tanto com essa variável. Temem que o Exército acabe sendo um polo de desenvolvimento na área e sepulte os sonhos de uma demarcacão continua.
Se o imbróglio fosse reduzido a isso, bastaria convencê-los de que o Exército quer apenas instalar seu posto, não interferindo no debate que se arrasta há anos sobre o modo de demarcar as terras.
Mas há outras variáveis. Os índios que se batem pelas terras contínuas são parentes dos que se batem pela demarcação em ilhas, em blocos separados. Tudo bem. Acontece que os índios que querem a demarcação contínua são católicos; os que moram em Uiramutã são evangélicos. Na verdade estão divididos por duas confissões cristãs. Pelo menos, formalmente, estão brigando por uma causa dos brancos.
É muita complicação para um dia só. Amanhã continuo. Foram cinco horas na selva, duas de avião e nesse momento, em Manaus, sinto-me como se tivesse ido ao exterior e voltado.
Hoje, dia de março, o comando militar da Amazônia me escolheu para fazer a saudação ao pelotão de fronteira em Sururucu. Foi emocionante para mim. Em primeiro lugar, nunca fiz discurso tão longe dos grandes centros. Já falei em poste, caixote, tamborete, fugindo da polícia, mas nunca na selva, para um soldados com mochilas pesadas e o rosto pintado de um azul metálico. Em segundo lugar porque 31 de março é uma data importante na nossa história contemporânea. Meu discurso enfatizou a reconcialiação de todos nós, diante de tarefas gigantescas como proteger a Amazônia de seus predadores é do interesse internacional.
Até amanhã. Depois dessa jornada, acho que mereço um bom jantar.
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