Aniversário do golpe

A nota do Exército comemorando o golpe de estado de 64 teve muita repercussão: menos de 24 horas depois, foi guindado ao Ministério da Defesa Waldir Pires, uma das vítimas do movimento de 64.

O grande erro do governo foi nâo ter lançado uma nota para fixar sua posição em favor da democracia, lembrando que ela não pode ser alcançada através da tortura e outros lances de violência.

Pode ser que no imaginário do movimento a democracia fosse um alvo estratégico, como é a invasão do Iraque. No entanto, a democracia não se conquista assim. Os meios não justificam os fins.

É muito difícil para o governo, nas circunstâncias em que vive, após o mensalão e a quebra de sigilo do caseiro, defender uma tese dessas. No entanto, era o que tinha de fazer pois a nota do Exército, uma instituição do governo, acabou dando a impressão de que esta era a opinião oficial.

Bastava uma simples nota para fixar a posição do governo, que deveria, num contexto democrático, prevalecer sobre a do Exército..

De qualquer maneira, o episódio sera encerrado logo. Não tem sentido abir de novo uma discussão sobre o tema, largamente julgado pela população brasileira, através da eleição de pessoas que foram contra a ditadura e da instalação de algumas delas, como Dilma Roussef, no coração do próprio governo.

Foi uma descordenação, um erro do governo, erro aliás pouco importante diante dos gigantescos equívocos que vem cometendo no dia a dia.

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Fronteiras do fututo II

Boa Vista – Os dois Black Hawks do Exército levantam vôo às sete da manhã. Saimos, rapidamente, da área urbana. Voamos próximos um do outro e ao meu lado lado está o deputado Salomão Cruz, velho amigo, geólogo que conhece bem Roraima porque nasceu aqui. Salomão e eu discutimos muito na Câmara mas nossas divergências acabaram nos aproximando. Agora, no helicóptero do exército, não podemos discutir.

Tapamos os ouvidos por causa do barulho e, de vez em quando, ele escreve algo para me informar: aqui há cavalos selvagens, aqui há criação de gado.

A paisagem não me é estranha. Para mim parece savana, mas uma vez me referi às savanas de Rondônia e alguém me disse que não há savanas no Brasil. Pois essa vegetação, que percorri por terra numa viagem à Venezuela, é a cara de uma savana. E sobem aqui e ali os primeiros rolos de fumaça, lembrando-nos daquele grande incêndio de 98. Dessa vez, estamos mais preparados, mas não custa nada desejar boa sorte na seca que começa.

Uiramutã, uma cidade de 8 mil km2 e 5 mil habitantes, na fronteira com a Venezuela e Guiana, é nosso destino. A região se chama Raposa- Serra do Sol. Nome sedutor mas que envolve uma grande complicação. Tão grande que, às vezes, temo não poder explicá-la de modo satisfatório.

Duas etnias do lado brasileiro, duas do lado da Guiana. As que estão no Brasil querem a demarcação de suas terras, principalmente os Macuxis. O diabo é que, em 1910, lutando contra os ingleses, alguns brasileiros se instalaram ali. A cidade de Uiramutã , com 8 mil quilômetros de extensão, cinco mil habitantes acabou , bem ou mal, surgindo no lugar.

A discussão agora é esta: a demarcação das terras dos índios deve ser contínua ou descontinua? A pequena cidade vai desaparecer ou sobreviver quando os índios tomarem posse de toda a área?

Claro que isso é apenas uma variável dessa tremenda complicação. A outra é a seguinte: a maioria dos habitantes de Uiramitã também é de origem indígena, só que mais enstuasiamada com a integração, ansiosa por consumir todos os produtos que a sociedade branca oferece. Somos os macuxis do século 21 disse um dos tuxauas – queremos carros, queremos progresso.

Como a área está na fronteira com a Venezuela e Guiana e os dois países têm questões de fronteiras, o Exército decidiu construir um posto de fronteira em Uiramutã. Os índios, através de sua entidade Centro Indígena de Roraima, entraram na justiça e embargaram a obra.

O posto é importante para a segurança nacional. Se a Venezuela resolver atacar a Guiana ou vice-versa, terão de atravessar nosso território. Mas os indios não se importam tanto com essa variável. Temem que o Exército acabe sendo um polo de desenvolvimento na área e sepulte os sonhos de uma demarcacão continua.

Se o imbróglio fosse reduzido a isso, bastaria convencê-los de que o Exército quer apenas instalar seu posto, não interferindo no debate que se arrasta há anos sobre o modo de demarcar as terras.

Mas há outras variáveis. Os índios que se batem pelas terras contínuas são parentes dos que se batem pela demarcação em ilhas, em blocos separados. Tudo bem. Acontece que os índios que querem a demarcação contínua são católicos; os que moram em Uiramutã são evangélicos. Na verdade estão divididos por duas confissões cristãs. Pelo menos, formalmente, estão brigando por uma causa dos brancos.

É muita complicação para um dia só. Amanhã continuo. Foram cinco horas na selva, duas de avião e nesse momento, em Manaus, sinto-me como se tivesse ido ao exterior e voltado.

Hoje, dia de março, o comando militar da Amazônia me escolheu para fazer a saudação ao pelotão de fronteira em Sururucu. Foi emocionante para mim. Em primeiro lugar, nunca fiz discurso tão longe dos grandes centros. Já falei em poste, caixote, tamborete, fugindo da polícia, mas nunca na selva, para um soldados com mochilas pesadas e o rosto pintado de um azul metálico. Em segundo lugar porque 31 de março é uma data importante na nossa história contemporânea. Meu discurso enfatizou a reconcialiação de todos nós, diante de tarefas gigantescas como proteger a Amazônia de seus predadores é do interesse internacional.

Até amanhã. Depois dessa jornada, acho que mereço um bom jantar.

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Fronteiras do futuro I

Viajamos cedo para Uiraquitã e Surucucu, na fronteira com a Venezuela. A última vez que estive em Boa Vista foi para dialogar com deputados venezuelanos e criar uma espécie de frente comum para tratar de problemas sérios. Os Yanomamis, por exemplo, vivem no nosso território e no deles.

Em Surucucu vamos discutir a relação dos soldados com as índias, uma vez que surgiram muitas denúncias de assédio sexual, embora essa categoria seja meio inaplicável aos casos descritos. Em Uiramutã problemas de outra ordem. O Exército prepara a construção de um posto na selva e alguns indios não querem. O caso foi para a justiça. As obras estão paradas. Trata-se de um problema na fronteira com a Venezuela que, por sua vez tem demandas com a Guiana. Se a Venezuela resolver atacar a Guiana, terá de passar pelo território brasileiro.

Essa discussão em torno do posto encobre uma outra: a da demarcação das terras indígenas em Raposa Serra do Sul. Isso é um velho impasse. Os indios querem que as terras sejam demarcadas de forma continuada. Os brancos querem que se façam ilhas. Não se consegue resolver da noite para o dia. Vamos ver se, pelo menos, conseguimos resolver a questão do posto. O Exército é muito cortejado aqui pelos deputados e fazendeiros que querem as terras dos índios. O Exército precisa de um tratamento especial para que possa manter sua equidistância e continue a tradição de Rondon.

Acho que amanhã, um pouco mais descansado, explico melhor tudo isso.

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Distâncias colossais

Manaus – Começo hoje, com um grupo de deputados e senadores, uma viagem de três dias e meio pela Amazônia. As distâncias aqui são colossais, algumas pistas de pouso, como a de Surucucus (Roraima) são precárias. 

Acabo de ver uma palestra do comandante militar da Amazônia, general Alcedir Pereira Lopes. Durou quatro horas e isso é pouco. O general controla uma área de 4 milhões de quilômetros quadrados, na qual cabe toda a Europa, menos a Rússia. São muitos problemas. Os postos avançados do Exército estão em três fusos horários diferentes, com a linha do equador dividindo-a em áreas que entram no inverno e no verão simultâneamente, na temporada de chuvas e de seca, também ao mesmo tempo.

Destaco apenas alguns pontos da palestra do general Alcedir. A crise na fronteira com a Colômbia, por exemplo. Ali há possibilidade de conflito e um intenso tráfico de droga. Espera-se entre os militares brasileiros uma nova fase do plano Colômbia, desenvolvido pelos Estados Unidos, com quase um bilhão e meio de dólares. Em julho, devem começar os choques armados, com uma possível ofensiva de norte-americanos e colombianos contra as Farc.

A região dominada pelas Farc no mapa parece imensa. O conflito acabará envolvendo não só o Brasil como a Venezuela , Peru e Equador. A área da fronteira brasileira não é de produção de coca mas quando o conflito estourar, existe uma possibilidade de êxodo em massa para o território brasileiro.

O Brasil já contatou a Cruz Vermelha para assumir e redirecionar os refugiados, caso cruzem a fronteira. Isso não saiu em nenhum jornal. O plano Colômbia desapareceu da mídia e a impressão que se tem é de que não há nada de novo no front. Quando a coisa estourar, a opinião pública vai pensar que o plano Colômbia renasceu, quando na verdade ele se desenvolve na sombra.

Vou discutir com o general alguns pontos de seu discurso. Um deles é sobre as Farc. Ele acha que as Farc começaram a trocar armas por drogas mas, aos poucos, foram desalojando os traficantes e assumindo o controle de tudo.

Vou expressar minha posição para ele: o papel do Brasil deve ser o de fortalecer negociações de paz, sem tomar claramente partido por um dos lados.

Costumo receber o representante das Farc em meu gabinete. São relações oficiais. Não tenho dados para contestar seu domínio sobre o tráfico de drogas. Acredito até que a tese do general seja verdadeira.

No entanto, é preciso lembrar que as Farc são pela legalizão das drogas. Elas têm, de uma certa forma, um fundamento político para isto.

É preciso considerá-las com realismo político, uma vez que princípios morais rígidos nem sempre são bons conselheiros da política externa adequada numa área tão complexa. Se eles controlam uma parte do país e se dispõem a participar de negociações de paz, é razoável supor que nos próximos anos terão uma parcela do poder oficial na Colômbia.

Vou sair para um jantar e tentar conversar essas coisas. Essa viagem é assunto para muitos dias.

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