O que há com o Chávez?

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O fechamento da RCTV é apenas um dos problemas de Chávez. Há a questão econômica, dramatizada pela política de câmbio, o desabastecimento e encampação de supermercados, a falta de energia e água (estes temas bastante populares), a crise com a Colômbia e outros problemas.

Mas examinando a demissão do vice-presidente Ramon Carrizalez entendemos que há  um outro transtorno muito sério por lá. É a cegueira antiamericana. O vice entrou em crise com o Ministério da Defesa porque este denunciou a invasão do espaço aéreo venezuelano por um avião dos EUA. Descobriu-se, em seguida, que a foto do avião fora retirada da internet. A invasão do espaço aéreo foi produzida nos computadores.

Não é  novidade esta cegueira. Chávez declarou que o terremoto no Haiti foi provocado por uma nova arma americana construída para produzir, artificialmente, desastres naturais. Os americanos teriam testado esta arma no Haiti, para usá-la depois em território iraniano.

Aparentemente, a crise não deveria levar a estas invenções, pois há muito o que fazer para aplacar a irritação popular. Mas aí, entra o velho fator de criação da ameaça externa para manter a coesão interna em tempo de crise. Bode expiatório histórico, os Estados Unidos, desta vez, mantêm uma posição distante porém atenta aos movimentos de Chávez. Tudo o que ele deseja, no momento, é um gesto de hostilidade norte-americano. Na falta dele, recorre às montagens fotográficas e à fantasia científica.

Ainda há quem admire a considere a experiência chavista uma boa alternativa para o Brasil. É a famosa vanguarda do atraso.

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As ondas do desespero

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Milhares de pessoas aglomeradas no cais revelam o que sempre foi o grande temor dos EUA no Haiti: a fuga em massa. Desde o princípio, menciono aqui esta possibilidade e afirmo que a resposta rápida dos americanos ao terremoto, além de um ato solidário, expressava o medo de ter reprimir pessoas se lançando ao mar, em embarcações precárias.

Aliás, uma das medidas discutidas por Hillary Clinton com o presidente do Haiti, René Preval, foi a decretação de toque de recolher e maior poder para decisões típicas de período de emergência e guerra. No mesmo sábado em que Hillary passou por Porto Príncipe, os EUA disseram que compreendiam o esforço da República Dominicana e iam compensá-la por isto.

Os refugiados haitianos, dentro da Ilha Espanhola, podem fugir para a República Dominicana; no mar seu destino é os Estados Unidos. As fronteiras estão fechadas, mas é difícil conter tanta gente. Já há na República Dominicana um sentimento de hostilidade aos haitianos, uma vez que a busca de refúgio por razões econômicas tem sido constante.

Nas ruas de Porto Príncipe há quem reclame da presença americana. Para que tantas armas se precisamos de água e comida? Mas há um grande perigo de violência e as entidades que distribuem comida estão sendo, constantemente, ameaçadas.

Antes mesmo do terremoto, antes da eleições, já havia um acordo Haiti-EUA que dava aos americanos o controle da costa haitiana. Para eles é uma questão estratégica evitar o êxodo em massa. Os EUA já ocuparam o Haiti, já derrubaram e recolocaram presidentes, são parcialmente responsáveis pela falência do estado.

Por essas razões estratégicas e históricas, o Brasil deve se concentrar em fazer o bem e melhorar a qualidade de nossa ajuda, ao invés de, pura e simplesmente, mandar mais soldados a cada nova crise.

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O papel dos EUA e do Brasil no Haiti

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Numa declaração em Curitiba, Gilberto Carvalho, secretário de Lula, afirmou que o Brasil vai adotar o Haiti. O Ministro Nelson Jobim, por seu lado, anunciou que nosso país ficará mais cinco anos por lá. Jobim não mencionou que isto ainda vai ser submetido ao Congresso e que o novo papel do Brasil precisa ser discutido mais amplamente do que aquela decisão de mandar tropas, após a queda de Aristide. Naquele momento, não havia nenhum interesse pelo debate e gastei meus argumentos que, independente de sua qualidade, não foram ouvidos.

Acontece que os Estados Unidos decidiram também adotar o Haiti. Quando fomos chamados para dirigir a força de paz, os americanos, sob Bush, queriam se afastar ao máximo de um país em ruínas, e, além de tudo, invisível.

Obama num primeiro momento falou sobre o papel de liderança dos Estados Unidos. Em Porto Príncipe, na manhã de sábado, Hilary Clinton voltou ao tema, dizendo que certas coisas só podem ser feitas pelos Estados Unidos. Naturalmente, referia-se ao poderio econômico e militar e também a proximidade entre os dois países. Agora, que Cuba liberou seu espaço aéreo, no fim do último vestígio da Guerra Fria, um tempo de 90 minutos foi economizado no percurso entre os dois países.

Os Estados Unidos devem tomar a iniciativa não só por essas razões. São os únicos, ao lado da Repoública Dominicana, a se inquietarem como uma inevitável tentativa de fuga em massa do Haiti. Colocaram mais dinheiro, despacharam porta aviões e um navio hospital, Confort. Só em matéria de soldados, os seus 10 mil homens superam o contingente de 7 mil homens da Minustah.

Isto não significa que os bravos soldados brasileiros serão esquecidos. Pelo contrário. São amados pelo povo que, inclusive nomeia as crianças com nome dos soldados, conhecem bem Porto Príncipe, falam um pouco do idioma e pacificiaram as duas maiores favelas: Bel Air, que é no fundo um bairro que se deteriorou, e Cite Soleil.

Os americanos controlam o aeroporto. Há reclamações sobre sua atuação. O Brasil merece prioridade pois está no solo, gerindo uma crise dramática. Mas agora, no fim da tarde, o presidente Rene Preval assinou um acordo com os EUA, atribuindo os poderes de coordenação. O quadro vai fechando e muito possivelmente, de forma articulada, os EUA vão fazer a segurança geral do país , deixando para a ONU a tarefa de a função coordenar a ajuda na cidade.

Isto é  o quadro que me parece desenhado, neste momento. Os EUA prometem uma ajuda de longo alcance. O Brasil anuncia que ficará mais 5 anos.

Não seria interessante esperar um pouco a definição geral do papel americano, para definirmos o nosso, ali por fevereiro?  O governo no Brasil não fala com ninguém. Obama convocou Bush e Clinton para mostrar um esforço nacional e não partidário. Estamos precisando de uma visão mais generosa do governo, para podermos colaborar.

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Pesadelo logístico

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O porto foi danificado. O aeroporto, agora controlado pelos norte-americanos, não dá vazão aos pedidos de pouso e os primeiros alimentos chegados não têm quem os descarregue. A polícia nacional do Haiti praticamente desapareceu de cena. Muito possívelmente, o controle do país tem de ser passado às forças de paz – isto é à responsabilidade do Brasil.

Nosso país, entretanto, não tem condições de realizar a tarefa com seus 1300 homens. No momento, este efetivo está dedicado ao socorro e patrulhamento para evitar ondas de saques. Em pouco tempo, a presença norte-americana será dominante. Obama pretende mandar seis mil homens para garantir a segurança e dois porta-aviões, dotados de helicópteros, estão sendo deslocados para a costa haitiana.

Mas o fato de os norte-americanos entrarem em cena, inclusive com ajuda de US$ 100 milhões, não significa que o pesadelo logístico foi superado. As primeiras equipes de salvamento já chegaram, mas não têm equipamentos pesados para retirar o entulho. Isto faz uma enorme diferença. Em Angra dos Reis, quando uma escavadeira entrou em cena, foi possível trabalhar com rapidez e retirar os corpos. Antes de sua chegada, o trabalho patinava com esforço de mãos nuas e equipamentos leves como a pá.

Uma das primeiras lições que tirei do nosso trabalho é a de que não estávamos contando com um colapso nas comunicações. Indivíduos, que usavam uma das empresas telefônicas, conseguiram através do twitter manter contato com o mundo, assim alguns depoimentos pelo skype foram possíveis. Em termos de comunicação era preciso ter a leveza dos indivíduos usando as técnicas mais modernas.

Com isto seria possível alimentar a sala de situação no Brasil, com noticias sobre nossos soldados e funcionários. Na primeira hora depois do terremoto, propus que o Brasil coordenasse os socorros, em sintonia com os Estados Unidos. Mas Obama afirmou agora que isto é uma tarefa para a liderança norte-americana. Ainda assim, o papel da ONU é fundamental e as tropas de paz, que já estão no país, conhecem Porto Príncipe e até falam um pouco o idioma, vão ser decisivas nos primeiros passos para a reconstrução.

Sempre defendi que os EUA tivessem um papel maior que o Brasil. De uma certa forma, estávamos evitando, ao manter o Haiti em paz, grandes ondas de imigrantes clandestinos se lançando no mar.

Sarkozy afirmou que é preciso uma conferência internacional, convocada pelos EUA, França, Brasil e Canadá. Todos têm um vínculo como Haiti. A França colonizou, os EUA invadiram e não resolvem o problema, e o Canadá atraiu a inteligência haitiana que abandonou o país. Acontece que uma conferência agora não diz nada. O problema é logístico, de organização no terreno, tem uma urgência que demanda respostas rápidas. Depois de Copenhague, deveríamos economizar conferências.

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A embriaguês de Copenhague

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No mesmo dia, o governo brasileiro se pronunciou de forma diferente sobre a Conferência de Copenhague. Lula afirmou que a culpa dos fracassos cabe aos europeus; Carlos Minc a atribuiu ao presidente Obama, pedindo que devolva o Prêmio Nobel.

São tiros em direções opostas, mas mesma prática de atirar. Na mesma entrevista, Carlos Minc diz que o Brasil saiu do armário, que assumirá um protaganismo plenetário na questão ambiental. A expressão saiu do armário, sabemos, costuma designar o homossexual que assume sua orientação. É uma escolha pessoal, sem dúvida influenciada por fatores sociais. Mas as opções de uma política externa passam por um choque de idéias, por lutas que acabam levando a transformações, às vezes não desejadas pelos governantes.

Na imagem de Minc, ao sair do armário, o homossexual se define como sempre foi, só  que sua orientação foi escondida. O Brasil não foi sempre uma vanguarda ambiental e só agora assumiu uma condição disssimulada. Pelo contrário, o Brasil foi acossado antes de 2002 por causa da destruição das florestas tropicais. Durante muito tempo, recusou-se a aceitar metas de redução de emissões. Foi a partir da pressão social, da tomada de posição de empresários, que as coisas mudaram a ponto de sairmos com metas com a precisão de centésimos, algo que ainda revela nossa insegurança sobre a credulidade do gesto.

O Brasil foi levado a mudar e não assumiu uma condição escondida sob o temor da censura. Mas isso é apenas uma forma de se representar, sempre  com os olhos no processo eleitoral. Tanto Lula como Minc trabalham com a contradição como motor da história. E nesse caso específico de ameaça planetária, não é a contradição e sim a cooperação que nos fazem avançar.

Se o Brasil quer mesmo reparar a fragilidade do encontro na Dinamarca, deve apostar num bom diálogo tanto com a União Européia como com os Estados Unidos. Não creio que criticando os dois num mesmo dia, em avaliações desencontradas de responsabilidade pelo fracasso, estejamos escolhendo o melhor caminho para acordos futuros.

Não precisamos nos comportar como um país imaturo, se queremos mesmo viver um novo papel nessa história. Minc, no Globo, aparece deslumbrado por participar com uma reunião com Barack Obama; no Estadão pede que o presidente americano devolva o Prêmio Nobel. Essas sensações conflitantes expressam mais uma competição adolescente do que a confiabilidade de um parceiro em negociações vitais para o planeta.

A embriaguês de Copenhague

No mesmo dia, o governo brasileiro se pronunciou de forma diferente sobre a Conferência de Copenhague. Lula afirmou que a culpa dos fracassos cabe aos europeus; Carlos Minc a atribuiu ao presidente Obama, pedindo que devolva o Prêmio Nobel.

São tiros em direções opostos, mas mesma prática de atirar. Na mesma entrevista, Carlos Minc diz que o Brasil saiu do armário, que assumirá um protaganismo plenetário na questão ambiental. A expressão saiu do armário, sabemos, costuma designar o homossexual que assume sua orientação. É uma escolha pessoal, sem dúvida influenciada por fatores sociais. Mas as opções de uma política externa passam por um choque de idéias, por lutas que acabam levando a transformações, às vezes não desejadas pelos governantes.

Na imagem de Minc, ao sair do armário, o homossexual se define como sempre foi, só  que sua orientação foi escondida. O Brasil não foi sempre uma vanguarda ambiental e só agora assumiu uma condição disssimulada. Pelo contrário, o Brasil foi acossado antes de 2002 por causa da destruição das florestas tropicais. Durante muito tempo, recusou-se a aceitar metas de redução de emissões. Foi a partir da pressão social, da tomada de posição de empresários, que as coisas mudaram a ponto de sairmos com metas com a precisão de centésimos, algo que ainda revela nossa insegurança sobre a credulidade do gesto.

O Brasil foi levado a mudar e não assumiu uma condição escondida sob o temor da censura. Mas isso é apenas uma forma de se representar, sempre  com os olhos no processo eleitoral. Tanto Lula como Minc trabalham com a contradição como motor da história. E nesse caso específico de ameaça planetária, não é a contradição e sim a cooperação que nos fazem avançar.

Se o Brasil quer mesmo reparar a fragilidade do encontro na Dinamarca, deve apostar num bom diálogo tanto com a União Européia como com os Estados Unidos. Não creio que criticando os dois num mesmo dia, em avaliações desencontradas de responsabilidade pelo fracasso, estamos escolhendo o melhor caminho para acordos futuros.

Não precisamos nos comportar como um país imaturo, se queremos mesmo viver um novo papel nessa história. Minc, no Globo, aparece deslumbrado por participar com uma reunião com Barack Obama; no Estadão pede que o presidente americano devolva o Prêmio Nobel. Essas sensações conflitantes expressam mais uma competição adolescente do que a confiabilidade de um parceiro em negociações vitais para o planeta.

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Com que face em Copenhague

clima e fim de ano

O Brasil apresentou suas metas de redução de emissões. Foi ótimo que assim o fizesse.

Afirmou que as metas não eram voluntárias. Isto enfraquece a proposta. Falta um ano para as eleições presidenciais. Como é um governo pode assumir um compromisso até 2020, se outros governos virão? A saída é transformar a proposta em lei. O próprio governo admitiu isto.

Ao mesmo tempo em que faz sua proposta, o governo aposta na contradição norte-sul e faz carga contra o suspeito de sempre, nesse tipo de debate, os EUA. Uma das teses que levei comigo nestes debates na França é de que, dada a natureza do problema ambiental, não seria a contradição e sim a cooperação o dínamo dessa nova história.

O governo se recusa a participar de um fundo ambiental. Argumenta que somos pobres. No entanto, o Brasil, diante do Haiti e Somália, por exemplo, é um país desenvolvido. Além do mais, mesmo se contribuirmos, acabaremos ganhando mais recursos porque a Amazônia de pé, interessa a todos. Já recebemos dinheiro da Noruega e este programa foi, inclusive, elogiado por Barack Obama.

Ao mesmo tempo em que faz uma proposta mais audaciosa em Copenhague, o governo brasileiro toma uma série de medidas contraditórias. Uma delas (ver artigo da Marina na Folha de São Paulo de hoje: http://tinyurl.com/ya4q4kh) foi a suspensão de multas para desmatadores. Outra muito grave foi uma redução do prazo para isentar impostos na energia eólica. O governo faz isso na véspera de um leilão que atraiu mais de 10 mil MW em projetos.

Outros indícios são muito sérios. O BNDES financiando usinas elétrica a carvão, a decisão de usar aço em casas populares, sem que o programa tenha examinado as alternativas mais sustentáveis. Enfim, tudo indica que a proposta do governo foi muito pouco pensada para o meio ambiente. Foi apenas uma plataforma para exercitar na Dinamarca o seu esporte predileto: o exercício da contradição, a critica aos EUA.

São reflexos que se entendem mais pelo passado. A natureza da questãoa ambiental, a ameaça à nossa sobrevivência no planeta, permitem que , pela primeira vez, a humanidade viva sua história como uma aventura comum. Isto não significa ignorar as diferenças, mas tratá-las como algo subordinado ao objetivo maior: um nível de articulação mundial e ações apropriadas em cada país.

Copenhague coloca um problema do século XXI e o governo está tentando respondê-lo com uma ótica do século XX. Vamos ver como todo esse drama se desdobra ao longo da semana. Como sempre, na reação ao aquecimento global, o tempo corre contra.

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