O ovo da serpente

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A violência no Rio é muito debatida, quando há grandes fatos, crimes revoltantes. No entanto, muitas coisas acontecem numa quase surdina e elas são o indício de que os tempos podem ser piores.

Há alguns meses, o site do jornal O Dia divulgou um vídeo da comemoração do aniversário de um traficante no Complexo do Alemão. Havia uma tal concentração de armas nas mãos dos participantes da festa que pareciam preparados para dominar uma boa parte da cidade. Fuzis pendurados no peito, o aniversário parecia um momento de descanso de um exército tropical e descamisado.

Aquilo passou. Afinal é preciso tocar as obras do PAC. Agora, no auge da crise do helicóptero abatido, surgiu uma outra despretensiosa noticia no jornal da rádio Bandeirantes: um candidato potencial a deputado foi assassinado em Rio das Pedras, região dominada pelas milícias. O corpo foi encontrado na Cidade de Deus, com perfurações de bala e sinais de tortura.

Às vezes, quando se dá  a crise a sensação que temos é de que tudo vai mudar. O governo anuncia medidas, Brasília envia mais dinheiro e todos tentam dormir tranqüilos.

O processo não para. Enquanto se discute se a pré campanha presidencial está  nos limites da lei, uma outra pré-campanha está em curso. Ela começa com a eliminação física de adversários. Tanto no Complexo do Alemão como em Rio das Pedras, os vínculos entre política e crime passam ao largo e, quando surgem acontecimentos espetaculares, parecem um relâmpago em céu azul.

Todos esses fuzis e metralhadoras estarão diante de nós na campanha de 2010. Não é difícil saber a quem servem. O foco atual é o comércio de drogas. Mas durante o período não eleitoral, esquecemos do comércio de votos, ao qual as armas servem com grande eficácia. Servem a quem?

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Bola dividida

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Alguma coisa se mexe na política de drogas da América Latina. O México descriminalizou o porte de drogas para consumo pessoal. E o México é a grande preocupação dos EUA, no momento. Os cartéis deixaram de exportar apenas droga, para exportar também o crime organizado.

Logo em seguida, a Argentina descriminalizou o uso de maconha. A Suprema Corte exortou o governo a combater o tráfico de drogas e, simultaneamente, fazer campanhas que enfraqueçam o consumo.

Os observadores americanos já tinham detectado alguma coisa. Três ex-presidentes,Fernando Henrique, Cesar Gavíria, Ernesto Zedillo, expressaram uma posição por mudanças na política de drogas. A posição deles é ampla, mas o que ficou foi a defesa da descriminalização da maconha.

Imagino a dificuldade de processar a última visita de Lula à Bolívia. Dois presidentes usando colar de folha de coca. Não creio que Lula tenha avaliado toda esse contexto, ou que, na verdade, dê alguma importância a esse contexto.
Por influência de Chávez, discutem-se muito as bases americanas na Colômbia. Não se trata apenas de deter as FARC, mas o tráfico que as mantêm vivas.

Uma conferência interamericana sobre política de drogas seria mais produtiva do que todo esse carnaval sobre tropa americana. Mas o passado na América Latina é desses que sobrevivem sentados na cadeira do presente. O debate sobre drogas sempre se baseou na idéia de legalizar ou não. Nesse nível de abstração, as pessoas sentem-se como se fossem donas da verdade.

Se o eixo se deslocasse, os defensores das duas teses teriam que se desdobrar para explicar como realizá-las . A repressão é um fracasso. Os defensores da legalização apenas a defendem. Há um longo caminho . Obama tem energia para mais uma bola dividida?

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Construindo pontes

O relator da ONU que visita o Brasil, Phillip Alston, esteve hoje na Câmara e todos os deputados presentes ao encontro tiveram a oportunidade de expor a ele suas posições.

A minha posição deve ser divulgada na midia, mas por via das dúvidas, eis os principais pontos:

a) O relatório da ONU sobre violiência no Brasil deve ser exato. Os erros cometidos num recente relatório sobre São Paulo acabara enfraquecendo o instrumento intenacional;

b) Os direitos humanos no Brasil sempre foram (e isso é uma confissão de militante) voltados para proteger o indivíduo contra a violência do Estado. No entanto, nos últimos anos, grupos de criminosos organizados realizam inúmeras barbaridades e suas vítimas não são protegidas. Por que?

c) Os policiais brasileiros são atingidos em combate e não despertam solidariedade dos movimentos de direitos humanos e da sociedade em geral. O que significa isto? O trabalho dos policiais tem ou não tem importância? Quando um soldado é sequestrado em Israel todo o país se mobiliza. A idéia é passar a certeza de que o país valoriza quem trabalha pela sua segurança e não o deixa abandonado.

d) O Brasil trava debates radicais mas, às vezes, não vai a lugar nenhum. Há gente pelo aborto e contra o aborto. Mas não se unem para ampliar a informação. Outro dia uma jovem paraense teve um filho no avião. Não sabia que estava grávida e gritou: tem uma coisa saindo de mim. Discute-se contra e a favor da legalização das drogas mas não se chega a um acordo sobre a reforma da polícia. Mais eficacia e honestidade interessam às duas partes. Os direitos humanos também se tornaram um beco sem saída. Ao invés de oposições radicais, que têm seu lugar e devem ser debatidas, precisamos contruir pontes. Pelo menos, é esta a sensação que tenho depois de tantas batalhas.

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Anos 70, nada como uma década depois da outra

Os anos 70 são sentidos apenas como ontem e todos esses anos de festas de fondue, vinho rosado, poder da pirâmide e homens de barba e sandália ainda não parecem história. O passado não se torna, instantaneamente um período: precisa ser lamentado, festejado, chorado, risível, injuriado e perdoado. Se as décadas são alimentos e a cultura é um panfleto digestivo, então os anos 70 estão ainda passando pelo estômago rumo ao longo e sinuoso intestino da memória.

Esse é um trecho da novela Honeymooners, de Chuck Kinder, recém lançado nos Estados Unidos. Lembra-me um desertor americano da guerra do Vietnã, que andava de um lado para outro no inverno sueco, dizendo: isto aqui está muito calmo, muito calmo.

Para ele, pelo menos, havia algo definido sobre os anos 70. Vieram depois dos 60. Essa vizinhança de décadas já era um caminho precário para defini-las.

No entanto, a turbulência dos anos 70 nos atingiu em cheio.

No Brasil, a década começou com o aniquilamento da esquerda e terminou com a anistia geral. Com o golpe de estado no Chile em 73, material que arrasta até hoje através do destino de Augusto Pinhochet, o cone sul se fechava para a democracia. Brasil, Argentina e Uruguai eram ditaduras.

Quem viveu a década na Europa, assistiu, por outro lado, uma superação das ditaduras: Grécia, Espanha e Portugal, anunciando talvez o caminho que a própria Améria do Sul iria encontrar.

Essa proximidade com os anos 60, essa delicada fronteira entre as décadas pode ser vista no movimento hippie.

Floresceu nos anos 60 nos Estados Unidos e encontrou sua plenitude no Brasil um pouco depois, com a saída para lugares deslumbrantes onde se tentaria, ufa, viver em paz e amor.

O intercâmbio entre as décadas é nítido no movimento feminista, na consciência ecológica, nas aspiracões das minorias sexuais que embora levantadas nos anos 60 atravessam a década e se instalam nos 70 como se estivessem em casa.

Novas formas de rebeldia, distantes de partidos políticos e parlamentos, ganhavam a juventude através da música. Bob Marley foi um dos grandes ídolos dos verões europeus dando corpo a uma autoestima dos imigrantes negros e preparando-os para levantar e defender seus direitos. Movimentos antiracismo como o Touche pas mon Pot (não toque no meu chapa) chegaram às fronteiras da esquerda branca e européia.

O eipsódio dos anos 70 que ainda apresenta uma dramática realidade e ainda está sendo digerido no estômago cultural foi o choque do petróleo, que quintuplicou o preço do produto. Descobriu-se ali que a energia era escassa e que o padrão de vida estava em jogo no Ocidente. E não era universalizável.

Se os chineses tivessem o mesmo nível dos norte-americanos era preciso um pouco mais que o dobro da produção atual.

Nem se falava ainda no esquentamento do planeta.

O tema conservação e eficácia energética entrou na agenda das grandes empresas. A própria IBM fez um programa que rendeu uma economia de US$ 90 milhões em três anos. O racionamento teve um peso tão grande na revisão de alguns hábitos que, ao ser suspenso, revelou uma Los Angeles mais comedida: menos 8,8 por cento no consumo.

O fato de o Brasil e a Califórnia estarem às voltas com a falta de energia e a própria decisão de George Bush de abandonar o Protocolo de Quioto significam que a década dos 70 não foi totalmente digerida. Novas centrais nucleares, exploração de petróleo são dados da nova política norte-americana mostrando que, na verdade, o que se quer, ao invés de interrogar o passado, é fugir para a frente.

No Brasil as centrais nucleares começaram a ser contestadas mais amplamente em 79, coincidindo com a abertura democrática. De lá para cá os alemães já desistiram do nuclear e se jogaram, desde 91, aqui e ainda querem terminar a última usina que nos venderam.

A voz de Bob Marley e a crise energética são apenas dois elementos que não podem ser alinhados com homens de barba e sandália e as festas de fondue. Atravessaram os anos 70, ressurgem transformados no século XXI. Assim como a crise é grande demais para caber numa década, os crimes de Pinochet são maiores do que um punhado de meses e anos. Assim como talvez John Travolta fosse talentoso demais para parar em Saturday Night Fever.

O que pertence a uma década e o que escorre entre as grades da demarcacão cronólogica no Brasil? O que foi feito de Arambepe, que rumo tomou a questão das drogas no Brasil contemporâneo, que promessas a democracia trouxe no final dos 70, que frustracões pode ter provocado?.

Nesse sentido, Chuck Kinder tem razão: ainda há muito o que digerir dos anos 70 nos longos e convulsos intestinos de nossa memória.

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Quando as leis matam

Um avião Cessna foi bombardeado na Amazônia peruana.

O bombardeio resultou na morte da missionária norte-americana Roni Bowers e sua filha Charity, de sete meses de idade.

Dito assim parece um simples acidente, desses que acontecem na região, coalhada de pequenos aviões levando gente e equipamentos. No entanto, por incrível que pareça, a morte da missionário e seu bebê é morte anunciada e seus responsáveis finais são os próprios governantes norte-americanos. Daí, a prudência de Bush, dizendo que vai examinar todos os detalhes, antes de tomar posição.

A raiz dessa morte anunciada é a pressão norte-americana para que todos os paises amazônicos derrubem aviões que não atendam ao comando de aterrisar. Isto porque podem estar levando drogas. Para salvar os narizes norte-americanos, aceitamos condenar a morte quem não ouviu os apelos de baixar.

Poucos sabem, mas essa lei, que permite abater aviões que não atendam às ordens de aterrisar, foi aprovada no Congresso brasileiro. Contra meu voto. Na época, além de me bater contra o governo , tive de me bater também contra o PT. Por incrível que pareça, o Partido dos Trabalhadores foi o defensor mais agressivo dessa política ditada pelos norte-americanos. Não porque quisessem agradar aos norte-americanos mas para mostrar que estão em sintonia com os desejos de nossos militares.

A aprovação dessa lei foi uma barbaridade. Ela introduz a pena de morte e o faz de maneira espúria, pois teria de transformar a Constituição. Além disso, é uma pena de morte sem julgamento. É uma pena de morte que atinge não só o piloto como a toda tripulação.

O que aconteceu no Peru confirmou nossas piores previsões. O piloto levou um tiro na perna, mas dois passageiros morreram, a mãe e o bebê.

Aprovada pelo Congresso, a lei ainda não foi regulamentada pelo Presidente da República. Ele foi advertido da barbaridade que estaria assinando, pelo então Secretário nacional antidrogas, Walter Maierovitch.

FHC recuou apenas momentâneamente. Se for pressionado pelos americanos, vai ceder. Eles têm ,como moeda de troca, as informações que seus radares colhem sobre o espaço aéreo amazônico. Com o Sivam, entrando em, cena, o Brasil poderia passar sem essa ajuda americana.

É um problema gravíssimo que ficou meio esquecido pela mídia. Infelizmente, o que prevíamos em nossos discursos na Câmara acabou acontecendo: a morte de inocentes.

Aos americanos, interessa um clima de guerra na Amazônia. Mantêm a luta contra as drogas fora de suas fronteiras e, se houver uma chance, aproveitam o caos para ficar mais ainda o pé na região.

Gostaria de começar a semana discutindo isto. Pedindo ao presidente que vete a lei, para que possamos rediscutí-la no Parlamento. Mas a lama em que o Senado se envolve, as denúncias de corrupção, tudo isso tornará difícil qualquer iniciativa de mais longo alcance.

Por incrível que pareça, estamos nos desintegrando exatamente no momento em que é feita a maior pressão sobre o Brasil, no sentido de integrar à Alca. É uma decisão que marcará gerações. Ainda bem que é possível contar com um Congresso interessado em debates, a partir de 2002. Este de agora sairá da corrupção e entrará direto na campanha eleitoral. Poucas esperanças, portanto.

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Distâncias colossais

Manaus – Começo hoje, com um grupo de deputados e senadores, uma viagem de três dias e meio pela Amazônia. As distâncias aqui são colossais, algumas pistas de pouso, como a de Surucucus (Roraima) são precárias. 

Acabo de ver uma palestra do comandante militar da Amazônia, general Alcedir Pereira Lopes. Durou quatro horas e isso é pouco. O general controla uma área de 4 milhões de quilômetros quadrados, na qual cabe toda a Europa, menos a Rússia. São muitos problemas. Os postos avançados do Exército estão em três fusos horários diferentes, com a linha do equador dividindo-a em áreas que entram no inverno e no verão simultâneamente, na temporada de chuvas e de seca, também ao mesmo tempo.

Destaco apenas alguns pontos da palestra do general Alcedir. A crise na fronteira com a Colômbia, por exemplo. Ali há possibilidade de conflito e um intenso tráfico de droga. Espera-se entre os militares brasileiros uma nova fase do plano Colômbia, desenvolvido pelos Estados Unidos, com quase um bilhão e meio de dólares. Em julho, devem começar os choques armados, com uma possível ofensiva de norte-americanos e colombianos contra as Farc.

A região dominada pelas Farc no mapa parece imensa. O conflito acabará envolvendo não só o Brasil como a Venezuela , Peru e Equador. A área da fronteira brasileira não é de produção de coca mas quando o conflito estourar, existe uma possibilidade de êxodo em massa para o território brasileiro.

O Brasil já contatou a Cruz Vermelha para assumir e redirecionar os refugiados, caso cruzem a fronteira. Isso não saiu em nenhum jornal. O plano Colômbia desapareceu da mídia e a impressão que se tem é de que não há nada de novo no front. Quando a coisa estourar, a opinião pública vai pensar que o plano Colômbia renasceu, quando na verdade ele se desenvolve na sombra.

Vou discutir com o general alguns pontos de seu discurso. Um deles é sobre as Farc. Ele acha que as Farc começaram a trocar armas por drogas mas, aos poucos, foram desalojando os traficantes e assumindo o controle de tudo.

Vou expressar minha posição para ele: o papel do Brasil deve ser o de fortalecer negociações de paz, sem tomar claramente partido por um dos lados.

Costumo receber o representante das Farc em meu gabinete. São relações oficiais. Não tenho dados para contestar seu domínio sobre o tráfico de drogas. Acredito até que a tese do general seja verdadeira.

No entanto, é preciso lembrar que as Farc são pela legalizão das drogas. Elas têm, de uma certa forma, um fundamento político para isto.

É preciso considerá-las com realismo político, uma vez que princípios morais rígidos nem sempre são bons conselheiros da política externa adequada numa área tão complexa. Se eles controlam uma parte do país e se dispõem a participar de negociações de paz, é razoável supor que nos próximos anos terão uma parcela do poder oficial na Colômbia.

Vou sair para um jantar e tentar conversar essas coisas. Essa viagem é assunto para muitos dias.

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Traffic: questões sobre o tráfico de drogas

Vi Traffic. É um bom filme, colocando, com sinceridade, inúmeras questões pertinentes sobre o tráfico de drogas. Vou utilizar esse filme para estimular debates na campanha eleitoral. As pessoas precisam ter acesso a visões mais realistas para que possam influenciar as políticas de seu país.

O filme dinamita o conceito de guerra contra as drogas, uma das grandes bobagens produzidos pelos demagagos americanos. Guerra contra coisas, guerra contra usuários? Em qualquer hipótese, uma questão tão séria necessita de melhores metáforas.

Chegou pela Amazon o livro de Don DeLillo, The Body Artist. Atravesso um principio dificil até ficar sabendo que um dos pesonagens, um diretor de cinema, suicidou-se. É uma novela curta e já deveria tê-la lido. Sinceramente, ou faltou pique, ou o livro não me seduziu. Vou concluí-lo e, quem sabe, mudarei de idéia.

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