Os anos 70 são sentidos apenas como ontem e todos esses anos de festas de fondue, vinho rosado, poder da pirâmide e homens de barba e sandália ainda não parecem história. O passado não se torna, instantaneamente um período: precisa ser lamentado, festejado, chorado, risível, injuriado e perdoado. Se as décadas são alimentos e a cultura é um panfleto digestivo, então os anos 70 estão ainda passando pelo estômago rumo ao longo e sinuoso intestino da memória.
Esse é um trecho da novela Honeymooners, de Chuck Kinder, recém lançado nos Estados Unidos. Lembra-me um desertor americano da guerra do Vietnã, que andava de um lado para outro no inverno sueco, dizendo: isto aqui está muito calmo, muito calmo.
Para ele, pelo menos, havia algo definido sobre os anos 70. Vieram depois dos 60. Essa vizinhança de décadas já era um caminho precário para defini-las.
No entanto, a turbulência dos anos 70 nos atingiu em cheio.
No Brasil, a década começou com o aniquilamento da esquerda e terminou com a anistia geral. Com o golpe de estado no Chile em 73, material que arrasta até hoje através do destino de Augusto Pinhochet, o cone sul se fechava para a democracia. Brasil, Argentina e Uruguai eram ditaduras.
Quem viveu a década na Europa, assistiu, por outro lado, uma superação das ditaduras: Grécia, Espanha e Portugal, anunciando talvez o caminho que a própria Améria do Sul iria encontrar.
Essa proximidade com os anos 60, essa delicada fronteira entre as décadas pode ser vista no movimento hippie.
Floresceu nos anos 60 nos Estados Unidos e encontrou sua plenitude no Brasil um pouco depois, com a saída para lugares deslumbrantes onde se tentaria, ufa, viver em paz e amor.
O intercâmbio entre as décadas é nítido no movimento feminista, na consciência ecológica, nas aspiracões das minorias sexuais que embora levantadas nos anos 60 atravessam a década e se instalam nos 70 como se estivessem em casa.
Novas formas de rebeldia, distantes de partidos políticos e parlamentos, ganhavam a juventude através da música. Bob Marley foi um dos grandes ídolos dos verões europeus dando corpo a uma autoestima dos imigrantes negros e preparando-os para levantar e defender seus direitos. Movimentos antiracismo como o Touche pas mon Pot (não toque no meu chapa) chegaram às fronteiras da esquerda branca e européia.
O eipsódio dos anos 70 que ainda apresenta uma dramática realidade e ainda está sendo digerido no estômago cultural foi o choque do petróleo, que quintuplicou o preço do produto. Descobriu-se ali que a energia era escassa e que o padrão de vida estava em jogo no Ocidente. E não era universalizável.
Se os chineses tivessem o mesmo nível dos norte-americanos era preciso um pouco mais que o dobro da produção atual.
Nem se falava ainda no esquentamento do planeta.
O tema conservação e eficácia energética entrou na agenda das grandes empresas. A própria IBM fez um programa que rendeu uma economia de US$ 90 milhões em três anos. O racionamento teve um peso tão grande na revisão de alguns hábitos que, ao ser suspenso, revelou uma Los Angeles mais comedida: menos 8,8 por cento no consumo.
O fato de o Brasil e a Califórnia estarem às voltas com a falta de energia e a própria decisão de George Bush de abandonar o Protocolo de Quioto significam que a década dos 70 não foi totalmente digerida. Novas centrais nucleares, exploração de petróleo são dados da nova política norte-americana mostrando que, na verdade, o que se quer, ao invés de interrogar o passado, é fugir para a frente.
No Brasil as centrais nucleares começaram a ser contestadas mais amplamente em 79, coincidindo com a abertura democrática. De lá para cá os alemães já desistiram do nuclear e se jogaram, desde 91, aqui e ainda querem terminar a última usina que nos venderam.
A voz de Bob Marley e a crise energética são apenas dois elementos que não podem ser alinhados com homens de barba e sandália e as festas de fondue. Atravessaram os anos 70, ressurgem transformados no século XXI. Assim como a crise é grande demais para caber numa década, os crimes de Pinochet são maiores do que um punhado de meses e anos. Assim como talvez John Travolta fosse talentoso demais para parar em Saturday Night Fever.
O que pertence a uma década e o que escorre entre as grades da demarcacão cronólogica no Brasil? O que foi feito de Arambepe, que rumo tomou a questão das drogas no Brasil contemporâneo, que promessas a democracia trouxe no final dos 70, que frustracões pode ter provocado?.
Nesse sentido, Chuck Kinder tem razão: ainda há muito o que digerir dos anos 70 nos longos e convulsos intestinos de nossa memória.
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