Um cenáriio para a Amazônia

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Por causa da troca de ministros, esta semana foi dedicada ao meio ambiente. Fiz duas intervenções mais longas pela mídia. Uma delas a ser publicada no Liberal, de Belém, e outra na revista Exame da próxima semana.

Sem querer antecipar a forma dessas entrevistas, constato que estou falando a mesma coisa há algum tempo. A Amazônia é um tema de nossa política externa e seria interessante que o discutíssemos como questão nacional e não apenas de governo.

Os pontos básicos são a negociação no interior do governo e a discussão na própria Amazônia de um plano de desenvolvimento sustentável. Uma vez criado e se der garantias de transparência tem tudo para ser financiado internacionalmente.

Embora seja um grande problema, não devemos desistir diante dele. O Brasil já apaziguou conflitos entre Equador e Peru, já contribuiu para o surgimento de uma nova nação, o Timor Leste e garantiu, recentemente, a ordem no Haiti.

Também eram problemas complexos.

Vou acompanhar os primeiros passos da política ambiental para ver o que é possível fazer, para não ficar apenas nas críticas. A Amazônia é um desafio que deveria engajar todas as pessoas de boa vontade para buscar um consenso nacional. Seria o nosso grande argumento. Infelizmente, como os escândalos sucederam-se ao longo do governo, é preciso ser muito convincente sobre a aplicação do dinheiro. Para isso há auditorias, enfim todo um sistema de salvaguardas. Um plano soberano do Brasil financiado pelo mundo é pelo menos uma proposta. E a faço há algum tempo. Mais cedo ou mais tarde será discutida.

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A visita de Bush

O que esperar da visita de Bush? A parceria no campo dos biocombustíveis pode ser boa. Mas o Brasil e Estados Unidos precisam se entender sobre as cláusulas social e ambiental.

Se quisermos fazer algo além do petróleo, é preciso ter um cuidado com o meio ambiente e com as pessoas, muito diferente do que aconteceu até aqui. Será que Bush tem disposição para ir além do petróleo, ele que quis explorar o Alaska e se recusou a assinar o Protocolo de Kyoto?

Outro problema em nossas conversas: o nuclear. Fazemos tudo direito. Defendemos o Tratado de Não Proliferação e, na frente de muitos países, adotamos medidas restritivas sobre o Irã, após recomendação da ONU. O que faz Bush? Anuncia uma nova geração de ogivas nucleares, faz acordo com a Índia, indicando, claramente, que na sua política good boys podem ter o nuclear, bad boys não. Ora, isto tira a força do impulso planetário pelo desarmamento. A China já anunciou um aumento de quase 20 por cento no seu orçamento militar. A Rússia fala também em modernizar suas ogivas.

No caso do Haiti, também fazemos tudo direitinho. Ocupamos favelas, garantimos a ordem mas não vemos no horizonte nenhum grande plano de socorro social. Ora, nosso esforço não pode trazer a paz indefinidamente num Haiti devastado ecologicamente, com milhares de pessoas na miséria.

Um relatório surgido nos EUA indica que o aquecimento global vai lançar multidões de haitianos ao mar, e esse boat-people estará buscando as praias americanas.

Enfim, há muito que conversar. Temos, de certa forma, tarefas cumpridas ou em cumprimento. E o governo Bush está nos desapontando.

Vamos ver como a conversa real vai se desenvolver.

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Metamorfose na Fazenda Modelo

Com um milhão de metros quadrados, situada no coração da Zona Oeste do Rio a Fazenda Modelo, que pertence à Prefeitura, vai sofrer uma metamorfose. Ela sempre serviu para recolhimento da população de rua e, felizmente, o prefeito César Maia compreendeu que esse método estava arruinando a fazenda e também os mendigos.

Tudo pode ser feito ali, principalmente como experiência de encontro entre cidade e campo, uma das características da zona oeste. Agricultura orgânica, experiências com teto verde, criação de cavalos para terapia de autistas, desenvolvimento de cogumelos para exportação – todas essas idéias serão examinadas pela setor social da prefeitura. Muitas outras podem aparecer com o tempo e o espaço que vivia um processo de decadência acentuado, pode renascer apontando rumos para uma cidade sustentável.

Através de um decreto, ele decidiu destinar a Fazenda Modelo para experiências de desenvolvimento sustentável. A área que tem um bom solo para plantações, atrai pássaros e já tem alguns animais abandonados, é um convite à imaginação.

Uma das sugestões de Sérgio Bruni, presidente do Conselho de Desenvolvimento Sustentável, é o desenvolvimento de plantas medicinais em combinação com alguma grande empresa. Na verdade, já existe uma plantação de ervas medicinais destinada a servir sete hospitais. No entanto, as chances de se plantar essências para industria de cosméticos pode potencializar os ganhos e com isto destinar mais dinheiro para obras sociais.

Uma das animadoras do projeto é a mulher do prefeito César Maia, Mariangeles Maia, que já orienta o funcionamento de cozinhas comunitárias nos morros mais pobres do Rio. Ao contrário dos restaurantes populares, as cozinhas comunitárias empregam gente da região e cobram 50 centavos o prato, destinando este dinheiro ao pagamento dos funcionários.

A Fazenda Modelo conta com um heliporto e quando o projeto estiver concluído tudo indica que o Rio terá um centro de excelência não só para mostrar ao mundo, mas para fazer o que sempre sonhamos: pesquisar e experimentar aqui para desenvolver nos outros pontos do país.

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Sombra no paraíso pomerano

Pancas – Lugar mais bonito do mundo. A região dos Pontões dos Pancas, no Espírito Santo, arrancou esta exclamacão de Roberto Burle Marx, o maior paisagista brasileiro. Ainda era quase virgem.

Mesmo agora, vários anos depois da visita de Burle Marx, os ecologistas ainda consideram vital sua preservação. Sobrevoaram a área, que é um oasis no devastado norte do estado, viram a beleza cênica das inúmeras pedras e intuiram pela presença da Mata Atlântica que havia uma grande biodiversidade.

Foi criado o Parque Nacional das Pontões Capixabas, com uma extensão de 17,4 mil hectares, e todos voltaram contentes dos seus sobrevoôos. Só que não aterrisaram jamais para constatar que além de tudo havia alí uma grande riqueza cultural: dois mil pomeranos que vieram para o Espirito Santo no fim do século XIX, vivem de acordo com seus costumes e são responsáveis por evitar que a região tenha sido destruída, como outras matas do Espírito Santo.

Criou-se, por incapacidade burocrática, um falso dilema: o parque ou os pomeranos. Na verdade, o Parque dos Pontões Capixabas é dos pomeranos não só porque são donos legais das terras mas também porque sua ausência representaria o início da destruição da área que, bem administrada, pode ser um dínamo do desenvolvimento da região.

Quando chegou a notícia de que os pomeranos podiam ser expulsos dos Pontões houve um desespero na área. Pessoas como Juliberto Stur, de 52 anos, quarta geração dos imigrantes, que vive em contato direto com a mata e seus bichos imaginou a morte que, para ele, tem a forma de um apartamento na periferia das grandes cidades.

Se os pomeranos, que falam um idioma parecido com o alemão, fossem mesmo expulsos, seria a terceira grande maldade que sofreriam no território brasileiro. A primeira foi quando chegaram da Europa, com promessas não só de terras férteis, mas estradas, postos medicos, armazéns. Não havia nada disso. Foram jogados no mato e ainda por cima tendo como vizinhos os antropófagos botocudos, destruídos pelos grileiros.

A segunda vez que sofreram foi na II Guerra Mundial. A polícia secreta de Getúlio Vargas estimulava a população a perseguí-los e destruir suas propriedades. Viviam encerrados em casa, com medo de estranhos. Por causa disso, foram eles considerados estranhos e arredios.

Nesta terceira vez, já estavam instalados. Seus filhos estudaram em universidades brasileiras. Uma delas, Partricia Stur, diplomou-se como farmacêutica, e voltou para a região para articular a resistência dos mais velhos contra a possibilidade de serem expulsos.

A noticia correu no Espírito Santo. O jornalista Rogério Medeiros, que trata de temas étnicos e ambientais, escreveu uma reportagem sobre o drama dos pomeranos. Em seguida, Patricia, para fortalecer os laços culturais dos pomeranos, casou-se como se casavam as mulheres pomeranos violentadas pelos senhores feudais alemães: vestida de preto. As bodas duraram três dias e apartir daí cada vez mais os pomeranos, que começam a fornecer dados para um dicionário de pomerano em português, ganharam confiança para lutar por suas terras.

A presença deles no Parque Nacional é, além de uma questão de justiça, a grande saída para a conservação. Duas mil pessoas que amam a terra, comunicam-se entre si e têm mantido os caçadores e desmatadores à distância, são muito mais capazes de defender a mata do que funcionários do Ibama, mal pagos e sem recursos .

Esse é o principio da história. Ela fica mais nítida quando se avalia o grande potencial de desenvolvimento sustentável da área.

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FNAC, a chegada de uma velha conhecida

Esperei notícias da Petrobrás. Ontem, disse que o derramamento de óleo na bacia de Campos foi de 13 mil litros. Hoje, fiquei sabendo que era de 26 mil. O dobro. Mais uma vez a Petrobrás anunciou pela metade o volume de óleo derramado.

A novidade é que agora estamos tendo desastres nas plataformas. Começou com navios, passou pelos dutos e chegou a plataforma. Só mesmo uma auditoria em todas as instalações da Petrobrás vai indicar o rumo das mudanças.

Aliás, isto já foi determinado pelo Conama, numa sessão em que eu estava presente.

Tirei o feriado para conhecer a Fnac , que acaba de chegar ao Brasil. É um imenso supermercado cultural. Funciona no Barra Shopping, no Rio.

Conheci a Fnac em Montparnasse. Era asilado político. Quase não tinha dinheiro. Era uma tentação ver tanto livro, tanta música e equipamentos de sonho, como os vários modelos da Leica. Agora, ela está também em Les Halles, onde visito mais.

Vi a Fnac surgindo em Berlim. Era luxuosa. Quando deixei Berlim, em 92, já se falava no fechamento. Não tinha dado muito certo em Berlim, embora exista também em Nova Iorque, onde o consumo cultural é muito grande.

Saí sem comprar nada. Voltarei para ver se há alguma coisa nos detalhes. De um modo geral, o setor de fotografia é limitado. Disseram-me que o de histórias em quadrinho também. Nao encontrei, por exemplo, a camara digital da Nikon D1. Na verdade, os principais sistemas não estavam representados com sua top de linha

Tudo bem. Não sou crítico de supermercados culturais e espero que haja consumo suficiente para manter a Fnac de pé. De uma certa forma, seu estilo já havia sido inaugurado em São Paulo e no Rio, com megalivrarias. A Saraiva do New York Center já é de grandes dimensões, vizinha da Fnac. O que desequilibra, a favor da Fnac são os livros importados e as seções de aparelhos de som e informática.

Enfim, simbolos da globalização vão surgindo aqui e ali, como se para nos lembrar que, de certa maneira, o mundo hoje é um só, apesar do desconforto de grande parte de seus habitantes.

Agora, é preparar o trabalho da próxima semana. Será dificil conseguir alguma coisa de concreto, fora do tema corrupção. A notícia de que o rombo na Sudam era de R$ 1,7 bilhão teve um impacto enorme. É só parar para pensar nessa cifra. E imaginar o quanto não poderia ter rendido num projeto de desenvolvimento sustentável para Amazônia. A mesma classe dominante predadora, em relação ao meio ambiente, é que corrói os cofres públicos.

É preciso um projeto de salvação e desenvolvimento econômico para a Amazônia. Quem serão os interlocutores?

Os militares são interlocutores importantes. Mas e os politicos e empresários? Em quem confiar, como desenvolver mecanismos de controle social. Estados como o Acre e o Amapá, dirigidos pela esquerda, poderiam ser um bom experimento. Até que ponto se pode formar, através do estado e setores populares, uma frente de desenvolvimento sustentável. Que papel definiriamos para a ajuda estrangeira? Com conciliá-la com nossa visão soberania?

As ONGs aparecem também como um grande ator, embora tenham de estar abertas para receber o mesmo nível de crítica de que todos que estão na cena pública.

E a Funai, o que é isso? Muito rejeitada pelo governo, embora pudesse ser um grande instrumento, inclusive no diálogo internacional?

Essa história da Sudam não pode ficar assim. Além de se desvendar a corrupção será necessário um novo caminho.

Vou aproveitar para tentar introduzir esse debate nas comissões em que trabalho: meio ambiente e minorias, segurança nacional e relações exteriores e direitos humanos.

É preciso que a comissão da Amazônia tenha um papel dinâmico nesse debate porque os deputados da região estão concentrados nela.

Meu primeiro passo foi convidar para falar sobre a Amazônia o general Alceste, comandante da região militar. Conhece muito bem a área que comanda : quatro milhões de quilômetros quadrados, maior que toda a Europa, sem a Russia.

Pensar que nessa região estrategicamente vital, o Brasil jogou pelo ralo quase dois bilhões de reais. O governo finge que não é com ele, mas quem governava o Brasil quando tudo isso se perdeu? Quem deveria controlar?

Quando o governo olha os movimentos da Sudam de fora, parece aqueles conquistadors que passam a mão nas mulheres e se desculpam dizendo que foi um gesto irresistivel, como se a mão fosse autônoma, isentando seu dono de qualquer responsabilidade.

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