Nordeste, tempo de pensar

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As chuvas que caíram no Nordeste deixam uma grande tarefa para todos: como preparar a região para as mudanças climáticas. Quando saia do Maranhão e falava, precisamente, na necessidade de controle das barragens, não só pela segurança física, mas pela precisão na abertura das comportas, aconteceu a tragédia no Piauí, em Cocal da Estação.

No caso maranhense, propus e vou tentar contribuir para a criação de um comitê de bacia na região do Mearim, abrindo o caminho para as outras onze bacias do estado. No caso do Piauí, não posso afirmar muita coisa, porque não estive lá. Falei com o governador, com o prefeito de Cocal da Estação, e vejo, hoje, na imprensa, que há um ano, a barragem sofria reparos.

Ainda assim, acho que o governador não tinha outro caminho a não ser aceitar as orientações técnicas e liberar a volta dos moradores. No entanto, ele poderia decidir melhor se houvesse um sistema mais perfeito de troca de informações meteorológicas. Havia a formação de tempestades no Ceará e elas influiriam, diretamente, no Piauí. Se houvesse também esse cálculo, e não apenas um exame da barragem, haveria mais dados para uma decisão.

Por isso, além de comitês de bacia, se faz necessária uma rede mais sofisticada de serviços meteorológicos para que todos os estados possam receber informações imediatas. Isto ficou claro no Sul, quando passou o primeiro furacão em Santa Catarina. No Nordeste, onde havia menor incidência de temporais, constatamos que há muita fragilidade. E isso pode ser reparado. Não há desculpa do gênero falta de verbas. O que perdemos com os desastres tende a ser maior do que gastamos com a prevenção.

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De novo, o mar

Tenho escrito algumas coisas sobre o mar, principalmente depois dos desastres da Baia de Guanabara e o afundamento do navio Prestige. A idéia é juntar todas as forças políticas e administrativas que cuidam do mar e iniciar uma discussão sobre a governabilidade dos oceanos.

Na verdade, o Brasil já iniciou esta discussão e documentos importantes não faltam. Menciona o da Comissão Nacional Independente sobre os Oceanos. É um grande diagnóstico da situação brasileira e foi mandado para uma Comissão Internacional que se reuniu em Lisboa, em 1998.

Uma das novidades no relatório brasileiro foi a pesquisa de opinião pública revelando o que pensa a população sobre os mares. Segundo as respostas, 80 por cento dos entrevistados considera o mar muito importante, revelando a impressão de que as praias estão poluidas, os manguezais ameaçados.

Os entrevistados brasileiros consideram também que o conhecimento do mar é fundamental, assim como as pesquisas e exploração do fundo dos oceanos, tomados os devidos cuidados ecológicos.

Um outro aspecto importante é o desconhecimento de quase 90 por cento dos entrevistados do total da produção de petróleo no fundo do mar. A tendência é considerar a exploração do petróleo em terra firme mais importante do que nos oceanos.

Outras perguntas importantes vão revelando o que pensam os brasileiros sobre o mar e os peixes, por exemplo: eles consideram que a quantidade de peixes está diminuindo, que os portos funcionam mal e desconhecem o volume da exportação nacional feita por navios.

Os brasileiros consideram importante ter Marinha de Guerra forte e desenvolvimento da indústria naval.

Os dois instrumentos internacionais que cuidam do tema, a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar e a Agenda 21, lançada na Conferência do Rio, em 92, ainda são desconhecidas da maioria esmagadora. Apenas 8 por cento dos entrevistados ouviram falar desses temas.

O grande documento brasileiro sobre o tema foi lançado, ainda no governo Fernando Henrique, sob a coordenação do Ministro de Ciência e Teconologia, José Israel Vargas. É todo o esboço de um trabalho que precisa evoluir muito, antes que a ausência de um bom gerenciamento costeiro e de um organismo para governar o mar acabe tornando irreversível o processo de destruição em curso.

O governo Lula anda muito atarefado e todos os governos complicam-se um pouco no começo. Mas já era tempo do Ministério de Ciência e Tecnologia recuperar o trabalho ou então passar a bola para o do Meio Ambiente.

O mar não pode ser mais ignorado.

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Toneladas de óleo no mar da Galícia

Acompanhando um grupo de técnicos da Petrobrás, sigo hoje para a Espanha com o objetivo de observar e aprender com o desastre na costa da Galícia, onde o navio Prestige partiu ao meio e afundou com uma carga de 77 mil toneladas de óleo.

Nossa viagem tem como objetivo aperfeiçoar os mecanismos de defesa contra desastres desse tipo. Precisamos estar entre os melhores do mundo não apenas na prevenção mas também no socorro, quando for impossível evitar a tragédia.

A Petrobrás, depois de algumas experiências infelizes, rsolveu destinar uma verba de R$1,8 bilhão para construir um programa de gerenciamento ambiental, destinado a prevenir desastres e ao socorro quando eles ocorrem.

Equipamentos e técnicos do mundo inteiro foram mobilizados e temos tudo para dar um passo adiante, passo já vislumbrado com a criação dos centros de emergência.

Da minha parte, tenho acompanhado desastres em dutos, navios e plataformas. O objetivo é produzir uma legislação que os evite, como por exemplo, o projeto de lei que determina a necessidade de casco duplo para os navios petroleiros.

Além de atuação parlamentar, contribuo com sugestões a Petrobrás, como foi o caso da descoberta de um cabelereiro norte-americano sobre a eficácia de cabelo humano como filtro para recolher o óleo derramado na água. Os Estados Unidos estão pesquisando e valeria a pena entrarmos também no experimento, que é bastante simples: recolher cabelo humano nos salões de beleza e usá-los para revestir barris por onde a água passaria, deixando o maximo de óleo no filtro de cabelos.

Muitas coisas mais podem ser feitas . No caso dos dutos, indiquei a empresa de Sertãozinho em São Paulo que produz softwares capazes de monitorar o fluxo de água ou óleo dentro de um duto e desativar automaticamente o fluxo, caso exista vazamento.

Enfim, estamos trabalhando juntos para atenuar esse enorme problema no Brasil e a viagem à Espanha, na qual utilizo meus próprios recursos, é uma forma de nos capacitarmos ainda mais para o futuro.

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FNAC, a chegada de uma velha conhecida

Esperei notícias da Petrobrás. Ontem, disse que o derramamento de óleo na bacia de Campos foi de 13 mil litros. Hoje, fiquei sabendo que era de 26 mil. O dobro. Mais uma vez a Petrobrás anunciou pela metade o volume de óleo derramado.

A novidade é que agora estamos tendo desastres nas plataformas. Começou com navios, passou pelos dutos e chegou a plataforma. Só mesmo uma auditoria em todas as instalações da Petrobrás vai indicar o rumo das mudanças.

Aliás, isto já foi determinado pelo Conama, numa sessão em que eu estava presente.

Tirei o feriado para conhecer a Fnac , que acaba de chegar ao Brasil. É um imenso supermercado cultural. Funciona no Barra Shopping, no Rio.

Conheci a Fnac em Montparnasse. Era asilado político. Quase não tinha dinheiro. Era uma tentação ver tanto livro, tanta música e equipamentos de sonho, como os vários modelos da Leica. Agora, ela está também em Les Halles, onde visito mais.

Vi a Fnac surgindo em Berlim. Era luxuosa. Quando deixei Berlim, em 92, já se falava no fechamento. Não tinha dado muito certo em Berlim, embora exista também em Nova Iorque, onde o consumo cultural é muito grande.

Saí sem comprar nada. Voltarei para ver se há alguma coisa nos detalhes. De um modo geral, o setor de fotografia é limitado. Disseram-me que o de histórias em quadrinho também. Nao encontrei, por exemplo, a camara digital da Nikon D1. Na verdade, os principais sistemas não estavam representados com sua top de linha

Tudo bem. Não sou crítico de supermercados culturais e espero que haja consumo suficiente para manter a Fnac de pé. De uma certa forma, seu estilo já havia sido inaugurado em São Paulo e no Rio, com megalivrarias. A Saraiva do New York Center já é de grandes dimensões, vizinha da Fnac. O que desequilibra, a favor da Fnac são os livros importados e as seções de aparelhos de som e informática.

Enfim, simbolos da globalização vão surgindo aqui e ali, como se para nos lembrar que, de certa maneira, o mundo hoje é um só, apesar do desconforto de grande parte de seus habitantes.

Agora, é preparar o trabalho da próxima semana. Será dificil conseguir alguma coisa de concreto, fora do tema corrupção. A notícia de que o rombo na Sudam era de R$ 1,7 bilhão teve um impacto enorme. É só parar para pensar nessa cifra. E imaginar o quanto não poderia ter rendido num projeto de desenvolvimento sustentável para Amazônia. A mesma classe dominante predadora, em relação ao meio ambiente, é que corrói os cofres públicos.

É preciso um projeto de salvação e desenvolvimento econômico para a Amazônia. Quem serão os interlocutores?

Os militares são interlocutores importantes. Mas e os politicos e empresários? Em quem confiar, como desenvolver mecanismos de controle social. Estados como o Acre e o Amapá, dirigidos pela esquerda, poderiam ser um bom experimento. Até que ponto se pode formar, através do estado e setores populares, uma frente de desenvolvimento sustentável. Que papel definiriamos para a ajuda estrangeira? Com conciliá-la com nossa visão soberania?

As ONGs aparecem também como um grande ator, embora tenham de estar abertas para receber o mesmo nível de crítica de que todos que estão na cena pública.

E a Funai, o que é isso? Muito rejeitada pelo governo, embora pudesse ser um grande instrumento, inclusive no diálogo internacional?

Essa história da Sudam não pode ficar assim. Além de se desvendar a corrupção será necessário um novo caminho.

Vou aproveitar para tentar introduzir esse debate nas comissões em que trabalho: meio ambiente e minorias, segurança nacional e relações exteriores e direitos humanos.

É preciso que a comissão da Amazônia tenha um papel dinâmico nesse debate porque os deputados da região estão concentrados nela.

Meu primeiro passo foi convidar para falar sobre a Amazônia o general Alceste, comandante da região militar. Conhece muito bem a área que comanda : quatro milhões de quilômetros quadrados, maior que toda a Europa, sem a Russia.

Pensar que nessa região estrategicamente vital, o Brasil jogou pelo ralo quase dois bilhões de reais. O governo finge que não é com ele, mas quem governava o Brasil quando tudo isso se perdeu? Quem deveria controlar?

Quando o governo olha os movimentos da Sudam de fora, parece aqueles conquistadors que passam a mão nas mulheres e se desculpam dizendo que foi um gesto irresistivel, como se a mão fosse autônoma, isentando seu dono de qualquer responsabilidade.

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O pesadelo da P-36

Macaé – Para quem gosta da teoria da conspiração, a Petrobrás é um prato cheio. Além de pequenos desastres, como os que mataram quatro pessoas nesse princípio de ano, na bacia de Campos, grandes pesadelos sacodem a compania, de tempos em tempos, desde o vazamento na baia de Guanabara, em janeiro de 2000.

Encarregado pela Comissão de Meio Ambiente para monitorar não apenas os desastres mas também os planos de prevenção da Petrobrás, encontro-me diariamente com essa pergunta nas ruas: existe sabotagem contra a Petrobrás?

É uma pergunta natural pois todos querem encontrar um elo entre vários desastres e uma resposta que consiga explicá-los antes mesmo de fazer um estudo detalhado do tema.

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