Vida depois do carnaval

Dizem que o ano começa depois do carnaval. Mas no Congresso, começou antes. Dois fatos importantes, com relação entre si: a derrocada do corregedor do castelo e a entrevista de Jarbas Vasconcelos, denunciando o caráter fisiológico do PMDB, partido que hoje controla Câmara e Senado.

A vitória de Edmar Moreira como corregedor revela que a maioria queria o máximo de liberdade, num contexto em que ninguém é punido. Mas a maioria não escreve numa página em branco. Existe a imprensa, um certo nível, ainda limitado de transparência, e a minoria que precisa resistir organizada.

Seremos sempre um grupo pequeno. Mas esse grupo pequeno, nas duas casas, pode se unir em torno de alguns pontos básicos. Um deles é impedir que o fosso entre o Congresso e a opinião pública se aprofunde. Para isso é preciso intensificar a vigilância.

De acordo com a experiência anterior, constata-se, num certo momento, que a maioria acossada pela mídia, costuma fazer algumas concessões. Isto quando não consegue empurrar com a barriga, na esperança de que todos se esqueçam.

As vezes, esta aliança entre minoria e imprensa pode ser fortalecida com incursões no judiciário. Aquele aumento de 95 por cento no salário dos parlamentares foi evitado assim: com mandatos de segurança.

Além de união, a minoria tem de recuperar seus pontos de luta. O voto aberto é um deles. Outro ponto que precisa ser colocado é o tal de foro especial. Por que os parlamentares são julgados pelo Supremo e não como qualquer outro cidadão comum. Por que tem uma imunidade que se estende a crimes comuns, isto não se limita ao direito de palavra e de voto?

Além das alianças, o que fortalecerá a minoria é o momento. Estamos nos aproximando das eleições e o embate precisa deixar claro quem é quem. Só assim, conseguimos alguma esperança de renovação. Amanhã, volto ao tema

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As denúnicas de Jarbas

Junto com o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR) fiz uma visita ao senador Jarbas Vasconcelos na tarde de ontem. Minutos antes, um grupo de deputados do PSOL tinha estado com ele, pedindo que divulgasse os nomes dos políticos corruptos do PMDB.

É um tipo de exigência feita também pela imprensa mais próxima do governo. Jarbas não quer entrar neste caminho. Mas, na verdade, estimulou a própria imprensa a buscar a verdade sobre o PMDB. O resultado, no primeiro dia, foi a notícia de que 10 dos 19 senadores do PMDB estão com problemas no Supremo Tribunal Federal, dois eles ocupando cargos de destaque: Valdir Raupp e Romero Jucá.

Fizemos uma proposta de formação de uma Frente Parlamentar, depois do carnaval. Seu objetivo é enfrentar o processo de degradação do Congresso. São períodos muito duros quando se começa algo assim. O ressentimento vai às nuvens. Mas é a única maneira de honrar o mandato, nas circunstâncias decadentes em que se encontra o exercício da política no Brasil

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Triste eleição na Câmara

As eleições para a mesa da Câmara são uma tristeza. Por baixo da agitação, dos conflitos de egos, das carreiras pessoais, ela pode ser lida também sob uma ótica essencial: ajuda ou enfraquece a democracia?

Creio que a segunda hipótese é verdadeira. Quase toda a campanha foi conduzida em torno de temas corporativos, como aumento de salário, verbas de gabinete e até construção de novos banheiros.

Questões fundamentais como autonomia do parlamento, reformas vitais para o Brasil ou mesmo a redução do recesso parlamentar, equivalendo nossas férias às dos trabalhadores legais no país, nem foram levantadas ou ficaram em segundo plano.

Se considerarmos a cobertura da imprensa, veremos que as eleições contribuiram para separar mais ainda o Congresso do povo, criando a sensação de que os deputados são uma casta interessada no seu próprio conforto e alheia aos grandes problemas do país.

O pior é que muitos consideram esta imagem como resultado da má vontade da imprensa. Conclusão errônea, que será complementada por outra mais errônea ainda: a necessidade de construção de um sistema próprio da imprensa, jornais, rádio, todos pagos com dinheiro de impostos, para que os deputados tenham contato direto com a população.

O ideal seria o Congresso brasileiro perceber que seu distanciamento do povo pode enfraquecer a democracia. E iniciar uma arrancada para reconquistar a confiança. Quantos pensam assim? Com quem contar para uma virada?

É preciso constituir um grupo preocupado estategicamente com a democracia. E tentar, de alguma maneira, reduzir o impacto negativo desse comportamento que pode levar até ao desejo de fechamento do Congresso.

Devo votar com o candidato indicado pelo partido majoritário. Lula e o PT são maioria, tiveram muitos votos, e, segundo as pesquisas, continuam merecendo a confiança de grande parte dos seus eleitores. Ao votar no candidato do governo, não significa que concordo com todas as suas teses ou que vou votar com eles em outro momento. Apenas reconheço a legitimidade do acordo que confere o privilégio ao partido majoritário.

Não há dúvida que o PT contribuiu para que o Congresso chegasse a este ponto. De um lado, seu deslumbramento com a chegada ao governo e as melhorias materiais que isto significou para muitos. De outro, seu esforço contante de criar maiorias, desprezando o debate, e fortalecendo o fisiologismo.

Se os dirigentes do PT acham que a destruição moral do Parlamento pode ajudá-los estão enganados. Com a derrocada da confiança na democracia, todos estaremos perdidos.

Por enquanto temos de conviver com este ridículo de uma Câmara cheia de cartazes, suja como os políticos sujam as ruas na época das eleições. Se num universo de 500 eleitores, ainda precisam sujar tudo para que seu retrato seja visto, imaginem o que não farão nas praça públicas.

Votarei no candidato do governo, mas não deixarei de protestar pelo horror que foi este processo.

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O senador Arruda confessou. E daí?

O senador Arruda confessou. E daí ? Para começar, muito tempo e muitos depoimentos serão poupados. A história da violação do painel fechou, com a confissão de dois atores principais, Regina Borges, diretora do Prodasen e o próprio Arruda.

Falta apenas ACM que ficou numa situação dificil. Arruda diz que entregou a lista para ele e que, a seu pedido, ACM telefonou para Regina agradecendo. Convergência de depoimentos que nos coloca uma única questão:qual a saída para ACM? Até que ponto vai cair atirando, até ponto resistirá sózinho, até ponto vai desmentir os dois ?

Essa é a variável que interessa, o lance de ACM.

Um detalhe no depoimento de Arruda me chamou a atenção. Ele diz que fez coisas muito mais graves a serviço do governo, sem esclarecer quais foram essas coisas, se eram graves no mesmo sentido de violação da lei. Se não eram, porque alinhou essas coisas com a violação, por que escolheu a violação como um parâmetro de gravidade?

Para todos os observadores, trata-se de um recado para o governo. Arruda não quer ser abandonado e insinua que sabe muito mais do que confessou, ou melhor que conhece outros episódios tão ou mais graves do que o episódio da violação.

Sem querer usar de muita severidade, é importante registrar que ele só confessou depois que os detalhes do depoimento de Regina Borges não lhe deixavam outra saída. Inclusive a descrição de seu apartamento.

Além do mais, o segredo de Arruda dependia de funcionários do Senado. Um deles já havia me garantido que os assessores dificilmente arriscariam sua carreira por fidelidade a um senador. Os senadores passam e eles ficam, como funcionários de outros gabinetes. Portanto não podem ser fiéis a um patrão de oito anos, quando sua perspectiva é de passar ali toda sua vida funcional.

Minha proposta hoje na Câmara é de responder a esse processo no senado, fortalecendo a CPI e aprovando logo, ainda esta semana, o fim do voto secreto.

No momento em que somos pressionados pela maior potência mundial a entrar na ALCA, precisamos de um Congresso capaz de debater o tema. Afinal, o futuro de um Brasil soberano e com uma visão singular de seu desenvolvimento está em jogo.

Jader Barbalho não tem condições de liderar um processo desse tipo. Ele está mais preocupado em explicar porque viraram sapos as rãs financiadas pela SUDAM e que, aparentemente, foram parar na conta de sua mulher.

O processo de transformação não pode ser parado pela confissão de Arruda, que é uma confissão de quem foi atropelado pelas evidências. Não pode ofuscar com o crime de violação do painel o crime de desviar dinheiro público, sobretudo quando há suspeitas sobre o Presidente do Congresso.

Desde que Jader assumiu não houve nenhuma sessão do imporante do Congresso. Deputados e senadores ainda não debateram juntos os problemas nacionais.

É tragico estar sob pressão norte-americana, a maior potencia mundial de todos os tempos, e simultaneamente envolvido em apurar se Jader roubou ou não o dinheiro da SUDAM.

Tenho sido disciplinado até agora. Mas continuarei botando a boca no mundo. Precisamos orientar o Congresso para o grande debate, o grande tema. Para isso é claro teremos que remediar essa grande irresponsabilidade do governo Fernando Henrique, apoiando a eleição de Jader sem perceber que nos jogaria a todos numa grande crise.

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