No Maranhão, esperando a chuva

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SÃO LUIS – Cheguei à capital no princípio da tarde. Passei as primeiras horas discutindo com as equipes que trabalham com o efeito das chuvas em 106 cidades do Maranhão. Viajo na primeira hora de amanhã para o interior. Estou preocupado com as previsões. Pode chover mais nos próximos dias, pois há uma convergência de nuvens como que estacionadas na região.

Já morreram 13 pessoas. Cerca de 88 mil desalojados sobretudo no Vale do Mearim. Quase todas as bacias sofreram com destaque para o Mearim e Itapecuru. O estado tem dificuldades em abordar estes problemas. Nas cidades não há defesa civil instalada. O governo está se instalando, pois caiu o governo antigo, por força de decisão judicial.

O governo federal promete 120 milhões. No ano passado houve enchentes e um movimento para construir 1167 casas. Não saiu nenhuma. O problema é que a burocracia é grande e os prefeitos não estão acostumados a preencher os formulários necessários. Muitas prefeituras não pagam INSS.

Vou percorrer os principais abrigos. O setor de saúde está preocupado com focos de malária. Houve três casos de leptospirose. A dengue, que foi maior no ano passado, está declinando em 2009. A governadora Roseana Sarney parte para uma operação em São Paulo. Viajarei com alguns deputados daqui e um técnico do INPE. Assim que as águas baixarem, vamos ver o que é possível fazer para evitar o caos maior. Mas vamos também ver o que é possível fazer no futuro.

Quando voltar da viagem, no começo da noite, relato o que vi. Por enquanto, fiquei em São Luis, onde há nuvens escuras e gente esperando chuva, como a que caiu ontem, inundando os principais bairros da capital. Até mais tarde.

O problema central, além de arrancar o dinheiro do governo, vai ser utilizá-lo com inteligência. Nem governo estadual nem prefeituras têm condições de fazer isto. Era preciso encontrar uma entidade para administrá-lo. Um pouco como o que acontece com hospitais. Às vezes, é preciso uma outra entidade para administrá-los.

O Maranhão tem metade do orçamento da cidade do Rio, cerca de 5 bilhões. No principio do ano, tinha um bilhão em caixa. Com a saída do governo antigo, o dinheiro evaporou, ficando apenas 306 milhões. As despesas de pessoal subiram de 143 milhões para 293 milhões. Despesas crescentes, queda de seis por cento na arrecadação, o panorama, a curto prazo, não é dos melhores. Hoje à noite, vou me encontrar com prefeitos das áreas atingidas que também andam por aqui. Mas é amanhã mesmo que a viagem começa.

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Lula e a burocracia

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Diante de 35.000 prefeitos, Lula criticou a burocracia, afirmando que o processo de mudança ainda é lento. Ele fez isto, porque sabia das reclamações dos prefeitos, sobretudo os de municipios atingidos pelas enchentes. O dinheiro não chega. Quando chega, já está em pleno curso um novo desastre.

Este tema foi muito discutido aqui, durante as enchentes, em Santa Catarina e no noroeste do Rio de Janeiro.

Lula assumiu um papel de oposição, reclamando do excesso de papel. No entanto, a saída sempre esteve nas mãos dele, pelo menos nesse caso. Bastava criar um fundo de emergência, destinado a socorrer cidades atingidas com mais rapidez.

Isto não foi feito. Ainda há tempo. Não faz sentido reclamar do governo, depois de passar seis anos no governo. É preciso realizar a mudança.

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O exemplo de Nápole

Coberta de lixo, numa das piores crises de sua história, Nápoles tem algo a ensinar ‘as cidades brasileiras. Num brilhante artigo, intitulado Nossa Fétida Cidade, a escritora Elana Ferrante mostra que o processo de decadência de Nápoles é longo.

Uma das suas características é o domínio da coleta de lixo pelo crime organizado, que tem os seus próprios aterros. A conciliação com a máfia, a tendência a aceitar a desordem como algo inelutável, tudo isso acabou levando a cidade ao caos.

O interessante no artigo é a intervenção do governo federal, enviando exército e tudo mais, mas esquecendo-se de que é impossível resolver em quatro dias o que foi gestado em décadas.

Nos bairros controlados agora pela Máfia as ruas permanecem limpas. Nos outros, o lixo se acumula e o cheiro penetra em todos os cantos.

A ilegalidade floresceu por muito tempo, sob a cumplicidade da ineficácia municipal e a complacência de políticos.

Afogada em lixo, sem novos aterros sanitários, para recebê-lo, Nápoles simplesmente mostra que o caos não é inventado de um dia para outro, mas, pelo contrário, cultivado todos os dias.

O Rio precisava estudar o caso de Nápoles. E quantas outras cidades brasileiras não transigem com a ilegalidade, sem perceber que estão produzindo o desastre futuro?

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Em busca das bicicletas de Joinville

Numa cidade onde os números indicam três bicicletas por casa, é razoável esperá-las em grande quantidade nas ruas. No entanto, quando chegamos a Joinville, numa tarde de chuva eram esparsas e isoladas como em qualquer outro lugar do país.

No primeiro dia, era possível encontrar bicicletas em Joinvile num lugar certo: o Museu das Bicicicletas, único na América do Sul, e que reúne modelos de várias partes do mundo.

Cirado por Walter Busto, um paulista apaixonado pelas bicicletas, o museu funciona numa velha estação da Rede Ferroviária Federal. Atrás dele, param locomotivas para revisão. Como os trens também estão saindo dos trilhos, muito em breve trens e bicicletas vão compor um único espaço nostálgico.

A primeira atração do museu é a própria bilheteria, construída em 1906 para vender as passagens. No galpão onde estão as máquinas falta um bom sistema de iluminação.

Mesmo assim uma das paredes é dominada pela ampliação de um postal italiano dos anos 40, assinado por Donizelli. Diante do quadro que consagra a cultura da bicilceta, está exposta uma motocicleta verde – uma BSA125, de 1952, a primeira com motor de dois tempos. A presença dominante da moto é a metafóra do que acontece agora na cidade. As bicicletas de Joinville vão sendo substituidas, gradativamente, pelas motos Honda 125, que podem ser compradas em prestações de R$60 ao mês. Além disso, os motores continuam a funcionar mesmo quando a lataria já acabou.

O Museu mostra bicicletas de vários modelos, mas também com várias funcões. Lá está a amerela do carteiro, uma azul que funcionava como carruagem, e, sobretudo, uma área onde se representa a infância da bicicleta, os coloridos velocípedes.

Uma visita ao Museu da Bicicleta mata a sede de quem as procura em Joinville. Mas ainda não explica totalmente o enigma de seu declinio na cidade, toda ela servida por ciclovias.

Para isso, é preciso sair às ruas.

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Onde pesa a barra do desastre ambiental

São João da Barra – Aqui o Rio Paraiba se encontra com o mar. Aqui se segura a barra dessa catátrofe ambiental. Vimos boi e cavalo mortos, tartaguras dando na praia e, o que mais comove, cardumes tentando se salvar da asfixia , suicidando-se na areia.

Foram 1 milhão e duzentos mil metros cúbicos, viajando 180 quilômetros. Agora elas se alojam nos manguezais e formam uma mancha que se estende 5 quiômetros oceano adentro. As praias de São João da Barra foram interditadas. A espuma amarelada se acumula e ouvi uma descrição assim: a espuma não deixa que se ouçam o barulho das ondas.

São João da Barra está sem água e seus dois mil pescadores sem trabalho. Mesmo os que pescam no oceano dificlmente conseguirão provar que seu peixe escapou ao desastre. Lá em Minas, soube que os governos ainda decidem de quem é culpa, que providências tomar. Aqui, o oceano devolve a espuma na foz do Paraiba. Veneno vai, veneno vem, como um sinistro ioiô.

Aqui foi possível planejar alguma coisa: cadastrar pescadores para ajuda social, racionalizar o uso de carros pipas, fiscalizar a pesca. Mas ainda estamos na idade da pedra quando o assunto é reação a catástrofes.

Bate-se muita cabeça. Quis formular um pequeno trabalho para salvar os manguezais. Mas não havia análises do material que envenenou o Rio. Pedi laudos e assim que os recebi coloquei no site. É preciso transparência, embora ache que muitas perguntas continuam no ar.

Será que a empresa usava a técnica craft de embranquecer a polpa? Nesse caso, o veneno vem cheio de organoclorados, dixoninas altamente cancerígenas. O Ibama de Minas diz que não, que há somente o licor negro utilizado para transfomar a madeira em celulose. Mas esse Ibama de Minas foi um pouco lento no manejo da crise.

Sinto saudades da Petrobrás. Sala de crise, boletins horários, contatos internacionais. O governo de um modo geral é muito pobre, não consegue dar a mesma resposta de uma grande empresa.

Vão dizer que sou neoliberal. Que se fodam. Querem continuar apitando impedimento ideológico na margem do campo. Mas o jogo mesmo é feito por quem está aberto à realidade, mudando a todo instante para se adaptar a ela.

Como gerir a falta d´agua numa área que atinge 700 mil pessoas? Como organizar um mecanismo de informação para impedir que as pessoas morram envenenadas e impeçam seus bichos de morrerem também? Como fazer frente a um desastre usando o conehecimento intenacional?

Só depois de uma semana, obtive os laudos sobre o material que vazou em Cataguazes. Todos os parceiros internacioanais diziam: como podemos colaborar se ignoramos a substância que contaminou o Rio? Ontem, recebi, finalmente, três laudos. A primeira coisa que nos ocorreu foi disponibilizá-los na internet.

Aliás, cada desastre colocado na internet ganha uma chance maior de solução. Econtramos empresas americans que monitaram catatrofes em fluxo dágua em tempo real. Mas custam caro.

Mas é possível descobrir novas técnicas, combinar experiências, aprender. Uma coisa é certa: as pessoas ganharam consciência ambiental e perceberam como um rio é importante em suas vidas.

Um pescador de São João disse para a tevê que vivia no céu que, de repente, se transformou num inferno. Outro disse que o que trazia vida, trouxe morte. Essa tomada de consiência é ampla. Muitas cidades descobriram como são dependentes do rio Paraiba e se perguntam se não seria interessante construir uma alternativa. É o caso de Campos com 500 mil habitantes. A cidade recebe royalties do petróleo e os usa para financiar times de volei e basquete. Ocupa um espaço nacional nesses esportes. Mas não construíra uma alternativa para garantir esse recurso que, quando jornalista no interior, chamávamos de precioso líquido.

Certamente, financiar o esporte dá mais votos. Um grupo de deputados andou por aqui. Queriam prender os donos da empresa de Cataguazes. Isso daria uma certa emoção no Jornal Nacional. Mas não resolveria os problemas concretos. Num desastre, aprendi, há bombeiros e policiais. Os policiais querem saber de quem é a culpa; os bombeiros querem salvar quem está a perigo.

A empresa de Cataguazes produziu uma tragédia ecológica muitas vezes superior à sua capacidade de indenizar. O ideal agora é concentrar na solução dos problemas. Um dos mais importantes é fazer com que as águas envenenadas não fiquem sendo devolvidas pela maré como um ioiô que vai e vem.

Quando se decidiu pela abertura das comportas dos reservatórios de Minas, a idéia era aumentar e apressar o fluxo para que a longa mancha de veneno se perdesse no mar. Mas essas coisas têm de ser feitas na maré baixa. Ninguém quis saber, na hora do sufoco, qual era a tábua das marés.

Agora será preciso resolver essa parada, reabrindo reservatórios na maré baixa. Há muitos outros problemas a serem equacionados. Falei com o Moscatelli sobre os manguezais que foram atingidos. Ele poderá nos ajudar mas trabalha com outro desastre ambiental, o da Ingá Metais em Sepetiba.

É outro desastre que não teve muito ibope. Apesar da estupidez dos empresários e da grande margem de imcompetência, o Paraiba vai sobreviver. As notícias que vêm da situação, no montante são animadoras. A água está ficando limpa. Soube também que muitos peixes se salvaram fugindo da onda envenenada e mergulhando nas do rio Murié.

Com os peixes que se salvaram e um mínimo de racionalidade, poderemos continuar. Até quando? Bem isso vai depender do risco Brasil, essa mistura de burrice, corrupção e incompetência que destrói um dos lugares mais bonitos do planeta.

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Viagem à maré negra na Espanha

La Coruña – Durante 72 horas, com um grupo de técnicos da Petrobrás, percorri o cenário da tragédia ecológica na Galícia, onde o navio Prestige partiu ao meio e afundou com 77 mil toneladas de óleo. Pássaros mortos, pescadores e marisqueiros fora do trabalho, pequenas cidades turísticas atingidas pela maré negra e, no ar, a suspeita de que o pior está por vir: apenas 20 mil toneladas formaram a mancha de 100 quilômetros quadrados. As restantes 57 mil jazem a 3500 metros de profundidade, nas águas do Atlântico.

Depois de analisar como os europeus atuaram e as condições que levaram ao desastre do Prestige, restou uma grande pergunta: o que o Brasil precisa aprender com o episódio, para que melhore sua resposta em caso de acidente?

O desastre do Prestige mostra também o que fazer para evitar acidentes, mas isso, como o socorro pós tragédia, cada vez mais dependem de respostas globais, acima do alcance de um só país.

Para começar, o Brasil teria tomado a decisão certa no momento crucial em que o Prestige partiu-se ao meio?

O navio estava em grande dificuldade a quatro milhas e meia da costa. Havia duas alternativas: levá-lo para alto mar, em busca de águas mais tranquilas, ou trazê-lo para o porto e retirar sua carga com segurança.

Ouvindo técnicos portugueses e noruegueses, chegamos à conclusão de que os espanhóis fizeram a escolha errada, levando-o para alto mar. Mas, quem teria coragem de tomar a decisão certa, aproximando uma bomba relógio para desmontá-la no porto? Tanto na Espanha como no Brasil não há uma autoridade pré-determinada para cuidar desses temas. A primeira grande lição para os brasileiros é esta: quem decide em nome do Governo, quem tem a incumbência prévia de assumir os riscos?

O Prestige era um navio com bandeira de conveniência, outra grande anomalia global. Os petroleiros que atuam com esse tipo de bandeira, querem apenas comprar e vender óleo barato. Além disso, ele tinha um casco simples, com um desgaste de 15 por cento, segundo uma o relatório de seu conserto na China.

Nos Estados Unidos, os petroleiros navegam com casco duplo, de forma que um vazamento acaba caindo dentro do próprio navio. Até 2005, esta regra terá de ser cumprida por todos. A Europa quis ter um prazo mais flexível: 2015. O Brasil sequer examinou o projeto, que rola pela comissões do Congresso. Com o acidente do Prestige a Europa, pressionada pela Espanha, pode recuar o prazo para 2003.

Comparada como o Brasil, a Espanha ainda monta muito mal a sala de crise para gerir um desastre de grande dimensão. Não só a capacidade de reunir voluntários, mas também a técnica de limpeza de praias, assim como rebocadores, barcos antipoluição, tudo isso deixa a desejar

No entanto, não é correto pedir que a Espanha gaste US$ 1 bilhão para fazer isto, sem produzir petróleo. A costa da Galícia é o caminho para 70 por cento da frota européia transportando óleo. Seis mil pescadores dependem das suas águas limpas. Só uma solução global poderia atacar o problema. No mínimo a Comunidade Européia deveria bancar a despesa.

Portugal, Espanha e França mostraram um bom nível de coordenação. Dois aviões franceses voaram diariamente, localizando a mancha. Portugal lançou boias à deriva para que emitissem informações sobre o rumo possível da poluição. Empresas européias, especializadas em acidentes com agues, mandaram especialistas.

No Mercosul competirá ao Brasil iniciar contatos e convênios para que todos saibam o que fazer em caso de acidente. A estrutura da Petrobrás, que custou R$1,8 bilhão é a maior que existe por aqui. Em qualquer hipótese, terá de ser acionada.

Outra importante lição, agora que empresas estrangeiras atuam no Brasil. A Shell, por exemplo, acaba de descobrir petróleo no Espírito Santo. Pelas leis noruguesas, só pode explorar petróleo quem tiver condições de enfrentar um desastre. Como fica muito caro e inútil cada uma das empresas montar uma estrutura, o ideal seria formarem um clube, no qual teriam direito ao uso do esquema da Petrobrás.

Tudo isso é o dever de casa que trazemos da costa da Galícia, onde 136 praias, algumas delas maravilhosas, foram atingidas pelo desastre. Aves marinhas, como o arua e a perdela balear, ambos em extinção, foram duramente atingidos. Nos hospitais improvisados de Pontevedra e Oleiros cerca de 450 aves estão sendo descontaminadas, sendo que umas 40 já foram encontradas mortas, uma delas pela nossa equipe.

Voltamos com muito dever de casa e uma camada de óleo em nossas botas que dificilmente conseguiremos limpar nos próximos dias. Vivemos intensamente, no domingo, o drama de Muxia, uma cidade costeira atingida por ondas de até quatro metros, carregadas de óleo. As imagens de lá, valem pelas palavras.

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