Silêncio brasileiro em Cuba

No momento em que Lula e sua comitiva desembarcam em Havana, morre numa greve de fome o prisioneiro político Orlando Zapata Tamaya.

É um fato gravíssimo que coloca em suspenso a posição brasileira sobre direitos humanos. Lula deve silenciar sobre o tema? Deve ouvir o apelo de 50 presos políticos que pedem ajuda ao Brasil?

Na minha opinião, independente da esquerda e da imprensa brasileira, é um fato escandaloso. A própria mãe de Orlando Zapata, Reina Tamaya afirmou que seu filho foi assassinado na cadeia, pois, uma longa greve de fome poderia ter esse desfecho somente com a indiferença do governo.

É a segunda vez, desde 1972, que um prisioneiro morre fazendo greve de fome em Cuba. O primeiro foi Pedro Luis Boitel, que fez oposição à ditadura de Batista e, depois, ao governo de Fídel Castro.

O silêncio brasileiro diante da morte de um prisioneiro em Cuba reflete apenas uma longa distorção no modo como se aborda o problema de direitos humanos. Numa ditadura de direita, qualquer violência é denunciada; numa ditadura de esquerda qualquer violência é apenas uma necessidade histórica.

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As ondas do desespero

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Milhares de pessoas aglomeradas no cais revelam o que sempre foi o grande temor dos EUA no Haiti: a fuga em massa. Desde o princípio, menciono aqui esta possibilidade e afirmo que a resposta rápida dos americanos ao terremoto, além de um ato solidário, expressava o medo de ter reprimir pessoas se lançando ao mar, em embarcações precárias.

Aliás, uma das medidas discutidas por Hillary Clinton com o presidente do Haiti, René Preval, foi a decretação de toque de recolher e maior poder para decisões típicas de período de emergência e guerra. No mesmo sábado em que Hillary passou por Porto Príncipe, os EUA disseram que compreendiam o esforço da República Dominicana e iam compensá-la por isto.

Os refugiados haitianos, dentro da Ilha Espanhola, podem fugir para a República Dominicana; no mar seu destino é os Estados Unidos. As fronteiras estão fechadas, mas é difícil conter tanta gente. Já há na República Dominicana um sentimento de hostilidade aos haitianos, uma vez que a busca de refúgio por razões econômicas tem sido constante.

Nas ruas de Porto Príncipe há quem reclame da presença americana. Para que tantas armas se precisamos de água e comida? Mas há um grande perigo de violência e as entidades que distribuem comida estão sendo, constantemente, ameaçadas.

Antes mesmo do terremoto, antes da eleições, já havia um acordo Haiti-EUA que dava aos americanos o controle da costa haitiana. Para eles é uma questão estratégica evitar o êxodo em massa. Os EUA já ocuparam o Haiti, já derrubaram e recolocaram presidentes, são parcialmente responsáveis pela falência do estado.

Por essas razões estratégicas e históricas, o Brasil deve se concentrar em fazer o bem e melhorar a qualidade de nossa ajuda, ao invés de, pura e simplesmente, mandar mais soldados a cada nova crise.

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Pesadelo logístico

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O porto foi danificado. O aeroporto, agora controlado pelos norte-americanos, não dá vazão aos pedidos de pouso e os primeiros alimentos chegados não têm quem os descarregue. A polícia nacional do Haiti praticamente desapareceu de cena. Muito possívelmente, o controle do país tem de ser passado às forças de paz – isto é à responsabilidade do Brasil.

Nosso país, entretanto, não tem condições de realizar a tarefa com seus 1300 homens. No momento, este efetivo está dedicado ao socorro e patrulhamento para evitar ondas de saques. Em pouco tempo, a presença norte-americana será dominante. Obama pretende mandar seis mil homens para garantir a segurança e dois porta-aviões, dotados de helicópteros, estão sendo deslocados para a costa haitiana.

Mas o fato de os norte-americanos entrarem em cena, inclusive com ajuda de US$ 100 milhões, não significa que o pesadelo logístico foi superado. As primeiras equipes de salvamento já chegaram, mas não têm equipamentos pesados para retirar o entulho. Isto faz uma enorme diferença. Em Angra dos Reis, quando uma escavadeira entrou em cena, foi possível trabalhar com rapidez e retirar os corpos. Antes de sua chegada, o trabalho patinava com esforço de mãos nuas e equipamentos leves como a pá.

Uma das primeiras lições que tirei do nosso trabalho é a de que não estávamos contando com um colapso nas comunicações. Indivíduos, que usavam uma das empresas telefônicas, conseguiram através do twitter manter contato com o mundo, assim alguns depoimentos pelo skype foram possíveis. Em termos de comunicação era preciso ter a leveza dos indivíduos usando as técnicas mais modernas.

Com isto seria possível alimentar a sala de situação no Brasil, com noticias sobre nossos soldados e funcionários. Na primeira hora depois do terremoto, propus que o Brasil coordenasse os socorros, em sintonia com os Estados Unidos. Mas Obama afirmou agora que isto é uma tarefa para a liderança norte-americana. Ainda assim, o papel da ONU é fundamental e as tropas de paz, que já estão no país, conhecem Porto Príncipe e até falam um pouco o idioma, vão ser decisivas nos primeiros passos para a reconstrução.

Sempre defendi que os EUA tivessem um papel maior que o Brasil. De uma certa forma, estávamos evitando, ao manter o Haiti em paz, grandes ondas de imigrantes clandestinos se lançando no mar.

Sarkozy afirmou que é preciso uma conferência internacional, convocada pelos EUA, França, Brasil e Canadá. Todos têm um vínculo como Haiti. A França colonizou, os EUA invadiram e não resolvem o problema, e o Canadá atraiu a inteligência haitiana que abandonou o país. Acontece que uma conferência agora não diz nada. O problema é logístico, de organização no terreno, tem uma urgência que demanda respostas rápidas. Depois de Copenhague, deveríamos economizar conferências.

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Com que face em Copenhague

clima e fim de ano

O Brasil apresentou suas metas de redução de emissões. Foi ótimo que assim o fizesse.

Afirmou que as metas não eram voluntárias. Isto enfraquece a proposta. Falta um ano para as eleições presidenciais. Como é um governo pode assumir um compromisso até 2020, se outros governos virão? A saída é transformar a proposta em lei. O próprio governo admitiu isto.

Ao mesmo tempo em que faz sua proposta, o governo aposta na contradição norte-sul e faz carga contra o suspeito de sempre, nesse tipo de debate, os EUA. Uma das teses que levei comigo nestes debates na França é de que, dada a natureza do problema ambiental, não seria a contradição e sim a cooperação o dínamo dessa nova história.

O governo se recusa a participar de um fundo ambiental. Argumenta que somos pobres. No entanto, o Brasil, diante do Haiti e Somália, por exemplo, é um país desenvolvido. Além do mais, mesmo se contribuirmos, acabaremos ganhando mais recursos porque a Amazônia de pé, interessa a todos. Já recebemos dinheiro da Noruega e este programa foi, inclusive, elogiado por Barack Obama.

Ao mesmo tempo em que faz uma proposta mais audaciosa em Copenhague, o governo brasileiro toma uma série de medidas contraditórias. Uma delas (ver artigo da Marina na Folha de São Paulo de hoje: http://tinyurl.com/ya4q4kh) foi a suspensão de multas para desmatadores. Outra muito grave foi uma redução do prazo para isentar impostos na energia eólica. O governo faz isso na véspera de um leilão que atraiu mais de 10 mil MW em projetos.

Outros indícios são muito sérios. O BNDES financiando usinas elétrica a carvão, a decisão de usar aço em casas populares, sem que o programa tenha examinado as alternativas mais sustentáveis. Enfim, tudo indica que a proposta do governo foi muito pouco pensada para o meio ambiente. Foi apenas uma plataforma para exercitar na Dinamarca o seu esporte predileto: o exercício da contradição, a critica aos EUA.

São reflexos que se entendem mais pelo passado. A natureza da questãoa ambiental, a ameaça à nossa sobrevivência no planeta, permitem que , pela primeira vez, a humanidade viva sua história como uma aventura comum. Isto não significa ignorar as diferenças, mas tratá-las como algo subordinado ao objetivo maior: um nível de articulação mundial e ações apropriadas em cada país.

Copenhague coloca um problema do século XXI e o governo está tentando respondê-lo com uma ótica do século XX. Vamos ver como todo esse drama se desdobra ao longo da semana. Como sempre, na reação ao aquecimento global, o tempo corre contra.

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