Cartas de Paris

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Apesar do frio, Paris está bonita e eis aí algumas idéias que estou defendendo aqui.  Estão sintetizadas:

1. o aquecimento global pela sua gravidade e urgência coloca, pela primeira vez, a possibilidade de a história humana se tornar uma aventura comum, na qual a colaboração supera a contradição;

2. Não será um processo linear. Exemplos: na medida em que o aquecimento se dá e a neve no Ártico começa a derreter, o que era consenso sobre a a administração da área começa a ser questionado pela Rússia. Nesse caso, o aquecimento divide. Da mesma forma, o strees hídrico em Dafur é uma das causas de uma guerra fratricida;

3. O trabalho de redução de emissões e adaptação ao aquecimento global depende de iniciativas multilaterais. A Europa está numa posição privilegiada, neste campo, pois sua experiência é o que há de mais avançado no mundo, em multilaterismo, sobrepondo-se a visões estreitas de soberania nacional;

4. A iniciativa multilateral não deve inibir iniciativas regionais ou acordos bilaterais. Ao contrário de Lula e o presidente francês, vejo como positivo o entendimento entre EUA e China. É melhor do que se estivessem competindo por recursos naturais. Também vejo como positivo entendimentos regionais na Amazônia. Mas o entendimento entre países da Amazônia é basicamente diplomático. Brasil e França tentaram um caminho midiático, daí o fracasso. É necessário criar cargos de embaixadores para aquecimento global e oferecer aos países amazônicos as informações que podem ser colhidas pelo SIVAM. Um serviço comum poderá ser o primeiro passo na união;

5. É necessário, dentro do espírito de responsabilidade diferenciada, que os países mais ricos invistam na mitigação do aquecimento global nos países mais pobres. Haiti e Somália, por exemplo, quase não emitem CO2. Precisam de ajuda para crescer e esta ajuda poderia ser, desde agora, voltada para o desenvolvimento sustentável;

6. É necessário uma flexibilidade maior no manejo das patentes, pois a transferência tecnológica desempenhará um grande papel. No caso da Amazônia, podemos financiar por algum tempo, dez anos digamos, a floresta em pé. Mas com o tempo, será preciso que a floresta encontre seu caminho econômico. Isto poderá ser feito com a ajuda da ciência e da tecnologia;

7. Não importa quanto reduzimos em CO2 e o aquecimento virá de qualquer maneira, embora num nível menor. A escala de tempo desses processos e também a retroação no clima indicam que é tarde demais para evitar que não tenhamos mais dois graus no aumento da temperatura média;

8. O Brasil decidiu lançar metas voluntárias. É preciso saber como alcançá-las e como financiá-las. Metas para 2020 às vésperas de uma eleição deixam as pessoas inseguras. É preciso que se transformem em lei;

9. O caminho para uma sociedade de baixo carbono não dever ser palmilhado pelo medo das consequências do aquecimento e sim pela divulgação das vantagens de uma nova vida. Acabo de ler um livro de Antony Guiddens sobre política de aquecimento global e ele tem uma intuição genial sobre o tema. Se Martin Luther King fizesse um discurso dizendo que tinha um pesadelo, ao invés de um sonho, a repercussão de suas palavras seria bem menor;

Há outros temas em discussão, mas estou em pleno trabalho. Na medida do possível, vou dando o balanço.

Abraços

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Todo dia é dia do meio ambiente

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Entramos na Semana do Meio Ambiente. Neste ano, há muito o que falar. Destaco dois temas para a reflexão. O que o mundo vai fazer depois do Protocolo de Kyoto? A reunião na Dinamarca,no final deste ano, vai nos dar a idéia do avanço possível na ação coletiva no combate ao aquecimento global. O dado novo é a mudança de governo nos EUA, embora isto ainda não seja o suficiente para grande otimismo.

Aqui no Brasil, o ministro Carlos Minc vive um inferno astral. Faz pouco mais de um ano que entrou no governo. Talvez dure menos que Marina Silva. Em ambos os casos, há uma certa frustração.

Desde quando o tema entrou na política, os governos aceitaram o meio ambiente como uma espécie de bolo na cereja. Queriam fazer tudo o que fazem normalmente e cuidar da natureza. Os ecologistas foram integrados às equipes de governo mas ficaram limitados a uma pequena área de atuação. Não poderia dar certo.

Marina intuiu esta limitação ao entrar no governo. Afirmou que o meio ambiente era uma questão transversal. Teria que estar presente em todas as pastas. Mas as palavras sozinhas não movem o mundo. O governo tem uma visão dos comunistas do leste europeu: crescimento agora e solução de problemas ambientais no futuro.

Portanto, tanto no plano internacional como no plano nacional, a Semana do Meio Ambiente é comemorada com muitas dúvidas. Felizmente, não se depende apenas de governo. A sociedade avança e, sobretudo, a ciência e tecnologia tornaram-se aliadas da causa ambiental. Antigamente, dizíamos: todo dia é dia do índio.

Todo dia é dia do meio ambiente.

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Uma nova época

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Obama. Um jornalista já observou como as três sílabas se pareciam com um balbuciar infantil, universalmente simpático. Ele chega à presidência trazendo a esperança da maioria esmagadora do povo dos EUA. E também do mundo inteiro.

Seu desafio é imenso: duas guerras, a primeira grande crise econômica do século. Ele tem apontado para uma presença racional do estado na salvação da economia e consegue associar este movimento com a luta contra o aquecimento global.

É uma espécie de combinação de Keynes com a propostas de Al Gore. Numa entrevista hoje à Gaúcha, uma jornalista me perguntou: mas essas grandes esperanças não podem resultar em frustrações? Minha resposta é que, antes disso, elas significam uma chance de vitória, pois quanto maior a disposição popular, melhor se avança.

Obama tem lido sobre a experiência dos primeiros dias de Roosevelt. Sabe que precisa conversar constantemente. Não será julgado pelas esperanças de agora, mas sobre a maneira como enfrentou a crise, suas vitórias e fracassos.

No primeiro discurso já antecipou isto: haverá dificuldades, falsos arranques, mas o resultado final será vitorioso. Esse permanente contato com o eleitorado e um discurso sincero podem fazer com que a passagem do mito para a realidade seja não traumática, até mesmo tranquila para todos nós.

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A era do meio ambiente

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Comemora-se o dia do meio ambiente, mas os dados são diferentes do passado. Entramos na era do meio ambiente. Será preciso não apenas deter o aquecimento global, se isso for possível, mas também reorganizar a produção, o consumo, as atitudes para fazer frente à degradação do planeta.

Nesse momento, conferências políticas como a do G8 na Alemanha, ambientais, como a que se realiza na Noruega, tratando do gelo, todas convergem para a mudança em relação ao meio ambiente.

Aqui no Brasil, o ideal seria também aprovar projetos. Há muito tempo já se esgotou o prazo da discussão pura e simples. É preciso agir. No entanto, a Câmara está atravancada com medidas provisórias, o Senado envolvido num escândalo – tudo isso dificulta uma resposta organizada do parlamento.

A decisão da ONU é de concentrar sua preocupação nos ecossistemas e pessoas da Antártica e do Ártico. A própria ministra do meio ambiente da Noruega, H. E.Helen Bjornoi, ressaltou a importância de falarmos agora sobre o gelo que se derrete: importância para o clima que perde um refrigerador, para os ecossistemas e pessoas que dependem dele, sobretudo na questão da pesca, para não falar do drama da água potável.

O gelo está se derretendo como conseqüência do aquecimento global. Tudo está em discussão por causa do aquecimento, uma espécie de problema ambiental que acaba sintetizando os outros.

Temos batalhado diariamente, no Brasil, desde o início da década dos 80 para passar esta mensagem. No momento em que o tema torna-se uma preocupação mundial, resta-nos, humildemente, o caminho de continuar trabalhando, agora não apenas para denunciar, mas estimular a ação.

Os pessimistas acham que a vida no planeta terra desaparecerá. Mas em quantos anos? Quem diz que uma ação correta não pode prolongar a vida? Temos um dever com as novas gerações. E vamos cumpri-lo, apesar das dificuldades.

Por um longo período, fomos considerados eco-chatos no Brasil. Agora, nosso país, segundo pesquisas reveladas hoje, é o lugar do mundo onde a preocupação ambiental cresceu mais, proporcionalmente. O que não significa ainda que estejamos na vanguarda. Mas, hoje, já sabemos da ameaça ambiental. E isso é um grande passo.

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As linhas de 2007

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É sempre complicado fazer um projeto de trabalho pessoal, dependendo de tantas variáveis coletivas. Mas agora que começou a nova legislatura, creio que devo falar das principais linhas desse projeto de trabalho, sem necessariamente aborrecê-los com detalhes.

No plano do meio ambiente a prioridade será o aquecimento global. Deve ser criada uma comissão mista no Congresso e vou participar dela, ainda que eles não queiram. A idéia é alinhar os principais aspectos onde o Brasil deve se prevenir, preparando-se ao mesmo tempo para uma revolução energética que está a caminho.

Pensei, inicialmente, em levantar as implicações do aquecimento na defesa civil (previsão de tempo e proteção de áreas mais vulneráveis), na saúde (possibilidade de ampliação de doenças como a malária e dengue) e também na agricultura (pesquisas sobre espécies resistentes ao calor).

Este processo deve levar todo o ano e, articulado com outras iniciativas, teríamos pelo menos uma espécie de visão nacional sobre o futuro do país no aquecimento global.

Uma das questões que me são caras é propor o reflorestamento da parte destruída da Amazônia, com ajuda internacional. O projeto seria controlado por brasileiros e o governo que está abrindo para que estrangeiros derrubem árvores, de forma sustentável, poderia se abrir também para os que querem planta-la.

No plano nacional, vamos insistir numa reforma política. Como ela vai demorar e é muito conversada, tentaremos destacar alguns tópicos para que sejam aprovados logo. O primeiro deles é o voto aberto no Parlamento.

Essas duas lutas devem informar as linhas gerais do nosso trabalho nesse primeiro semestre. Há coisas pendentes do ano passado, como a crise aérea, por exemplo, e, sobretudo no Brasil, hipóteses de crises que podem nos desviar.

Em linhas gerais vamos caminhar nessas duas direções, as vezes entrando em atalhos necessários, mas sempre nos referindo a elas.

Assim que puder, voltarei a falar do projeto de trabalho.

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