“Não adianta votar só porque é do PV”

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Fernando Gabeira estava em casa com a família, no Rio, quando soube pela TV da tragédia em Angra dos Reis. Não teve dúvidas: alugou um helicóptero e horas depois desembarcava na cidade. Foi o primeiro político importante a chegar.

Oportunismo? Há quem diga que sim, há quem discorde. Mas o episódio é emblemático. O ex-guerrilheiro que chocou o Rio, nos anos 80, ao aparecer na praia com uma sunga roxa, deixou de ser um político de nicho para ocupar espaço no grande jogo. A prova definitiva dessa virada veio em 2008, quando por muito pouco ele deixou de se eleger prefeito: perdeu de Eduardo Paes por uma margem mínima de votos.

Nesta entrevista ele olha para a frente, no caso de Angra, e avisa: “A BR-101 é uma estrada muito inadequada para ter uma usina nuclear”. E faz uma revisão crítica do Partido Verde, onde “muita gente entra” e depois de se eleger “tem comportamento semelhante ao dos partidos convencionais.” E arremata: “Eu não diria para os eleitores votarem numa pessoa só porque ela é do PV.”

O governador Sergio Cabral foi criticado por só aparecer em Angra no terceiro dia da tragédia. O que acha?

Acompanhei a retirada de alguns corpos. Minha posição é de estar presente em todos os desastres. Não se trata de demagogia, esse é o meu trabalho. Ir no dia seguinte me parece mais demagógico ainda.

É perigoso haver uma usina nuclear naquela região?

A BR-101 é uma estrada muito inadequada para ter uma usina nuclear, já que lá estão detectados mais de cem pontos de potencial deslizamento durante as grandes chuvas. Chegamos a interditar Angra I por três meses porque uma encosta podia cair sobre um depósito. Se analisarmos friamente, talvez hoje ela não fosse construída como foi. Além de ser uma área muito chuvosa, o solo não foi estudado devidamente e o estudo geológico foi precário.

Existem culpados pela tragédia?

A construção de estaleiros e a chegada dos ricaços atraiu muita gente em busca de trabalho, gente que se instalou em áreas precárias. Angra precisa de um plano muito rígido para deter esse processo de crescimento nas encostas. Precisa que impeçam a construção de casas de pessoas mais ricas. Briguei no Senado com o Ney Suassuna porque ele comprou uma ilha lá, dentro de uma estação ecológica. Os ricaços compram áreas onde há um pequeno posseiro e tomam conta.

Em Copenhague, Lula passou o comando da comitiva a Dilma. Foi uma boa escolha?

Não havia necessidade de colocar uma pessoa como a Dilma nesse processo. Não é sua área e ela não está familiarizada com o problema. Isso a levou a pequenos tropeços, como declarar que “o meio ambiente é uma ameaça ao desenvolvimento”, e a recusa em admitir que o Brasil poderia contribuir com países mais pobres – posição que foi adotada por Marina Silva e José Serra. A Dilma não mudou a qualidade da delegação brasileira.

O PV vai ter candidato próprio ao governo do Rio e não será você. Por que desistiu?

Ocorre que a campanha ao governo se dará em condições muito desfavoráveis. Eu teria que lutar contra a máquina do Estado e a federal – e contra muito dinheiro acumulado, além da ausência de qualquer escrúpulo. Isso torna os adversários muito fortes. Não queria levar a população a uma campanha onde quase se vence, mas se perde de novo.

Ficou algum trauma da eleição de 2008, vencida aos 45 do segundo tempo pelo Eduardo Paes?

Não é trauma, é que as condições são mais difíceis agora, porque entra o interior e lá a máquina tem peso maior. Não seria interessante fazer campanha para afirmar uma posição. Considerei ser candidato ao governo até o momento em que saiu a candidatura da Marina. Eu não poderia fazer campanha majoritária para ela com todos em torno de mim fazendo para o Serra. Isso levaria certa ambiguidade ao eleitor.

Como ex-petista, seu coração bate mais forte por Dilma ou Serra? Eduardo Jorge, ligado a Serra, está na campanha da Marina…

Meu coração não é partidário. Tenho a sensação de que existe um campo que envolve pessoas do PSDB, do PT e de outros partidos. Nas eleições presidenciais, estou com Marina. Mas acompanho o trabalho de Serra. Em relação a Dilma, ele tem experiência política maior. É já se submeteu ao voto popular.

O PV cresceu, dizem alguns, até demais. O que fazer para que não vire mais um partido fisiológico?

Essa deveria ser uma preocupação central do PV. Muita gente entra nele e, depois de eleger, age como se fosse de um partido convencional. Fazem acordos com qualquer governo e entram no “toma lá da cá”. Isso me constrange muito. Em alguns lugares do Brasil minha imagem foi usada para pedir votos para o PV e nem sempre o resultado foi satisfatório. Isso vai parar. Não aceito mais esse processo. Eu não diria para os eleitores votarem numa pessoa só porque ela é do PV. Dentro dele há candidatos iguais aos outros.

Na bancada você parece um estranho no ninho…

Sempre fui muito isolado na bancada. Nunca me aceitaram como líder.

Defende uma depuração no partido?

Esse processo levaria a um desgaste desnecessário. O ideal é olhar para frente e ter critérios mais rigorosos.

Que lição ficou do caso das passagens aéreas?

Foi um momento importante do meu mandato. Não posso dizer para a população que não cometo erros. A diferença é que, quando cometo, reconheço, reparo e corrijo. Paguei a passagem, devolvi R$ 86 mil de créditos.

O ex-presidente FHC está na cruzada pela descriminalização da maconha, que foi uma bandeira sua por muito tempo. Ainda é?

As bandeiras também evoluem. Hoje não posso mais dizer pura e simplesmente que é preciso descriminalizar. Tenho que dizer como fazer. Isso passa por uma reforma da polícia, que não tem condições nem de reprimir nem de liberar.

Você chegou a comprar sementes de maconha. Foi inclusive no governo FHC (risos). Nunca mais tentou?

Eram sementes enviadas da Hungria e destinadas a uso industrial. A ideia era fazer uma experiência em torno da exploração econômica, mas elas foram apreendidas. Houve um processo, mas fui absolvido. As sementes foram mandadas para os EUA para serem examinadas – se tinham alto teor de THC. Nem mandaram resposta nem devolveram.

A maconha até hoje o estigmatiza?

Em geral me chamam de “veado” e maconheiro juntos. Soltaram mais de um milhão de panfletos a meu respeito. Mas a população já não leva isso a sério.

Qual foi o efeito do tempo na sua postura política? Está mais pragmático?

Assumi um pouco mais a política, embora em todas as campanhas eu diga que é a última. Algumas pessoas da minha família até riem… Eu fazia campanhas para um público determinado. Com o tempo, a gente começa a ocupar um papel mais importante, a disputar eleições majoritárias. Quando passa a tentar representar muita gente, passa a ter visão mais à altura dessa representação.

(Entrevista dada à coluna “Direto da Fonte”, do Estado de São Paulo)

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Desatando o nó na Ilha Grande

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Visitei a Assembléia do Rio para discutir a Ilha Grande. Apesar do recesso, os dois deputados estaduais que poderiam me ajudar estavam trabalhando: Alessandro Molon, do PT, e Luiz Paulo Correa da Rocha, do PSDB. Saí com uma visão otimista a médio prazo. Se o governo não revogar o decreto que libera construções em zonas de conservação de vida selvagem, ele será derrotado na justiça.

Molon não apenas apresentou um projeto na Assembléia anulando a decisão de Cabral. Entrou na justiça contra ele. Quais as chances de vitória? Cem por cento, no entender de Luiz Paulo. O Tribunal de Justiça já deliberou sobre esse tema, no caso da Serra da Tiririca, em Niterói. O que o Tribunal afirmou ali é que áreas de proteção ambiental não se criam, nem se modificam por decretos. É preciso projeto de lei.

O Tribunal de Justiça, portanto, vai dar ganho de causa a Molon e derrubar o decreto de Cabral.

Entra aí uma observação importante de Luiz Paulo: a Área de Proteção Ambiental de Tamoios, modificada por um decreto, também foi criada por um decreto. O Tribunal deve anular tanto sua modificação quanto sua criação, para ser coerente com a lei.

Nesse caso, os dois deputados apresentam logo no primeiro dia de sessões um novo projeto, idêntico ao de Cabral, criando a APA de Tamoios, desta vez corretamente, através de lei. Com esse movimento, será possível anular o equívoco de Cabral sem jogar fora o bebê com a água do banho.

O bebê no caso é  uma Área de Proteção Ambiental indispensável para a preservação da Ilha

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Nuclear e deslizamentos

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Quando a Br101, no trevo de Angra, foi interditada, o prefeito Tucá Jordão pediu o fechamento temporário da usina nuclear. A resposta da usina foi ganhar tempo. Qual o argumento de seus diretores: há outros roteiros de fuga. Acontece que a Br101 é a saída principal. Todas as simulações de desastre na área, algumas deles participei diretamente, previam um fluxo desimpedido na estrada.

Não havia naquele momento não nenhum perigo de acidente. Mas o princípio de segurança deve ser mantido. O que talvez se queira evitar é uma reflexão um pouco mais aprofundada sobre a grande fragilidade em nossas usinas. Em primeiro lugar, foram construídas no meio do caminho entre dois grandes centros urbanos. Em segundo lugar, a estrada é frágil: em terceiro, o terreno também é frágil e sujeito a chuvas fortes, inclusive agora com mudanças climáticas previstas.

Lembro-me de que junto com o atual Ministro Carlos Minc chegamos a fechar por três meses a usina de Angra, através de uma ação na justiça. Qual era o problema: exatamente a falta de segurança numa encosta que ameaça, potencialmente, uma parte das instalações.

Os acontecimentos mostram que é preciso fiscalizar a região de Angra. E mostram que é preciso criar um serviço de geologia estadual e não apenas centrado na cidade do Rio de Janeiro, como existe hoje.

Esta é  a primeira lição de 2010.

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Sombras no paraíso

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Embora a pousada Sankay tenha sido construída há 15 anos, o Governador Sérgio Cabral dificilmente fugirá ao debate sobre um controvertido decreto, de junho de 2009. Neste decreto, ele autorizou a construção em áreas denominadas Zonas de Conservação de Vida Silvestre. Segundo alguns habitantes da Ilha, como o geólogo Alexandre Cuellar, o decreta libera construções em áreas como a praia do Bananal e aumenta a possibilidade de novos problemas na Ilha.

O Comitê de Defesa da Ilha Grande colhe assinaturas para derrubar o decreto. O deputado Alexandre Molon (PT) apresentou um projeto na Assembléia para anular a decisão de Cabral. Quem ler o texto, percebe que o Governador tomou precauções, ao decidir liberar novas construções , restringindo-as apenas às áreas já impactadas.

Como não existe nenhum serviço de geologia na área, o único existente está na cidade do Rio, o decreto precisa ser, no mínimo reavaliado. Construir em áreas impactadas significa construir em áreas que já foram, de certa forma, modificadas. No entanto, mesmo as áreas impactadas precisam ser objeto de estudo para que não aconteçam novas tragédias.

O interessante agora é examinar o mapa da Ilha Grande e determinar quais as áreas impactadas que foram liberadas para a construção. Até que ponto a decisão amplia o perigo sobre os freqüentadores e moradores da Ilha? Impossível deixar de debater esse tema, com todo o respeito que uma tragédia merece.

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Ainda sobre Angra

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O que era evitável na tragédia de Angra, neste verão. Mencionei o morro da Carioca por suas características nacionais de construção irregular em morros. Tinha dúvidas quanto à situação da praia de Bananal na Ilha Grande. Quem sobrevoa a mata atlântica percebe que há deslizamentos naturais, mesmo em áreas com pouco ou nenhuma interferência humana. Não seria o caso aqui, em Bananal?

Lendo os jornais de hoje, vejo duas entrevistas que me ajudam a pensar. Uma delas, do geólogo Álvaro dos Santos afirma que, exatamente pela precariedade dessas áreas íngremes na Serra do Mar seria melhor não licenciar construções como as da praia de Bananal. Num outro momento, a Secretária de Meio Ambiente do Rio, também geóloga, afirma que vai estender a fiscalização de terreno ao interior do estado pois um órgão especializado existe apenas na cidade do Rio.

No fundo, vamos repetir os debates que tivemos em Santa Catarina. Lá, apesar de todas as tragédias, há uma tentativa consistente de alterar o Código Florestal, dando mais liberdade para construir. Fizemos um encontro nacional sobre as chuvas em Santa Catarina, examinamos a necessidade de melhorar a defesa civil, mas ainda não chegamos ao ponto que foi sugerido pela entrevista do geólogo Álvaro dos Santos: rever os planos diretores pelo menos na região da Serra do Mar.

O deslizamento não era previsível aparentemente. Mas também não é previsível que chova tanto quanto choveu. Esta nova realidade, produzida ou não pelas mudanças climáticas, precisa ser levada em conta. Aliás neste questão conceitual, lembro-me do furacão em Santa Catarina. Fui para a sala de crise e lá se discutia se era furacão ou ciclone. A NASA anunciava um furacão; cientistas nacionais afirmavam que era um ciclone. Tive uma intuição: a partir de certa velocidade dos ventos não importa se é furacão ou ciclone, a gente tem de sair correndo das áreas perigosas.

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Da mesma maneira agora: não importa se há ou não conexão com mudanças climáticas. Se começa a chover 50 milímetros numa só noite toda a construção do tipo da pousada Sankay passa a ser perigosa também.

Conversando com o vice-governador, ontem, ele me disse que havia umas 150 casas em perigo, na região de Angra. Mas as pessoas resistiam em sair, com medo de perder suas coisas. Não era possível também deixar um policiamento só para tomar conta, porque não é razoável colocar a polícia vigiando uma área que pode desabar. Mas ainda assim, é preciso concluir agora, com novos dados geológicos, o que é ou não perigoso naquela área. É preciso criar um sistema de alarme que possa informar sobre grandes chuvas. Já há um sistema para acidentes nucleares. É preciso fazer uma síntese dos dois mecanismos de proteção. Mas para isso, precisamos também melhorar nossa capacidade de previsão metereológica e coordenar com a defesa civil local as medidas de segurança.

Um exemplo: havia mais ou menos cem bombeiros de fora de Angra, que foram participar da segurança da procissão marítima de entrada de ano. Será que todos sabiam com alguma antecedência do perigo, ou a notícia do temporal chegou tarde?

É atrás desses pequenos detalhes que às vezes corro para pensar um bom trabalho de defesa civil para o país. Quando este trabalho existir, vai haver força também para fazer com que as administrações municipais se enquadrem. Um passo que deverá ser ampliado este ano é o de levar a defesa civil para os currículos escolares. É preciso mudar a cultura porque isto se tornou uma razão de sobrevivência.

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Tragédia em Angra

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Angra foi atingida por uma chuva de 50 milimetros numa só noite. Choveu em algumas horas, a média mensal da região.Visitei a praia de Bananal onde parte de uma pousada – a Sankai – e duas casas de turistas foram soterradas. Só ali, calculam os moradores, morreram quase 40 pessoas, 15 nativos da Ilha Grande e 25 turistas. Mas esses números são imprecisos ainda.

Em outro ponto da cidade, o morro Carioca, morreram 20 pessoas. Quem passa por Angra, constata ainda da estrada o crescimento de moradias irregulares. É uma área extremamente perigosa no verão. Mesmo a BR-101 costuma ter mais de 200 pontos de deslizamentos. Esta é uma das razões pelas quais condenamos a maneira como se trata a questão nuclear no Brasil. A área necessita de obras e um lugar com potencial de desastre precisa de estradas que sejam excelentes para deslocamentos em massa.

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Ao chegar no Bananal, e aí está a foto, vê-se que morro que desabou é muito íngreme. Ele praticamente cai sobre as casas que estão muito próximas da água. Segundo as pessoas que sobrevoam a região, esses deslizamentos são comuns na Mata Atlântica. A fotografia nos mostra um caminho óbvio e perigoso das pedras, terra e mato que caíram sobre as casas. Parte desta tragédia – principalmente a do morro Carioca – era previsível.

Conversei com algumas autoridades de Angra e elas disseram que estavam se preparando para o verão. Mas que havia alguns impasses porque tinham de dragar alguns rios e riachos e não conseguiam licença. Felizmente, o vice-governador estava conosco, ouvindo os lamentos. Com a  ajuda do governo federal é possível montar agora uma reparação e planos de emergência.

Mas a pergunta que precisa ser feita com números é esta: o quanto economizaríamos em vidas e recursos materiais se nos dedicássemos à prevenção com a seriedade que ela exige?

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Esta foto mostra a atividade dos bombeiros, retirando corpos, e também a presença de uma escavadeira, emprestada pela Vale do Rio Doce, o que aumento a rapidez no trabalho. Imagino que a partir de amanha, seja possível usar cães farejadores para terminar o doloroso trabalho de retirada dos corpos e, para tristeza de todos que estavam, o que restou desses corpos.

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