Com que face em Copenhague

clima e fim de ano

O Brasil apresentou suas metas de redução de emissões. Foi ótimo que assim o fizesse.

Afirmou que as metas não eram voluntárias. Isto enfraquece a proposta. Falta um ano para as eleições presidenciais. Como é um governo pode assumir um compromisso até 2020, se outros governos virão? A saída é transformar a proposta em lei. O próprio governo admitiu isto.

Ao mesmo tempo em que faz sua proposta, o governo aposta na contradição norte-sul e faz carga contra o suspeito de sempre, nesse tipo de debate, os EUA. Uma das teses que levei comigo nestes debates na França é de que, dada a natureza do problema ambiental, não seria a contradição e sim a cooperação o dínamo dessa nova história.

O governo se recusa a participar de um fundo ambiental. Argumenta que somos pobres. No entanto, o Brasil, diante do Haiti e Somália, por exemplo, é um país desenvolvido. Além do mais, mesmo se contribuirmos, acabaremos ganhando mais recursos porque a Amazônia de pé, interessa a todos. Já recebemos dinheiro da Noruega e este programa foi, inclusive, elogiado por Barack Obama.

Ao mesmo tempo em que faz uma proposta mais audaciosa em Copenhague, o governo brasileiro toma uma série de medidas contraditórias. Uma delas (ver artigo da Marina na Folha de São Paulo de hoje: http://tinyurl.com/ya4q4kh) foi a suspensão de multas para desmatadores. Outra muito grave foi uma redução do prazo para isentar impostos na energia eólica. O governo faz isso na véspera de um leilão que atraiu mais de 10 mil MW em projetos.

Outros indícios são muito sérios. O BNDES financiando usinas elétrica a carvão, a decisão de usar aço em casas populares, sem que o programa tenha examinado as alternativas mais sustentáveis. Enfim, tudo indica que a proposta do governo foi muito pouco pensada para o meio ambiente. Foi apenas uma plataforma para exercitar na Dinamarca o seu esporte predileto: o exercício da contradição, a critica aos EUA.

São reflexos que se entendem mais pelo passado. A natureza da questãoa ambiental, a ameaça à nossa sobrevivência no planeta, permitem que , pela primeira vez, a humanidade viva sua história como uma aventura comum. Isto não significa ignorar as diferenças, mas tratá-las como algo subordinado ao objetivo maior: um nível de articulação mundial e ações apropriadas em cada país.

Copenhague coloca um problema do século XXI e o governo está tentando respondê-lo com uma ótica do século XX. Vamos ver como todo esse drama se desdobra ao longo da semana. Como sempre, na reação ao aquecimento global, o tempo corre contra.

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Morte interrompe os trabalhos

A morte do médico José Aristodemo Pinotti, um político de alto nível, interrompeu os trabalhos na Câmara. Ele merece a homenagem. Cancelamos a audiência pública que trata do acordo entre o Brasil e a Santa Sé. Este acordo deverá ir ao plenário depois de passar por nossa comissão. Há muita divergência. Os evangélicos reclamam, as feministas reclamam e os especializados em questões trabalhistas também reclamam.

O ponto mais delicado é o que diz respeito ao ensino religioso. Vamos ensinar religião na escola, ou vamos ensinar a história e a sociologia da religião.

No Meio Ambiente, debates sobre a Amazônia, com os atores de sempre. Na porta da comissão, concedi uma entrevista à TV Câmara sobre a proibição da importação de pneus usados e para uma rádio americana falei da Amazônia.

Mas foi manhã de luto, mais do que trabalho.

SAIBA MAIS SOBRE JOSÉ ARISTODEMO PINOTTI

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Minc presta contas

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O Ministro Carlos Minc, num café da manhã com a Frente Ambientalista na Câmara, prestou contas de seu trabalho de duas semanas. Ele informou que, ao ser nomeado, conseguiu do Presidente, inicialmente, a promessa de que seu ministério teria voz nas questões de saneamento e política industrial, algo que não existia no passado.

Minc afirmou que foi à Alemanha e conseguiu mudar a posição brasileira de defesa do etanol, para que não fosse uma defesa genérica, mas apenas do etanol da cana de açúcar, abrindo, assim, uma frente com os ambientalistas. O Brasil estava sozinho com a Indonésia.

A oferta da Noruega, de 100 milhões de dólares por ano, durante cinco anos, é o principio de um fundo internacional para a Amazônia.

A segunda parte da exposição de Minc prendeu-se à Amazônia. Ele disse que desarmou uma articulação de Blairo Maggi para tornar sem efeito as medidas repressivas contra o desmatamento. Usou para isto a tática de falar com cada um dos governadores.

Minc prometeu preço mínimo para os produtos da floresta, o que pode ajudar as reservas extratativistas. A medida vale, entre outros, para o guaraná, a castanha e o açaí.

Finalmente, falou que o governo vai destinar R$1 bilhão para a regularização fundiária na Amazônia e prometeu continuar combatendo o desmatamento. Minc garantiu que, na maioria dessas medidas, conta com o apoio de Lula e que o presidente garantiu a ele que não permitirá que se amplie a área legal de desmatamento nas propriedades amazônicas, fixada hoje em 20 por cento.

Vamos examinar o que acontece nos próximos dias. Minc afirmou que as empresas, tanto na Amazônia como fora dela, vão ter de ter sua lista de fornecedores, para evitar que se compre madeira ilegal. Deu um prazo de 60 dias, o que me pareceu curto. De novo, esperar para ver. Minc foi muito aplaudido pelos deputados da frente e ONGs que compareceram ao café da manhã.

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Notas para o pós carnaval

Dizem que, sob certos aspectos, o ano novo no Brasil só começa depois do carnaval. Mas já é hora de falar dos planos, uma vez que 2008 promete dar muito trabalho.

É impossível planejar sem levar em conta as eleições municipais que vão ocupar o centro do debate político.

Já estamos reestruturando o Cidade Sustentável para fazer frente à demanda que o tema da administração urbana vai revelar.

Quando inauguramos o site, nas eleições de 2004, nossa intenção era fazer com que, através da rede, as cidades fossem vasos comunicantes. Mantivemos o esforço de levantar todas as iniciativas vitoriosas no campo da sustentabilidade urbana para divulgá-las no Brasil.

Precisamos fazer mais. Nossa intenção é a de cobrir as eleições municipais, destacar pontos programáticos e abrir, o site, para artigos de candidatos que tenham algo a nos dizer, independente de seus partidos.

Esperamos oferecer um quadro da sustenbilidade nas propostas de campanha, sugerindo e contribuindo com todos que queiram avançar a administração urbana no Brasil.

Mas o ano também será de trabalho no meio ambiente, com o lançamento pelo governo de uma política em relação ao aquecimento. Estamos interessados em desenvolver vários temas e já apresentei um projeto para que tenhamos uma base mínima: um inventário atualizado das emissões brasileiras, certamente ampliadas com a colocação em funcionamento de mais de 20 centrais térmicas. Portanto, o tema da energia e também de seu uso racional estará na ordem do dia. A não ser que chova muito e o debate seja novamente adiado.

O Ministro Mangabeira Unger tentou iniciar um debate sobre a política do desenvolvimento da Amazônia. Parece que quis balançar um pouco o quadro, trazendo algumas propostas faraônicas, como o aqueduto da Amazônia ao Nordeste.

A transposição do São Francisco já é uma tentativa de atacar o problema. Durante muitos anos, trabalhou-se com a hipótese de fortalecer o processo de abastecimento do nordeste, usando as águas do Rio do Sono, um afluente do Tocantins.

De repente, ao invés de aproveitar esse debate, Mangabeira Unger sai com uma nova e cinematográfica idéia. Ele ignorou nas suas afirmações, ao dizer que a Amazônia não pode ser um parque, o fato de que a floresta em pé significa a prestação de inúmeros serviços ecológicos ao planeta, serviços que podem ser valorados e transformados em recurso para o desenvolvimento sustentável.

O Brasil é soberano na sua política sobre a Amazônia. Mas deveria reconhecer algumas coisas: outros paises detêm partes da floresta e era necessário uni-los, pelo menos em torno do podemos dar: informações. O Sivam, que nos custou um bilhão e meio de dólares poderia ser a peça fundamental nessa união.

O outro aspecto importante é reconhecer que, sem perder nenhum nível de soberania, a ajuda internacional é bem vinda, sobretudo porque é a maneira como se recompensam os serviços ambientais.

Também na política externa a América Latina, sobretudo Bolívia, Paraguai (que terá eleições), Venezuela e Equador vivem momentos especiais. Além disso há a crise entre Venezuela e Colômbia, precipitada pelo reconhecimento das Farc por Chavez e suas constantes acusações ao presidente Colombiano. O que é possível fazer em termos de Congresso? A maneira como podemos interferir é promovendo audiências públicas e discutindo com o governo.

Não temos excessivas ilusões. Mas alguma coisa é sempre possível mudar para que a política externa brasileira tenha uma cara de política nacional e não a cara de apenas uma corrente política. O Brasil deve fazer pressão para que sejam libertados os reféns da Farc e prosseguir condenando seqüestros. Aquele primeiro passo de ir participar de um show fracassado de Chavez foi muito desequilibrado, para dizer o mínimo.

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Trabalho em 2004

O velho Presidente Mao dizia que era impossível prever o futuro porque ainda não tinha acontecido. Os descobridores no século XVI usaram mapas que acabaram levando-os a lugares totalmente inesperados. Ainda assim, com toda a margem de erro, é necessário programar o trabalho para o ano que começa. Eis um esboço já discutido do trabalho, sujeito a modificações em função da ajuda das pessoas e da imprevisível sucessão dos fatos.

Estamos trabalhando com a hipótese de crescimento do Brasil nesse próximo ano, ainda que seja um crescimento pequeno. Ele marcará o início de uma recuperação, aqui e na América Latina, onde os índices de desempregos estão bastante altos.

No nosso setor, a questão da água deve ocupar um grande espaço e faremos tudo para que isso aconteça. Desde nossas responsabilidades com a garantia do mínimo de água necessário aos que ainda não a têm, assim como saneamento básico passam a ocupar a agenda. No campo do abastecimento, a transposição do São Francisco, tema sobre o qual já escrevemos muito, deve voltar à ordem do dia. No do saneamento, a existência de uma folga de R$ 2,9 bilhões para uso nesse setor (acordo com o FMI) pode representar o início de uma virada para o bem dos mais pobres, sobretudo a das 9 milhões de crianças que sofrem com essa lacuna.

A dimensão do trabalho no setor se completa com o esforço para aprovar a lei 1616 que dispõe sobre o pagamento pelo uso da água, assim como a instalação dos comitês de bacia e suas agências executivas que podem indicar que estamos levando, ainda que embrionariamente, a sério a questão dos recursos hídricos no Brasil.

Estaremos trabalhando ainda nas áreas contaminadas buscando uma política nacional para o setor e no problema da governança dos mares, tema que já mereceu imensos relatórios no Brasil mas não sai do papel, de forma coordenada.

Num ano de eleições municipais, vamos nos dedicar também à temática das cidades. Não sou candidato, mas ainda assim, considero que o interesse pela cidade vai crescer com a eleição e é um bom momento para recolocarmos questões como a da energia solar, da despoluição das praias e também, sobretudo, a paz urbana que deverá merecer um tratamento especial nessa página.

Estaremos na Amazônia, tentando concentrar nossos esforcos no debate sobre a terra do meio, área compreendida entre os rios Xingu e Tapajós. É uma área conflagrada e teremos de examinar inúmeros problemas dentro dela. A usina de Belo Monte, que pode ser um grande transtorno ambiental e humano, a pavimentação da BR 163. são apenas alguns desses problemas.

São algumas linhas gerais já definidas. Ao longo do ano, vamos definir um pouco melhor os detalhes e prestar contas dos avanços alcançados. Nossa agenda não coincide com a do governo, mas onde houver possibilidade de somar, estaremos presentes. O caso do saneamento básico é típico. O tema não tem charme para a mídia, nem interessa a políticos que querem obras a céu aberto. No entanto, em torno dele pode se formar uma sólida frente de médicos, sanitaristas, assistentes sociais e ecologistas.

Poucos temas contabilizam a salvação de vidas humanas, no curso de seu avanço. O saneamento básico é um deles. Na frente com a medicina continuaremos fortalecendo o programa contra AIDS no Brasil e participamos de uma frente recém criada para tratar das hepatites, sobretudo a hepatite C, outra grande vilã da saúde pública no país.

Só o esboço para começar o ano já indica como teremos trabalho pela frente.

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Balanço da viagem a Paris

Paris – Em algumas palavras, um balanço da viagem a Paris, onde me encontrei com os verdes franceses para discutir uma melhor articulação internacional em função dos novos problemas que teremos de enfrentar nos próximos meses.

A idéia de uma articulação internacional foi o tema da primeira reunião, ainda na sexta feira. Dela participaram também dois deputados belgas no parlamento Europeu um verde de Berlim e os núcleos que preparam a criação de partidos verdes na Grécia e Turquia.

Foi uma espécie de continuação de uma reunião realizada em Canberra (Austrália) exatamente com esta finalidade. Só que o trabalho internacional conjugado ainda não está funcionando e os problemas que temos de enfrentar se agravaram.

Sábado de manhã, num barco ancorado no Sena, fiz uma breve exposição sobre o Brasil e pedi atenção para dois temas: 1) Caiu a moratória brasileira sobre alimentos transgênicos, com a decisão do governo de liberar. Isto significa que a Europa está cada vez mais cercada, pois não há grande produtor de grãos hoje que não plante transgênicos. O Brasil fechou o círculo já estendido pelos Estados Unidos, Argentina e Canadá. Isto quer dizer que os europeus trabalham agora com mais limitações, e no final do mês devem tomar uma decisão sobre o tema. Informei também que algumas cooperativas produtoras no Brasil estão vendendo soja transgênica como se fosse convencional e que nosso esquema de fiscalização é quase nulo. Mais um problema para a segurança alimentar mundial, isto é a segurança de quem já tem comida e prefere algo menos perigoso;

A Amazônia foi o segundo tema. A Inglaterra decidiu cortar sua ajuda à Amazônia argumentando que precisa canalizar dinheiro para a reconstrução do Iraque. Creio que isso deveria ser um tema de debate lá e aqui. Já é difícil conter o avanço da soja na Amazônia assim como neutralizar o discurso dos produtivistas que querem ganhar dinheiro aqui e agora, passando por cima de duas riquezas essenciais do Brasil: a diversidade cultural, expressada pelas nações indígenas, e a diversidade biológica, contida na mata ainda virgem.

Ainda no sábado, participamos com os verdes franceses da manifestação final do Fórum Social Europeu, na Place de la Republique. Mais ou menos 100 mil pessoas vieram às ruas pedir uma outra mundialização. Havia de tudo, inclusive anarquistas e autônomos. Muitas dúvidas sobre a experiência brasileira, mas, de um modo geral, evitei fazer criticas publicas ao governo, fora do país. A entrevista que o Le Monde publicou no sábado foi feita aqui no Brasil.

Na segunda feira, na Assembléia Nacional francesa concedi entrevista coletiva junto com Noel Mamére, deputado verde que foi o candidato do partido às eleições presidenciais do ano passado. Expressei o apoio à iniciativa dos verdes que criaram uma CPI lá par apurar a intervenção de militares franceses na preparação da tortura no Chile, Argentina e Brasil. Informei que apresentei duas moções nas comissões de direitos humanos e relações exteriores da Câmara brasileira.

Finalmente, recebi Camille Cabral, a transsexual brasileira, que é vereadora em Paris e faz uma grande campanha contra a AIDS. Camille organizou uma homenagem para mim, nos debates feitos na Bolsa de Valores, intitulados “A Bolsa ou a Vida”. Infelizmente, tive de atrasar a viagem por causa da votação da medida provisória dos transgênicos no Brasil. Prometi apoio à luta dos travestis e transsexuais brasileiros em Paris e sugeri uma frente com os que estão na Itália e também com as profissionais do sexo que trabalham em Bragança, Portugal, e foram objeto de uma capa da revista norte-americana “Time”.

Camille quer mais apoio e flexibilidade dos políticos que, de um modo geral, ainda subestimam a luta das profissionais do sexo. Estabelecidos inúmeros contatos com os verdes europeus, ficamos de formular um projeto de website que possa ser o instrumento de nossa atuação conjunta.

Esse é um quadro ligeiro. Voltaremos a esses temas, ao longo do trabalho cotidiano. As fotos da manifestação dão uma idéia do alcance do movimento e as fotos da cidade, uma ligeira idéia do outono que avança rapidamente para o inverno.

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Quando as leis matam

Um avião Cessna foi bombardeado na Amazônia peruana.

O bombardeio resultou na morte da missionária norte-americana Roni Bowers e sua filha Charity, de sete meses de idade.

Dito assim parece um simples acidente, desses que acontecem na região, coalhada de pequenos aviões levando gente e equipamentos. No entanto, por incrível que pareça, a morte da missionário e seu bebê é morte anunciada e seus responsáveis finais são os próprios governantes norte-americanos. Daí, a prudência de Bush, dizendo que vai examinar todos os detalhes, antes de tomar posição.

A raiz dessa morte anunciada é a pressão norte-americana para que todos os paises amazônicos derrubem aviões que não atendam ao comando de aterrisar. Isto porque podem estar levando drogas. Para salvar os narizes norte-americanos, aceitamos condenar a morte quem não ouviu os apelos de baixar.

Poucos sabem, mas essa lei, que permite abater aviões que não atendam às ordens de aterrisar, foi aprovada no Congresso brasileiro. Contra meu voto. Na época, além de me bater contra o governo , tive de me bater também contra o PT. Por incrível que pareça, o Partido dos Trabalhadores foi o defensor mais agressivo dessa política ditada pelos norte-americanos. Não porque quisessem agradar aos norte-americanos mas para mostrar que estão em sintonia com os desejos de nossos militares.

A aprovação dessa lei foi uma barbaridade. Ela introduz a pena de morte e o faz de maneira espúria, pois teria de transformar a Constituição. Além disso, é uma pena de morte sem julgamento. É uma pena de morte que atinge não só o piloto como a toda tripulação.

O que aconteceu no Peru confirmou nossas piores previsões. O piloto levou um tiro na perna, mas dois passageiros morreram, a mãe e o bebê.

Aprovada pelo Congresso, a lei ainda não foi regulamentada pelo Presidente da República. Ele foi advertido da barbaridade que estaria assinando, pelo então Secretário nacional antidrogas, Walter Maierovitch.

FHC recuou apenas momentâneamente. Se for pressionado pelos americanos, vai ceder. Eles têm ,como moeda de troca, as informações que seus radares colhem sobre o espaço aéreo amazônico. Com o Sivam, entrando em, cena, o Brasil poderia passar sem essa ajuda americana.

É um problema gravíssimo que ficou meio esquecido pela mídia. Infelizmente, o que prevíamos em nossos discursos na Câmara acabou acontecendo: a morte de inocentes.

Aos americanos, interessa um clima de guerra na Amazônia. Mantêm a luta contra as drogas fora de suas fronteiras e, se houver uma chance, aproveitam o caos para ficar mais ainda o pé na região.

Gostaria de começar a semana discutindo isto. Pedindo ao presidente que vete a lei, para que possamos rediscutí-la no Parlamento. Mas a lama em que o Senado se envolve, as denúncias de corrupção, tudo isso tornará difícil qualquer iniciativa de mais longo alcance.

Por incrível que pareça, estamos nos desintegrando exatamente no momento em que é feita a maior pressão sobre o Brasil, no sentido de integrar à Alca. É uma decisão que marcará gerações. Ainda bem que é possível contar com um Congresso interessado em debates, a partir de 2002. Este de agora sairá da corrupção e entrará direto na campanha eleitoral. Poucas esperanças, portanto.

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FNAC, a chegada de uma velha conhecida

Esperei notícias da Petrobrás. Ontem, disse que o derramamento de óleo na bacia de Campos foi de 13 mil litros. Hoje, fiquei sabendo que era de 26 mil. O dobro. Mais uma vez a Petrobrás anunciou pela metade o volume de óleo derramado.

A novidade é que agora estamos tendo desastres nas plataformas. Começou com navios, passou pelos dutos e chegou a plataforma. Só mesmo uma auditoria em todas as instalações da Petrobrás vai indicar o rumo das mudanças.

Aliás, isto já foi determinado pelo Conama, numa sessão em que eu estava presente.

Tirei o feriado para conhecer a Fnac , que acaba de chegar ao Brasil. É um imenso supermercado cultural. Funciona no Barra Shopping, no Rio.

Conheci a Fnac em Montparnasse. Era asilado político. Quase não tinha dinheiro. Era uma tentação ver tanto livro, tanta música e equipamentos de sonho, como os vários modelos da Leica. Agora, ela está também em Les Halles, onde visito mais.

Vi a Fnac surgindo em Berlim. Era luxuosa. Quando deixei Berlim, em 92, já se falava no fechamento. Não tinha dado muito certo em Berlim, embora exista também em Nova Iorque, onde o consumo cultural é muito grande.

Saí sem comprar nada. Voltarei para ver se há alguma coisa nos detalhes. De um modo geral, o setor de fotografia é limitado. Disseram-me que o de histórias em quadrinho também. Nao encontrei, por exemplo, a camara digital da Nikon D1. Na verdade, os principais sistemas não estavam representados com sua top de linha

Tudo bem. Não sou crítico de supermercados culturais e espero que haja consumo suficiente para manter a Fnac de pé. De uma certa forma, seu estilo já havia sido inaugurado em São Paulo e no Rio, com megalivrarias. A Saraiva do New York Center já é de grandes dimensões, vizinha da Fnac. O que desequilibra, a favor da Fnac são os livros importados e as seções de aparelhos de som e informática.

Enfim, simbolos da globalização vão surgindo aqui e ali, como se para nos lembrar que, de certa maneira, o mundo hoje é um só, apesar do desconforto de grande parte de seus habitantes.

Agora, é preparar o trabalho da próxima semana. Será dificil conseguir alguma coisa de concreto, fora do tema corrupção. A notícia de que o rombo na Sudam era de R$ 1,7 bilhão teve um impacto enorme. É só parar para pensar nessa cifra. E imaginar o quanto não poderia ter rendido num projeto de desenvolvimento sustentável para Amazônia. A mesma classe dominante predadora, em relação ao meio ambiente, é que corrói os cofres públicos.

É preciso um projeto de salvação e desenvolvimento econômico para a Amazônia. Quem serão os interlocutores?

Os militares são interlocutores importantes. Mas e os politicos e empresários? Em quem confiar, como desenvolver mecanismos de controle social. Estados como o Acre e o Amapá, dirigidos pela esquerda, poderiam ser um bom experimento. Até que ponto se pode formar, através do estado e setores populares, uma frente de desenvolvimento sustentável. Que papel definiriamos para a ajuda estrangeira? Com conciliá-la com nossa visão soberania?

As ONGs aparecem também como um grande ator, embora tenham de estar abertas para receber o mesmo nível de crítica de que todos que estão na cena pública.

E a Funai, o que é isso? Muito rejeitada pelo governo, embora pudesse ser um grande instrumento, inclusive no diálogo internacional?

Essa história da Sudam não pode ficar assim. Além de se desvendar a corrupção será necessário um novo caminho.

Vou aproveitar para tentar introduzir esse debate nas comissões em que trabalho: meio ambiente e minorias, segurança nacional e relações exteriores e direitos humanos.

É preciso que a comissão da Amazônia tenha um papel dinâmico nesse debate porque os deputados da região estão concentrados nela.

Meu primeiro passo foi convidar para falar sobre a Amazônia o general Alceste, comandante da região militar. Conhece muito bem a área que comanda : quatro milhões de quilômetros quadrados, maior que toda a Europa, sem a Russia.

Pensar que nessa região estrategicamente vital, o Brasil jogou pelo ralo quase dois bilhões de reais. O governo finge que não é com ele, mas quem governava o Brasil quando tudo isso se perdeu? Quem deveria controlar?

Quando o governo olha os movimentos da Sudam de fora, parece aqueles conquistadors que passam a mão nas mulheres e se desculpam dizendo que foi um gesto irresistivel, como se a mão fosse autônoma, isentando seu dono de qualquer responsabilidade.

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Um encontro com Jospin

Conversa com Lionel Jospin, no Paço Imperial. Ele queria falar de diversidade cultural, do papel do estado nesse campo. Queria também falar um pouco da mundialização e seus reflexos .

Fez uma intervenção de uns quinze minutos. Éramos nove convidados e tínhamos mais ou menos uma hora e meia para conversar. Jospin ouvia um a um. E respondia a cada intervenção.

Roberto D’Avila foi o mediador. Decidiu me dar a preferência porque era o único deputado. Falei uns cinco minutos. Para mim, o lance decisivo para a cultura brasileira será vivido na Alca. Mercado comum desejado pelos norte- americanos talvez não seja nosso caminho. Pelo menos, como disse Celso Lafer, não será um destino, mas uma opção.

A Alca trata do comércio cultural, sobretudo de filmes. Os norteamericanos não querem barreira nesse campo. Nossa perspectiva, creio eu, será a de ir empurrando a Alca com a barriga e desenvolvendo relações multilaterais, aprofundando o Mercosul , ampliando as relações com a Europa e alguns paises asiáticos. Por que apostar tudo num único cavalo?

Falei que tanto no campo cultural como no campo da economia a grande saída era buscar um pouco de autonomia nacional. Falei do caso dos remédios contra AIDS. Os norteamericanos não querem que surja aqui uma medicina popular, produzindo remédios baratos. Na verdade, é como se nos colocassem um revólver na cabeça e dizessem:os royalties ou a vida?

Não usei essa imagem. Mas ela expressa meu sentimento. Falei da questão amazônica, do perigo de uma guerra bioólogica. Escrevi um artigo sobre isto no www.no. com.br.

Finalmente, disse que não estava em jogo apenas uma resistência aos Estados Unidos. Mas estava em jogo buscar um nível de autonomia para a política, uma maneira de influenciar o mundo diante das forças cegas do Mercado.

Jospin reagiu muito bem. Achava importante ampliar as relações entre Brasil e Europa, realizar filmes em conjunto.

Apoiava a luta do Brasil, africanos e asiáticos para produzirem remédio barato para seus povos. Mencionou até o protocolo de Kyoto como um documento essencial, lamentando a decisão de Bush de se retirar dele.

Todos estamos buscando uma relativa autonomia diante do poder hegemônico dos Estados Unidos. A França faz isto de um modo mais aberto. O Brasil é mais tímido.

Se não fosse, acredito que Brasil e França tivessem produzido uma declaração conjunta exortando os Estados Unidos a voltar a fazer esforços para reduzir a poluição no planeta. Mas tudo indica que não queremos pressionar os Estados Unidos nessa questão vital para a humanidade.

O momento mais engraçado do debate foi quando Luis Carlos Barreto falou, em françês que a indústria cinematógrafica brasileira estava a meia bomba. Jospin não entendeu. O embaixador Macos Azambuja explicou, no seu ouvido, o que significava meia bomba. Jospin riu. Rimos todos. Um toque brasileiro isso de usar uma imagem sexual para descrever o estado de uma indústria.

Estou exausto. Amanhã continuo.

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Fronteiras do futuro IV

Surucuru – Quem vive nas praias e nos shoppings não pode imaginar esta vida. Em construções de madeira, soldados, mulheres e filhos vivem na floresta, isolados do mundo. Seu único ponto de escape é a pista que também foi o a alavanca desse posto avançado.

Primeiro, foi preciso baixar e construir a pista.

Depois, trazer todo o material de construção. Em seguida, desmontar equipamentos para que coubessem no avião. Resolver o problema de energia, construindo uma mini hidroelétrica aproveitando a queda do rio. Tudo, tudo, foi cavado com muito esforço. E o cotidiano não é simples.

Os soldados não ficam parados no posto. Saem em missões de reconhecimento, andando dias pela selva. Seus únicos vizinhos são os índios yanomamis. Recentemente, houve denúncia de que estavam assediando sexualmente as índias.

Foi difícil constatar isto in loco. O deputado Marcos Rollim, do PT do Rio Grande, andou por aqui fazendo um relatório que incirimina alguns soldados. No entanto, muitos pontos do relatório, em que pesem a boa vontade de Marcos, não se sustentam no confronto com a realidade.

Ele diz que os soldados fazem cocô e poluem o rio.

Mas o rio está muito longe da maloca yanomami e, além disso, seria preciso um verdadeiro fenômeno gastroinstestinal, como constatou o deputado Antônio Feijão, para que essa hipótese fosse verdadeira.

Deve ter havido contato entre índias e soldados brancos.

Deve ter havido sexo entre eles. Algumas índias confessam que tiveram relações mais ou menos estáveis.

A categoria assédio sexual, tal como foi definida no parlamento, talvez não se aplique aqui.

O que me parece cristalino é que não houve cumplicidade do Exército. As famílias daqui, elas próprias, censurariam esse intercâmbio interétnico pois pode até ameaçar sua própria segurança.

Algo que me chamou atenção no posto: um pequeno laboratório onde se fazem exames de sangue, colesterol, urina e outros.

Nos postos da selva há laboratórios para detectar doenças tropicais e vírus estranhos. É um convênio do Exército com a Fundação Osvaldo Cruz.

Vejo aí um grande caminho. Ampliar esses laboratórios para que pesquisem não só as doenças tropicais, mas também os remédios da floresta. Isso poderia dar um grande impulso à medicina popular no Brasil, no momento em que estamos cercados pelos laboratórios multinacionais.

É necessário descobrir, analisar princípio ativo, se possível mapear o genoma (temos capacidade para isto no Brasil) e garantir a patente para o Brasil, resguardando os direitos das populações indígenas.

Isso é um sonho. Mas a Amazônia é cheia de sonhos. A pista da Serra do Caximbo não existia. O brigadeiro Veloso, que era um brasileiro destemido, desceu pela primeira vez com os irmãos Villas Boas a bordo e acabaram viabilizando a rota aérea entre Manaus e o sudeste.

Estou cada vez mais convencido de que, por menor que seja, a estrutura do Exército na selva, para nós que nada temos, é um verdadeiro avião. Poderemos voar com ela, se conseguirmos atraí-los para uma política ambiental comum.

É preciso primeiro romper com os preconceitos do passado e evitar que se aproximem dos militares apenas os garimpeiros, madeireiros e grandes donos de terra.

Temos de ampliar o diálogo. Sem medo. Talvez jamais cheguemos a uma concordância total. Mas qualquer concordância, com a eficácia de sua presença na Amazônia, poder render frutos decisivos para o futuro.

Amanhã recomeço

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