De novo, subi a serra por algumas horas. Clara manhã de outono, asas deltas voando contra o azul lavado do céu. No caminho, vi um ipê amarelo numa curva, projetado contra o fundo verde da mata. Se ainda não houvesse uma bandeira do Brasil, essa imagem seria uma boa inspiração para a escolha das cores.
Os jornais dominicais discutem a crise. No fundo, todos conhecem o defecho: renuncia ou cassação. Mas vão alongando o assunto, porque é um momento em que as páginas políticas se reconciliam com seus eleitores.
De vez em quando, escrevo sobre isso. O jornalismo, antigamente, tinha como objetivo esclarecer os mistérios e buscar novos enigmas. O de agora, influenciado pelas telenovelas, alonga, mantém suspense, guarda suas revelações para o grande final.
Parto esta manhã para Porto Alegre para discutir os probelmas ligados a AIDS no Brasil e no mundo. Vou falar um pouco dessa luta do Brasil, África do Sul e Índia para produzir remédios mais baratos.
Na verdade, é uma luta muito mais ampla pois coloca em jogo a possibilidade de uma medicina popular nos países mais pobres. A estrutura das multinacinais acabou se revelando em contradição com a vida: é possível salvar mais gente, com menos dinheiro.
As multis argumentam que gastam muito em pesquisa. No entanto, gastam muito também em marketing, na disputa por mercados com as concorrentes.
Esse tema é muito importante. Dá para discutir em lugares fechados. Tudo que é muito importante deverá esperar um pouco o desfecho da crise.
Leio que Aécio Neves vai colocar a união civil de homossexuais como um tema, na pauta do dia 9. Devo me preparar de novo para defender o projeto da Marta Suplicy.
Da última vez que tentamos discutir, foi uma comoção, uma verdadeira desordem provocada pelos evangélicos.
Não acredito que haja clima, sobretudo porque a CPI está para ser criada e, quando for criada, não deixará espaço para outros temas.
É uma pena. Gostaria de continuar trabalhando, em paralelo à CPI, nos assuntos que não podem parar. Mesmo com a total indiferença da midia, é necessário prosseguir para evitar novos desastres com petróleo, leis de desmatamento, para fixar nossa posição nacional na conferência contra o racismo na Africa do Sul e, principalmente, para debater a Alca, Plano Colômbia, enfim temas que continuam a se desdobrar, apesar do foco estar apenas na corrupção e na violação do painel do Senado.
Um dos meus esforços na discussão da política brasileira para o encontro da África do Sul é a introdução do problema dos imigrantes como elemento central no debate sobre racismo. Ninguém se dá conta, mas 1,5 milhão de brasileiros já trabalham no exterior, com problemas de remessa de divisas, reunificação de familias, educacão das crianças, sobretudo em lugares onde pais clandestinos não podem matricular seus filhos nas escolas.
Claro que isto não esgota o tema do racismo contemporâneo. Mas, no meu entender, é o leito onde ele corre mais caudalosamente: a pressão dos nacionais contra os trabalhadores estrangeiros.
Fica anotado, para uma próxima.
Como sempre, no domingo, havia encontro de motociclistas na serra. Dessa vez, foram os donos de Harley Davidson. Eles são sinceros quando comparam suas máquinas com as japonesas. Consideram as japonesas mais desenvolvidas tecnologicamente. Mas, por outro lado, afirmam que a Harley é um mito, um modo de vida.
Essa capacidade que as marcas estão adquirindo no momento da história do capitalismo é inédita. Comunicam sentido de vida, num mundo sem deus e sem utopias
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