Um Papa contra a camisinha

daniela_mercory

O caso Daniela Mercury é mais um atestado da distância entre o Vaticano e a vida real. Exatamente na mesma semana em que ficamos sabendo do crescimento do número de pessoas afetadas pela Aids – 42 milhões no mundo, 600 mil no Brasil – o papa Bento XVI toma decisões radicais e inúteis como essa de barrar uma cantora brasileira porque participou de uma campanha de prevenção contra a Aids.

É preciso perder um pouco esse bom mocismo na política e na mídia e dizer com toda a clareza que a posição do Vaticano é irresponsável historicamente. Tive a oportunidade de afirmar isto para o representante da Santa Sé, numa reunião promovida pela ONU no Rio. Ele respondeu e quando ia contestá-lo houve muito deixa disso. Não queriam polemizar com a Igreja. A vantagem do atual papa é que sua radicalidade coloca de novo o tema na ordem do dia.

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Guaranis-caiuás, a geração ameaçada

Dourados – Quarenta e seis crianças estão internadas no Centrinho, um espaço destinado a elas, perto do hospital da Missão Caiuá, dirigida por presbiterianos. É um lugar limpo e tranqüilo. A missão trabalha com índios daqui há 70 anos. Tem uma ótima reputação mas só recebe R$ 15 mil mensais do governo.

Muitas crianças desnutridas estão aqui pela segunda vez. Ou a família não conseguiu alimentá-las, depois que saíram, ou simplesmente resolveu que era bom deixá-las algum tempo por aqui, onde há garantia de boa alimentação.

Depois do problema da desnutrição, o que mais me impressionou foi o número de crianças com algum tipo de paralisia cerebral. Eram quatro num grupo de 46. Soube pelos médicos que trabalham aqui que há pelo menos 40 casos na aldeia próxima a Dourados.

O primeiro problema: o Centrinho não tem como tratá-las. Elas precisam de fisioterapia e o lugar onde podem recebê-las é a APAE. Muitas moram distante e precisam de um carro para transportá-las. O governo, através da FUNASA, diz que tem uma van com esta missão. As mães não confirmam.

Quase todas tem mais de um filho e não podem se dedicar exclusivamente aos que nasceram paralisados. É preciso montar logo um esquema para iniciar o trabalho, pois muitas dessas crianças tem reações emocionais visíveis e não foi feito um exame sobre a situação de cada uma. Até que ponto são irrecuperáveis, até que ponto podem retomar sua atividade motora? Só uma assistência especializada pode dizer.

Quando for montado esse esquema, então será preciso fazer uma pesquisa sobre as causas. Alguns índios, com a anuência da FUNAI, arrendaram a terra para plantadores de soja. Quando jogam agrotóxicos na sua lavoura, o vento traz o veneno pelo ar, diretamente para a escola e para a aldeia de Agostinho, um caiuá de 83 anos.

A escola funciona num terreno doado por ele. Abriga 1490 alunos, que aprendem também em seu idioma. Agostinho pensou que o prefeito lhe daria uma pequena casa, como foi prometido. Até hoje espera.

Esse constante bombardear de veneno pode ter reflexo nas gestantes. Sempre evitando aquele sensacionalismo que cercou a cidade de Cubatão, onde nasceram crianças sem cérebro, é preciso investigar com seriedade.

As adolescentes fazem sexo muito cedo. Não são bem informadas, apesar da existência de 26 grupos religiosos trabalhando na aldeia. Já foram registrados alguns casos de AIDS e se algo não for feito agora, a aldeia pode voltar a viver mais um drama. O médico do Centrinho, Dr. Franklin Saião, que se dedica aos caiuás, acha que quanto mais rápido se agir, menor o impacto dramático no futuro próximo. No momento, apenas as gestantes fazem os testes. É preciso saber qual a situação real. E estudar maneiras de abrir na cultura caiuá um espaço para o uso de camisinhas.

Outro problema central, às vezes mais sério que a desnutrição, é a falta de água. Embora próxima de Dourados, a aldeia não tem água nem esgoto. Um homem de 89 anos, Nicolau Benitez chegou por aqui vindo do Paraguai, na época em que colhiam a erva mate laranjeira, contou que dois riachos banhavam suas terras. Ambos morreram. Morreram envenenados e soterrados por uma agricultura predatória dos fazendeiros que cercam as terras dos índios.

Num quadro de tantas dificuldades, o alcoolismo se propagou. Muitas famílias foram atingidas e uma professora, Edna Marçal, filha de Marçal de Souza, um grande líder guarani, revelou que já houve casos de crianças chegarem com cheiro de álcool na escola.

Antes da cachaça vendida pelos brancos, os índios consumiam a chincha. Uma aguardente de batata, milho ou mandioca (aipim). Tinha um baixo teor alcóolico e perto do que se vende agora era quase inofensiva. O intercâmbio cultural, nesse aspecto da bebida predileta, foi um desastre para eles.

Seria simplificar o tema, apontar como causas do alcoolismo as dificuldades materiais. Mesmo sem pretender explicá-lo em profundidade é preciso se aproximar dele. Tanto o alcoolismo como a onda de suicídios precisam de uma avaliação, pelo menos provisória. Vou tentar fazê-la Amanhã.

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Balanço da viagem a Paris

Paris – Em algumas palavras, um balanço da viagem a Paris, onde me encontrei com os verdes franceses para discutir uma melhor articulação internacional em função dos novos problemas que teremos de enfrentar nos próximos meses.

A idéia de uma articulação internacional foi o tema da primeira reunião, ainda na sexta feira. Dela participaram também dois deputados belgas no parlamento Europeu um verde de Berlim e os núcleos que preparam a criação de partidos verdes na Grécia e Turquia.

Foi uma espécie de continuação de uma reunião realizada em Canberra (Austrália) exatamente com esta finalidade. Só que o trabalho internacional conjugado ainda não está funcionando e os problemas que temos de enfrentar se agravaram.

Sábado de manhã, num barco ancorado no Sena, fiz uma breve exposição sobre o Brasil e pedi atenção para dois temas: 1) Caiu a moratória brasileira sobre alimentos transgênicos, com a decisão do governo de liberar. Isto significa que a Europa está cada vez mais cercada, pois não há grande produtor de grãos hoje que não plante transgênicos. O Brasil fechou o círculo já estendido pelos Estados Unidos, Argentina e Canadá. Isto quer dizer que os europeus trabalham agora com mais limitações, e no final do mês devem tomar uma decisão sobre o tema. Informei também que algumas cooperativas produtoras no Brasil estão vendendo soja transgênica como se fosse convencional e que nosso esquema de fiscalização é quase nulo. Mais um problema para a segurança alimentar mundial, isto é a segurança de quem já tem comida e prefere algo menos perigoso;

A Amazônia foi o segundo tema. A Inglaterra decidiu cortar sua ajuda à Amazônia argumentando que precisa canalizar dinheiro para a reconstrução do Iraque. Creio que isso deveria ser um tema de debate lá e aqui. Já é difícil conter o avanço da soja na Amazônia assim como neutralizar o discurso dos produtivistas que querem ganhar dinheiro aqui e agora, passando por cima de duas riquezas essenciais do Brasil: a diversidade cultural, expressada pelas nações indígenas, e a diversidade biológica, contida na mata ainda virgem.

Ainda no sábado, participamos com os verdes franceses da manifestação final do Fórum Social Europeu, na Place de la Republique. Mais ou menos 100 mil pessoas vieram às ruas pedir uma outra mundialização. Havia de tudo, inclusive anarquistas e autônomos. Muitas dúvidas sobre a experiência brasileira, mas, de um modo geral, evitei fazer criticas publicas ao governo, fora do país. A entrevista que o Le Monde publicou no sábado foi feita aqui no Brasil.

Na segunda feira, na Assembléia Nacional francesa concedi entrevista coletiva junto com Noel Mamére, deputado verde que foi o candidato do partido às eleições presidenciais do ano passado. Expressei o apoio à iniciativa dos verdes que criaram uma CPI lá par apurar a intervenção de militares franceses na preparação da tortura no Chile, Argentina e Brasil. Informei que apresentei duas moções nas comissões de direitos humanos e relações exteriores da Câmara brasileira.

Finalmente, recebi Camille Cabral, a transsexual brasileira, que é vereadora em Paris e faz uma grande campanha contra a AIDS. Camille organizou uma homenagem para mim, nos debates feitos na Bolsa de Valores, intitulados “A Bolsa ou a Vida”. Infelizmente, tive de atrasar a viagem por causa da votação da medida provisória dos transgênicos no Brasil. Prometi apoio à luta dos travestis e transsexuais brasileiros em Paris e sugeri uma frente com os que estão na Itália e também com as profissionais do sexo que trabalham em Bragança, Portugal, e foram objeto de uma capa da revista norte-americana “Time”.

Camille quer mais apoio e flexibilidade dos políticos que, de um modo geral, ainda subestimam a luta das profissionais do sexo. Estabelecidos inúmeros contatos com os verdes europeus, ficamos de formular um projeto de website que possa ser o instrumento de nossa atuação conjunta.

Esse é um quadro ligeiro. Voltaremos a esses temas, ao longo do trabalho cotidiano. As fotos da manifestação dão uma idéia do alcance do movimento e as fotos da cidade, uma ligeira idéia do outono que avança rapidamente para o inverno.

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Um encontro com Jospin

Conversa com Lionel Jospin, no Paço Imperial. Ele queria falar de diversidade cultural, do papel do estado nesse campo. Queria também falar um pouco da mundialização e seus reflexos .

Fez uma intervenção de uns quinze minutos. Éramos nove convidados e tínhamos mais ou menos uma hora e meia para conversar. Jospin ouvia um a um. E respondia a cada intervenção.

Roberto D’Avila foi o mediador. Decidiu me dar a preferência porque era o único deputado. Falei uns cinco minutos. Para mim, o lance decisivo para a cultura brasileira será vivido na Alca. Mercado comum desejado pelos norte- americanos talvez não seja nosso caminho. Pelo menos, como disse Celso Lafer, não será um destino, mas uma opção.

A Alca trata do comércio cultural, sobretudo de filmes. Os norteamericanos não querem barreira nesse campo. Nossa perspectiva, creio eu, será a de ir empurrando a Alca com a barriga e desenvolvendo relações multilaterais, aprofundando o Mercosul , ampliando as relações com a Europa e alguns paises asiáticos. Por que apostar tudo num único cavalo?

Falei que tanto no campo cultural como no campo da economia a grande saída era buscar um pouco de autonomia nacional. Falei do caso dos remédios contra AIDS. Os norteamericanos não querem que surja aqui uma medicina popular, produzindo remédios baratos. Na verdade, é como se nos colocassem um revólver na cabeça e dizessem:os royalties ou a vida?

Não usei essa imagem. Mas ela expressa meu sentimento. Falei da questão amazônica, do perigo de uma guerra bioólogica. Escrevi um artigo sobre isto no www.no. com.br.

Finalmente, disse que não estava em jogo apenas uma resistência aos Estados Unidos. Mas estava em jogo buscar um nível de autonomia para a política, uma maneira de influenciar o mundo diante das forças cegas do Mercado.

Jospin reagiu muito bem. Achava importante ampliar as relações entre Brasil e Europa, realizar filmes em conjunto.

Apoiava a luta do Brasil, africanos e asiáticos para produzirem remédio barato para seus povos. Mencionou até o protocolo de Kyoto como um documento essencial, lamentando a decisão de Bush de se retirar dele.

Todos estamos buscando uma relativa autonomia diante do poder hegemônico dos Estados Unidos. A França faz isto de um modo mais aberto. O Brasil é mais tímido.

Se não fosse, acredito que Brasil e França tivessem produzido uma declaração conjunta exortando os Estados Unidos a voltar a fazer esforços para reduzir a poluição no planeta. Mas tudo indica que não queremos pressionar os Estados Unidos nessa questão vital para a humanidade.

O momento mais engraçado do debate foi quando Luis Carlos Barreto falou, em françês que a indústria cinematógrafica brasileira estava a meia bomba. Jospin não entendeu. O embaixador Macos Azambuja explicou, no seu ouvido, o que significava meia bomba. Jospin riu. Rimos todos. Um toque brasileiro isso de usar uma imagem sexual para descrever o estado de uma indústria.

Estou exausto. Amanhã continuo.

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Aids e os caminhos da medicina popular

De novo, subi a serra por algumas horas. Clara manhã de outono, asas deltas voando contra o azul lavado do céu. No caminho, vi um ipê amarelo numa curva, projetado contra o fundo verde da mata. Se ainda não houvesse uma bandeira do Brasil, essa imagem seria uma boa inspiração para a escolha das cores.

Os jornais dominicais discutem a crise. No fundo, todos conhecem o defecho: renuncia ou cassação. Mas vão alongando o assunto, porque é um momento em que as páginas políticas se reconciliam com seus eleitores.

De vez em quando, escrevo sobre isso. O jornalismo, antigamente, tinha como objetivo esclarecer os mistérios e buscar novos enigmas. O de agora, influenciado pelas telenovelas, alonga, mantém suspense, guarda suas revelações para o grande final.

Parto esta manhã para Porto Alegre para discutir os probelmas ligados a AIDS no Brasil e no mundo. Vou falar um pouco dessa luta do Brasil, África do Sul e Índia para produzir remédios mais baratos.

Na verdade, é uma luta muito mais ampla pois coloca em jogo a possibilidade de uma medicina popular nos países mais pobres. A estrutura das multinacinais acabou se revelando em contradição com a vida: é possível salvar mais gente, com menos dinheiro.

As multis argumentam que gastam muito em pesquisa. No entanto, gastam muito também em marketing, na disputa por mercados com as concorrentes.

Esse tema é muito importante. Dá para discutir em lugares fechados. Tudo que é muito importante deverá esperar um pouco o desfecho da crise.

Leio que Aécio Neves vai colocar a união civil de homossexuais como um tema, na pauta do dia 9. Devo me preparar de novo para defender o projeto da Marta Suplicy.

Da última vez que tentamos discutir, foi uma comoção, uma verdadeira desordem provocada pelos evangélicos.

Não acredito que haja clima, sobretudo porque a CPI está para ser criada e, quando for criada, não deixará espaço para outros temas.

É uma pena. Gostaria de continuar trabalhando, em paralelo à CPI, nos assuntos que não podem parar. Mesmo com a total indiferença da midia, é necessário prosseguir para evitar novos desastres com petróleo, leis de desmatamento, para fixar nossa posição nacional na conferência contra o racismo na Africa do Sul e, principalmente, para debater a Alca, Plano Colômbia, enfim temas que continuam a se desdobrar, apesar do foco estar apenas na corrupção e na violação do painel do Senado.

Um dos meus esforços na discussão da política brasileira para o encontro da África do Sul é a introdução do problema dos imigrantes como elemento central no debate sobre racismo. Ninguém se dá conta, mas 1,5 milhão de brasileiros já trabalham no exterior, com problemas de remessa de divisas, reunificação de familias, educacão das crianças, sobretudo em lugares onde pais clandestinos não podem matricular seus filhos nas escolas.

Claro que isto não esgota o tema do racismo contemporâneo. Mas, no meu entender, é o leito onde ele corre mais caudalosamente: a pressão dos nacionais contra os trabalhadores estrangeiros.

Fica anotado, para uma próxima.

Como sempre, no domingo, havia encontro de motociclistas na serra. Dessa vez, foram os donos de Harley Davidson. Eles são sinceros quando comparam suas máquinas com as japonesas. Consideram as japonesas mais desenvolvidas tecnologicamente. Mas, por outro lado, afirmam que a Harley é um mito, um modo de vida.

Essa capacidade que as marcas estão adquirindo no momento da história do capitalismo é inédita. Comunicam sentido de vida, num mundo sem deus e sem utopias

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