Desde o inicio do escândalo, a solução para o problema de Brasília era clara. O governador Arruda estava envolvido, o vice Paulo Otávio citado em inúmeras gravações, a Câmara Distrital tem um número muito reduzido de deputados confiáveis. A crise iria se desenrolar passo a passo. Depois de Arruda, a pressão se faria sobre Paulo Otávio e quando este caísse, o país acabaria conhecendo melhor a Câmara que existe em Brasília.
Interessante no Brasil como as soluções mais simples demoram a chegar. Lula teria de indicar um sucessor e o PT ganharia, indiretamente, as rédeas do Distrito Federal. E daí? De certa meneira, o PT já é vitorioso pois ganhou uma bandeira de luta contra a corrupção que o remete aos velhos tempos e também lhe dá uma possibilidade de mascarar os novos tempos, os oito anos de governo.
Se não houver intervenção federal, a mobilização em Brasília vai ser permanente, entrando no ano eleitoral. O único problema é encontrar candidatos que não tenham se envolvido, de uma forma ou de outra, com o processo de degradação da política na capital.
Arruda está preso durante o carnaval. Há quatro pedidos de impeachment contra o vice, Paulo Otávio. A solução da crise está muito distante e só a proposta do Procurador Geral da República, a intervenção federal, abre um caminho realmente novo. Mas dada a qualidade da vida política em Brasília, a força do populismo que se baseia na legalização de terrenos ocupados, talvez a solução seja apenas de uma crise. Outras virão no horizonte e, dessa forma, lenta e sofrida, a democracia vai amadurecer no Planalto Central.
Quando estourou esse escândalo em Brasília, estava no exterior. Ao chegar, na Câmara, afirmei que a saída era a renúncia imediata de José Roberto Arruda e uma intervenção federal, pois os que poderiam substitui-lo eram suspeitos também.
Uma intervenção federal vai fortalecer o Partido dos Trabalhadores nas próximas eleições. Arruda e Roriz eram favoritos. Mas o que importa esta consequência? Arruda escolheu o pior caminho, negando acusações e fingindo que nada aconteceu. Acreditou, como tantos acreditam, que bastava manipular um parlamento distrital também corrompido.
O resultado aí está. Arruda merece estar preso. Se tivesse renunciado e se dedicasse seriamente à sua defesa, talvez pudesse esperar o julgamento em liberdade. Mas ele fez precisamente o que um réu não pode fazer no desenrolar do processo: tentar comprar testemunhas, no caso o jornalista Edson Sombra.
Arruda rompeu com a realidade. Acreditou que era possível prosseguir na cara de pau, como o fizeram Renan e Sarney no Senado. Nem sempre esta tática dá certo. Quem sabe no futuro, não dará certo para ninguém.
Interessante a relação de governos e imprensa. A crítica clássica , inclusive de indivíduos, é a de que os jornais lançam suas denúncias em manchete e, quando precisam desmentir, o fazem num cantinho de página interna.
Sérgio Cabral não pode reclamar do Globo, pois o jornal inverteu a tendência. Publicou a manchete positiva sobre índice de assassinatos no alto da primeira página. E, no dia seguinte, relativizou o tema, mostrando, na página 17, que não era bem assim pois o governo não usou a base populacional do IBGE.
Sérgio Cabral não viu seu movimento de viagens ser divulgado nos jornais do Rio, assim como não se falou aqui do decreto que ampliava o limite de construção em áreas de proteção ambiental em Angra.
Realmente, aquela velha história dos governos sobre incompreensão dos jornais, má vontade dos jornalistas, não se aplica a Cabral e o Rio.
Não tivemos uma queda significativa no número de homicídios. Apenas uma pequena oscilação. O que já deveria ser saudado, pois a ausência de uma política mais ampla abre caminho para uma situação pior ainda do a que vivemos.
Como se vê, a grande manchete é a de que a taxa de homicídios não subiu, apesar de Cabral.
A morte dos operários no Complexo do Alemão é um sintoma de que há algo errado com o projeto do governo.
Não me refiro a prazos de execução, orçamentos, porque isso pode ser discutido em outro contexto, como o faz Ricardo Noblat analisando o fracasso do PAC em seu blog.
O principal problema é o tipo de arranjo político realizado para que as obras saíssem. Os traficantes continuaram com poder na área. Não só continuaram como sentiram-se protegidos pela existência das obras, um acordo de cavalheiros – um lado não mexe com o outro.
Há pouco menos de um ano, o jornal O Dia divulgou um vídeo de uma festa de aniversário no Complexo do Alemão. Havia uma grande exibição de armas pelos participantes. Na verdade, é difícil encontrar uma concentração de armas pesadas tão impressionante fora dos quartéis. Os traficantes estavam mostrando que estão tranquilos, aproveitaram a trégua para comprar novas armas e ampliar seu domínio sobre a área.
Após a morte dos operários, o Governador Sérgio Cabral concluiu que não bastam obras, é preciso colocar as forças de pacificação. Quanto tempo levou para chegar a esta conclusão? Por que realizar obras na Zona Norte e concentrar o esforço de pacificação em alguns morros da Zona Sul? Os cálculos são sempre políticos, nunca levam em conta um projeto amplo de combate à violência. As obras no Alemão deveriam ter sido precedidas do processo de pacificação.
A escolha do governo acabou levando-o a concluir diante dos corpos dos operários que seus críticos tinham razão.
A decisão de Lula de comprar os caças franceses Rafale foi muito discutida, depois de anunciada por ele, na visita de Sarkozy ao Brasil. De todas as críticas que li, a mais interessante foi a de um oficial da Aeronautica, cujo texto me foi enviado por amigos.
Ele faz uma longa análise técnica dos três aviões disponíveis, partindo do princípio de que todos serviriam ao Brasil. Em seguida, mostra que numa pontuação rigorosa o sueco ficava em primeiro lugar, o norte-americano em segundo e, finalmente, em terceiro, longe, o caça francês.
Sua conclusão é interessante. O oficial compreende que a decisão seja política mas afirma, sensatamente, que isto justificaria , por exemplo, a escolha do segundo melhor pontuado. Mas escolher quem pontuou em terceiro, longe, não é pura e simplesmente uma escolha política prevalecendo sobre a técnica. É uma escolha que despreza a técnica e o longo e minucioso trabalho de teste e seleção feito pela Aeronáutica. É a política como antítese da técnica e não como sua visão aperfeiçoada pelo exame de conjunto.
Um tipo de escolha como esta abre caminho para muita desconfiança sobre as verdadeiras intenções do governo.
Alguns jornalistas afirmam que a campanha já começou, porque fazemos critica ao governo Cabral na Internet. Isto é um equívoco, pelo menos no meu caso. Estou apenas cumprindo um papel que a imprensa poderia cumprir, se aceitasse uma nova linguagem. Fizemos uma animação com as viagens de Cabral. Onde estavam os dados? Na imprensa. De novo, fizemos uma animação sobre seus gastos em propaganda. Onde fomos buscar os dados? Na imprensa.
Estamos fazendo apenas jornalismo, nesse caso. Só que com a linguagem que o jornalismo brasileiro ainda não descobriu na sua plenitude.
Ninguém se declarou candidato, ninguém pediu voto, ninguém recomendou que não se votasse em alguém. Apenas informamos os passos do governador, seus gastos, seus erros. Lembrem-se que não foi divulgada pela imprensa daqui o decreto de Cabral que liberou novas construções em área de proteção ambiental, em Angra. Muito menos foram divulgados os gastos com viagens.
Não há ainda campanha na internet. Apenas um pouco de informação.
Morreu aos 91 anos,o grande escritor americano J. D. Salinger. Os jornais de hoje publicam sua biografia. Logo a dele, que detestava biografias. Salinger, recluso desde os anos 80, ficou famoso, exatamente, porque odiava ser famoso. Uma espécie de Greta Garbo das letras, só que com um talento inquestionável.
Apanhador no Campo de Centeio é seu livro mais conhecido no Brasil e no mundo. Vendeu 60 milhões de exemplares. Um garoto gazeteiro, Holden Caulfield, tornou-se um personagem conhecido e amado, porque Salinger, mais que ninguém, soube mostrar a insegurança e a vulnerabilidade adolescente. Com uma linguagem da gíria adolescente e a mesma suspeita que eles têm dos adultos.
Nine Stories é outro livro que revolucionou o conto americano, por dispensar a estrutura clássica – princípio, meio e fim. Personagem de Salinger é também a família Glass, inteligente, pairando no mundo. Vale a pena ler seus livros e pressionar para que todo o restante de sua obra seja publicado em português. Ele escrevia para sua própria satisfação. Salinger deixa alguns livros ainda por publicar.
Uma curta viagem a Japeri e Engenheiro Paulo de Frontin, muitas lições sobre o interior. Na Baixada Fluminense, com quase 150 mil habitantes, Japeri tem problemas típicos de cidade dormitório: escassos investimentos e pouca infraetrutura urbana. Quase 30 mil pessoas trabalham fora de casa e muitas delas viajam quase seis horas por dia para ir e voltar do emprego. Uma dupla jornada de trabalho. Japeri tem menos de 20 por cento de seus bairros com saneamento básico.
Subi a serra de Paracambi e encontrei uma linda cachoeira no caminho. Engenheiro Paulo de Frontin tem pouco mais de 12 mil habitantes, 60 por cento de cobertura vegetal preservada e caminha para os 100 por cento de ruas com saneamento básico. O secretario de Meio Ambiente, Andre Luiz Cavalieri, me ofereceu um almoço para comemorar a emenda orçamentária que apresentei para projetos ambientais. Recebi nas duas cidades documentos e muitos dados para compreender melhor a região.
Dia de aprendizado e também de grandes paisagens na Serra de Paracambi.
O fechamento da RCTV é apenas um dos problemas de Chávez. Há a questão econômica, dramatizada pela política de câmbio, o desabastecimento e encampação de supermercados, a falta de energia e água (estes temas bastante populares), a crise com a Colômbia e outros problemas.
Mas examinando a demissão do vice-presidente Ramon Carrizalez entendemos que há um outro transtorno muito sério por lá. É a cegueira antiamericana. O vice entrou em crise com o Ministério da Defesa porque este denunciou a invasão do espaço aéreo venezuelano por um avião dos EUA. Descobriu-se, em seguida, que a foto do avião fora retirada da internet. A invasão do espaço aéreo foi produzida nos computadores.
Não é novidade esta cegueira. Chávez declarou que o terremoto no Haiti foi provocado por uma nova arma americana construída para produzir, artificialmente, desastres naturais. Os americanos teriam testado esta arma no Haiti, para usá-la depois em território iraniano.
Aparentemente, a crise não deveria levar a estas invenções, pois há muito o que fazer para aplacar a irritação popular. Mas aí, entra o velho fator de criação da ameaça externa para manter a coesão interna em tempo de crise. Bode expiatório histórico, os Estados Unidos, desta vez, mantêm uma posição distante porém atenta aos movimentos de Chávez. Tudo o que ele deseja, no momento, é um gesto de hostilidade norte-americano. Na falta dele, recorre às montagens fotográficas e à fantasia científica.
Ainda há quem admire a considere a experiência chavista uma boa alternativa para o Brasil. É a famosa vanguarda do atraso.
A notícia de que o Estado do Rio é o que apresenta o maior índice de trabalho escravo no país deve ter surpreendido. Somos a segunda economia, terceiro colégio eleitoral, a cidade do Rio é uma espécie de vanguarda estética e política.
Mas, no fundo, não se trata de uma grande surpresa. Historicamente, a lentidão em nos livrarmos do trabalho escravo foi um fator fundamental para que São Paulo assumisse a liderança econômica do país. É um processo que aconteceu no fim do século XIX com a decisão dos governos paulistas de estimular a vinda de colonos estrangeiros. O café plantado aqui dependia do trabalho escravo e foi, progressivamente, ocupando as terras disponíveis. São Paulo se abriu para o trabalho assalariado, dando aos colonos alguns pedaços de terra para que desenvolvessem também sua agricultura.
A maior parte do trabalho escravo no Rio foi encontrada nos canaviais. De novo, a comparação entre a escolha dos dois estados mostra a tendência à mecanização e forte capitalização de um lado, de outro um sabor de decadência.
O Rio perdeu substância não apenas porque houve a retirada da capital. Tanto neste momento, como no fim da escravatura, não foram assumidas as opções inteligentes pela sua vanguarda. Demoramos a compreender a importância do trabalho assalariado e da importação de colonos; depois da mudança da capital, não houve um plano para recompensar a cidade e toda a região que estava ligada a ela. Senhor e escravo estão ligados na mesma teia histórica. Um filósofo alemão dizia que os senhores, por não terem de se dedicar ao trabalho braçal, estavam disponíveis para pensar o mundo e compreendê-lo mais amplamente. Não foi o caso por aqui.
Fernando Gabeira, escritor, jornalista e deputado federal do Rio, nascido em 1941, e mineiro de Juiz de Fora e carioca por opcao desde 1963. E pai de duas filhas: Tami e Maya. Destacou-se como jornalista, logo no inicio da carreira, na funcao de redator do Jornal do Brasil, onde trabalhou de 1964 a 1968.
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